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Procedimiento experimental

Os pressupostos teóricos de Marx Weber e Malinowski de que a religião tem como função, além de produzir um sentido ao sofrimento, produzir mecanismos que ajudem a superá-lo. Os quais acabaram por conduzir, segundo Parés, pesquisadores africanos nos anos 1960-1970, a proporem um modelo teórico conhecido como complexo ‘fortuna- infortúnio’ ou ‘ventura-desventura’, em que as atividades religiosas teriam como finalidade a prevenção do ‘infortúnio’ e a ‘maximização da boa sorte’.

Parés considera o modelo aplicável às religiões afro-brasileiras, entre outras, que se preocupam com a “sustentabilidade da vida neste mundo”, diferentemente de religiões de revelação (Cristianismo, Islamismo, Judaísmo) cujo objetivo é a salvação da alma pós- morte. A concepção de religião que ele adota é “como aquele conjunto de práticas que estabelecem uma interação entre ‘este mundo’ (dos humanos) e o ‘outro mundo’, invisível, habitado (geralmente) por uma série de ‘entidades espirituais’ responsáveis pela sustentabilidade da vida. O ritual, por sua vez, é definido como o meio estruturado e comportamental que viabiliza essa interação” (PARÉS, 2006:104). Em outro trecho o este mesmo autor salienta que a “busca por visibilidade social e poder, um dos grandes drives ou

impulsos humanos que responde por uma parte importante da dinâmica social, contribuindo, sem dúvida, para reforçar o funcionamento de instituições que permitiam sua expressão” (idem:110), no caso do Amapá parece motivar a maior parte das adesões ao Candomblé.

Perguntando sobre o que teria levado meus informantes a se iniciarem na religião dos orixás, recebi respostas variadas. Mas, que podem ser exemplificadas da seguinte maneira:

antes quem entrava (no Candomblé) era porque queria crescer espiritualmente ou com outra finalidade como enriquecer, por exemplo, ou para se exaltar como “feito” diante dos mineiros, dos vodunsis, dos umbandistas mais antigos que continuavam naquele mesmo patamar de conhecimento (Pai Welson Tombalajô, babalorixá do Ilê Axé Ojo NeOgum – Macapá/Ap).

Outro sacerdote reforça tal questão com o seguinte depoimento: “chegou um

período (...) que uma certa criatura, uma menina, que era iaô, me chamou de abiã, que eu não era feito, que a Mina não valia nada, que os nossos orixás não prestavam” 73.

Podemos perceber aqui duas questões acerca da visão que os afro-religiosos (candomblecistas) de Macapá têm sobre o Candomblé: a) é superior em relação à Mina e a Umbanda porque detém conhecimentos mais “profundos” que permitiriam, entre outras coisas, o crescimento espiritual; b) é possibilidade de enriquecimento material.

Assim, umbandistas e mineiros estariam migrando para o Candomblé – na maioria dos casos essa religião soma-se às outras – no intuito de adquirir um status religioso superior, como é confirmado por pai Armando, “a iniciação no Candomblé possibilitou

conhecer muitas pessoas, a questão do respeito muda mais porque a pessoa, quando eu não era feito no Candomblé esses iaôs de ontem, que fazem santo ontem, não respeitavam a gente porque a gente era de outra nação, entendeu?.”

Para muitos adeptos do Candomblé a adesão à religião constituiria a conclusão da formação religiosa, seria algo comparado com a educação escolar onde o Candomblé corresponderia ao Ensino Superior.

A superioridade do Candomblé também se daria de outras formas. Um candomblecista, que tem uma longa trajetória na Umbanda, afirmou que o “tempo para o resultado” no Candomblé é menor que nas outras religiões afro-brasileiras. Contou já ter observado que os trabalhos feitos no Candomblé são mais rápidos. E não se pode negar que a rapidez é um diferencial significativo nestes tempos, em qualquer setor do mercado, incluindo o religioso, considerando sobretudo para a clientela que, evidentemente, dá preferência a quem pode lhe proporcionar maior agilidade nas respostas. Um pai ou mãe-de- santo com essas prerrogativas tem mais chances de sucesso.

Quanto ao crescimento material, cuja ocorrência é almejada, e que ao não acontecer motiva, entre outras coisas a troca de sacerdote, como já vimos anteriormente, não é uma questão unânime entre os candomblecistas. Alguns acreditam que “fazer o santo” e cumprir as obrigações é garantia de que os orixás trarão as riquezas desejadas, e nesse caso, apontam o pai “fulano” que “quando chegou aqui, trabalhava em um quartinho, com uma

mesa, uma vela e copo com água, e hoje está com barracão e residência em alvenaria”.

Outros consideram que a riqueza que os orixás proporcionam é o equilíbrio e a serenidade para “tocar” a vida.

A gente procura ter isso aqui pra chegar e ficar em paz com a gente mesmo. Pensa que eu não brigo com a minha mulher, que a minha mulher não briga comigo, briga, mas aí é que tá, o orixá é para dar paciência pra gente, como outra religião. O católico assiste a missa, o padre fala, o pastor, aquela coisa toda, pra quê? Pra ele refletir. Ele refletindo vai ter mais ponderação pra passar pelas dificuldades. (Pai Cláudio, sacerdote do Ilê Oju D’Oxóssi – Macapá/Ap).

Ou ainda, “queria estar em dias com o meu orixá que é Ogum. Fazer a vontade do meu orixá para ele iluminar os meus caminhos mais do que ele iluminava”. (Pai Welson Tombalajô, Ilê Ojo NeOgum – Macapá/Ap).

Para esses religiosos o progresso financeiro é resultado de toda uma vida de diligentes esforços, capacidade de administração dos recursos próprios e de superação das limitações.

O Candomblé também, acredita-se, produz um crescimento e aperfeiçoamento da mediunidade, na medida em que o religioso vai adquirindo maior controle sobre as incorporações. O crescimento espiritual do médium reflete na entidade de forma a ir modelando o comportamento diante do público e sobretudo a forma como acontece e o momento da incorporação. Um exemplo disso me foi dado com a entidade conhecida como Zé Pelintra, que ao tomar o médium antes do mesmo ter se submetido à feitura no Candomblé, bebia exageradamente, queria comer gilete, caco de vidro, andar sobre brasas, e que posteriormente tornara-se mais sociável, mudando consideravelmente os hábitos.

“Há uma evolução daquela entidade em cima do médium. Os dois num só, eu

acredito nisso”74. Esse sacerdote entende, no entanto, que esse processo de evolução espiritual é maior na Umbanda em virtude das chamadas “sessões de desenvolvimento”, processo em que o religioso vai adquirindo os conhecimentos da religião e de si mesmo que ocorrem regularmente e não fazem parte das práticas do Candomblé. Os processos e mecanismos de aquisição e transmissão do conhecimento religioso dentro dos terreiros de Macapá serão objetos do terceiro capítulo do presente estudo.

No Candomblé o crescimento espiritual é resultante do processo iniciático, onde a cada obrigação paga o religioso adquire mais domínio sobre a própria mediunidade. Um iaô, por exemplo, está sujeito a ser tomado pelo orixá toda vez que no xirê cantarem para o orixá do sacerdote, para seu próprio orixá, e ainda, para Oxalá, o que faz com fiquem durante a maior parte das cerimônias religiosas sob a influência (transe) do orixá ou do

erê75. Com os graduados isso não acontece, somente são possuídos de surpresa se cantarem um fundamento muito forte. “Quanto mais velho de orixá (graduado), mais difícil é para o

orixá pegar.” 76 Ou seja, o tempo de iniciação aumenta a segurança e a autonomia do médium em relação às entidades espirituais e aos deuses.

A beleza, o luxo dos orixás e a alegria e animação das festas foram razões indicadas por apenas dois entrevistados como os fatores que os teriam levado ao Candomblé. Um desses informantes já recebeu decá, mas ainda não abriu terreiro e continua na casa de origem onde exerce as funções de pai pequeno. É um dos babalorixás mais jovens e, provavelmente, o que tem maior participação na vida cultural da cidade onde integra grupos de dança, participa do carnaval, da quadra junina, etc.

As festas no candomblé podem ser entendidas com esse caráter de proselitismo, mas são, sobretudo, “uma ruptura na obrigação do trabalho, uma liberação dos limites e

constrangimentos da condição do homem: elas são os momentos em que se vive o mito, o sonho. O momento em que os humanos recebem deuses em sua casa, às vezes até mesmo em seu próprio corpo.”77 (queira ver fig. 01).

75 Os religiosos entendem o erê como um estágio de transe que antecede a possessão do orixá, e como

entidade espiritual infantil, responsável pela preparação do corpo do médium para o recebimento da divindade.

76 Reginaldo Massocuê, pai pequeno do Ilê Asé Ibi Olú Fonnim – Macapá/Ap. 77

AMARAL, AMARAL, Rita. Xirê! O modo de crer e viver no candomblé. Rio de Janeiro: Pallas; São Paulo: EDUC, 2002:30.

Fig. 01 – Orixás Iemanjá e Oxalá (fotografia Decleoma Lobato - 2007).

Enfim, qualquer que tenha sido a motivação explícita ou implícita para a adesão ao Candomblé, todos alegaram que houve determinação do orixá. O orixá estava pedindo feitura e essa exigência se manifestava através de doenças, perturbações espirituais, problemas financeiros, familiares, e toda ordem de dificuldades.