Partindo do percurso geohistórico da constituição regional brasileira, podemos afirmar que esta – seguindo a diversidade política associada em sua gênese – termina por resultar na montagem de uma imagem agregada ao discurso regional que, por vezes torna-se vital para a formação de uma suposta constituição homogênea. A elaboração constitutiva do discurso imagético na formação regional traz à proposição da identificação por meio de recortes da paisagem como forma de construção de uma identidade que impulsione a consolidação da região.
Desse modo, a imagem emerge como ferramenta implícita na constituição da montagem da região, objetivando a elaboração de uma identidade de base regional. A partir da construção identitária, busca-se a associação da configuração regional ao discurso de reprodutora da verdade implícita na verificação imagética, como lembra Lucrécia Ferrara (2000, p. 118):
A imagem corresponde à informação solidamente relacionada a um significado que se constrói numa síntese de contornos claros que a faz única e intransferível. A
imagem tem um e apenas um significado, corresponde a um dado solidamente codificado no modo de ser daquela sintaxe.
A associação da construção imagética na formação do planejamento regional não é recente na historiografia nacional, encontrando-se presente desde a tomada da formação da primeira divisão regional brasileira elaborada pelo IBGE. Fábio Guimarães, no documento de 1942 traz em sua constituição o apoio do discurso imagético a fim de corroborar sua seleção regional (rever Figura 14).
Para além da justificação da divisão regional, a produção de imagens no planejamento de Fábio Guimarães traz consigo a tomada dos usos dessas com a construção de uma identidade regionalista. Desse modo, temos a seleção de parcelas da paisagem natural adotada como característica dominante da região tratada, como é possível observar na utilização das araucárias como representação da região Sul (Figura 18), ou das cactáceas (Figura 19) como “característica típica do nordeste brasileiro” (GUIMARÃES, 1942, p. 31).
Figura 18 (à esquerda) e Figura 19 (à direita): Representações da região Sul e Nordeste no
Plano de Divisão regional de Fábio Guimarães
Fonte: Guimarães (1942, p. 31 e 37).
Analisando o discurso inerente na produção imagética do plano de Guimarães, percebemos que mesmo ao apoiar-se na divisão regional com base na análise físico-ambiental, a intensão em diferenciar o Leste, a fim de ressaltar o Leste Meridional (atual Sudeste)
encontra-se associada na busca pela construção de um discurso imagético que agregasse o aspecto natural com o desenvolvimento econômico. Desse modo, é curioso notar a modulação de uma paisagem natural formada essencialmente pela produção agrícola nos Estados do Rio de Janeiro (Figura 20) e São Paulo (Figura 21), a fim de fomentar a projeção progressista desta região em detrimento ao restante do país.
Figura 20 (à esquerda): Plantação de laranjas em Nova Iguaçu (Rio de Janeiro); e Figura 21 (à direita): Canavial em Cravinhos (São Paulo).
Fonte: Guimarães (1942, p. 41-42).
Tendo este documento histórico da organização regional brasileira, percebemos que por meio das imagens fotográficas é possível notar a busca pela moldagem de um discurso de diferenciação entre as macrorregiões, pautado pelas condições da natureza. Contrariando uma possível maior aproximação do ponto de vista ambiental de parte da Bahia com o Sudeste, este projeto regional reforça o papel dos Estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro como centro econômico nacional, configurando o aspecto do avanço da produção agrícola perpetrado nesses três Estados como uma ferramenta de seleção físico- natural.
Frente à formação do discurso regionalista e sua construção imagética é essencial destacarmos que este conjunto ideológico não se restringe apenas à construção de um discurso com a pretensão de diluir uma possível essência regional sob a mimetização da imagem. Como afirma Albuquerque Júnior (2009), o discurso imagético-regional não busca apenas um mero mascaramento da verdade da região, mas procura institui-la. A formação do discurso imagético, quer seja por meio de fotografias, símbolos ou signos, apresenta-se como modo de
injunção de pseudoverdades sobre a região, “o que lhes dá consistência interna e faz com que tal arquivo de imagens e textos possa ser agenciado e vir a compor discursos que partem de paradigmas teóricos os mais diferenciados” (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2009, p. 62). Assim, é importante notar que do ponto de vista histórico, a produção imagética da região rompe os planos políticos, vindo encontrar sua reprodução no campo científico, quer seja de cunho culturalista, marxista, estruturalista, naturalista ou fenomenológico. Partindo desse interim, é possível notarmos que a imagem torna-se ferramenta essencial na busca pela efetivação do discurso regionalista, ao qual rompe com o papel de mera produção figurativa, inserindo-a de modo efetivo no discurso de implementação das políticas públicas regionais.
Nesse contexto temos o papel das gravuras apresentadas nas edições da Revista Brasileira de Geografia (RBG), editorada pelo IBGE, que vem reforçar a busca pela consolidação do discurso regionalista a partir da formação imagética das regiões brasileiras. Tendo suas atividades iniciadas em Janeiro de 1939, a RBC inicia ainda em Outubro daquele mesmo ano um espaço fixo no periódico para a apresentação de imagens que venham a apresentar a diversidade da paisagem brasileira. Intitulado de “Tipos e Aspectos do Brasil”, este setor da revista consistia na apresentação de pequenos textos acompanhados por gravuras do artista Percy Lau.
Criado no período entre guerras, a RBG surge com o objetivo de internacionalizar os conhecimentos acerca do território brasileiro, tendo como principal marco a descrição de viagens exploratórias com fins de registro fotográfico. As chamadas “viagens modernas” ganham espaço no referido periódico, ao ponto que as figuras paisagísticas, longe de resultarem de “puro reflexo ideológico do Estado Novo, seria mais fecundo vê-la como um sistema de ideias, de cultura, cujo sentido está tanto no olhar dos que representam os tipos – desenhistas e fotógrafos – quanto neles mesmo” (ANGOTTI-SALGUEIRO, 2005, p. 6).
Assim, “Tipos e Aspectos do Brasil” vem trazer uma interligação com as pesquisas designadas pelo instituto na tomada da regionalização brasileira, trazendo a formação de emblemas autorizados da imagerie regionalista nacional. Tal proposição, apesar de num primeiro momento não apresentar-se de modo objetivo, encontrava-se claro ao longo das edições, por meio da segmentação da apresentação das imagens ao longo das edições da revista. Iniciando com a apresentação de um rio da Amazônia, e, por conseguinte a representação da caatinga e os campos de criação gaúcho, Lau vem reforçar a ideia da
homogeneidade da paisagem regionalizada, consolidando a proposição idealizada por Guimarães no mesmo período.
Figura 22: Capa da coletânea de “Tipos e Aspectos do Brasil”. Aqui as linhas divisórias
estaduais são substituídas por um conjunto de grupos de imagens que denotam a regionalização do país.
Fonte: Acervo da biblioteca do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de Fortaleza.
Assim como Guimarães, Percy Lau utiliza-se das variáveis ambientais e econômicas para a construção da imagética regional (ver Figura 23), contribuindo para a reprodução no banco iconográfico dos livros didáticos de Geografia e em outros veículos de comunicação, e a conseguinte consolidação da imagética regional no país. Desse modo, percebemos o percurso da gestão histórica da formação da imagem do Nordeste brasileiro, quer seja associado a paradigmas interligados à miséria e o atraso econômico, típico da estrutura regional dominante da segunda metade do século XX, quer seja como seara do lazer
marítimo, pregada nas últimas duas décadas como redentora da região. A importância imagética torna-se nas políticas regionalistas presença marcante, tornando a própria configuração regional imbricada no modelo imagético, como é possível notarmos no PDSRT do Meio-Norte.
Figura 23 - Representações da seca, do vaqueiro do Nordeste e da Caatinga, por Percy Lau
nas páginas da RBG.