O conjunto interativo da paisagem (geossistema) é composto por ecossistemas ou por classes de cobertura ou uso do solo (unidades), originando, unidades homogêneas, porém diferentes em relação ao entorno. Essa tendência tem como finalidade principal o conhecimento da estrutura e funcionamento da superfície terrestre considerada globalmente, como um todo (BÓLOS, 1983).
Apesar da forte correlação, a paisagem não pode ser confundida com o ecossistema, que é um conceito biológico (SOTCHAVA, 1977). Embora possa ser aplicado às diversas escalas de grandeza espacial, a sua ênfase é sobre a interação vertical entre os componentes:
Nos ecossistemas, os fluxos dominantes são os da interação vertical, pois abrangem as cadeias alimentares pelas quais fluem a energia, conjuntamente com os ciclos biológicos necessários para a ciclagem dos nutrientes essenciais [...] (CHRISTOFOLETTI, 1999, p.36).
A paisagem é integrada por vários ecossistemas (complexos biológicos), caracterizando-se como unidades, que juntas compõem um mosaico de forma e conteúdo, natural e cultural e em perpétua evolução. Diferente da paisagem, o ecossistema não possui escala e nem limite espacial bem definido. Portanto, não é um conceito geográfico, mas entre os componentes da paisagem existem relações horizontais ou ecológicas, que não podem ser desconsideradas, já que influenciam diretamente na dinâmica, estrutura e organização da paisagem.
Na perspectiva de Odum e Barrett (2008), os principais componentes da paisagem e que compõem o mosaico da paisagem são: (i) a matriz de paisagem; (ii) a mancha de
paisagem; e (iv) o corredor de paisagem. A primeira corresponde a uma imensa área com
tipos de ecossistemas ou vegetação similares, na qual estão inseridas as manchas e os corredores da paisagem. A mancha da paisagem por sua vez é uma área relativamente homogênea que difere da matriz que a cerca, também denominada de fragmento. Ao longo de uma paisagem existem inúmeras manchas, tanto naturais quanto socialmente construídas. Já o corredor da paisagem é uma faixa que difere da matriz em ambos os lados e que geralmente liga duas ou mais manchas de paisagem de habitat similar (Figura 02).
Na atualidade, é crescente a percepção de que o reconhecimento da hierarquia dos níveis de organização, visando a melhor compreensão da estrutura e o funcionamento dos ecossistemas, não deve ater-se somente a níveis abaixo do mesmo, mas também e progressivamente, nos níveis acima dos ecossistemas, como a paisagem, a ecorregião ou biomas (ODUM; BARRETT, 2008).
2.2.2 Enfoques e métodos de Análise da Paisagem
A paisagem quanto a sua análise pressupõe o conjunto de métodos e procedimentos que possibilitem interpretar a sua dinâmica e todos os processos de forma integrativa e hierárquica. De um modo geral, esses métodos podem ser qualitativos (descrição, classificação e delimitação) e/ou quantitativos (quantificação).
Para Bertrand (2004), a análise da paisagem se apresenta primeiramente como um problema de método. Nesse sentindo, implica técnicas de análise e classificação específicas, entre elas a noção de escala, tendo em vista que esta é inseparável do estudo da paisagem. Quanto a sua classificação, varia de acordo com o aspecto da paisagem a ser analisado ou da
Fonte: Adaptado de Odum e Barrett (2008).
particularidade de cada disciplina (Geografia ou Ecologia), porém parte-se sempre de um sistema esquematicamente delimitado, formado por unidades homogêneas e hierarquizadas, que se encaixam umas nas outras. Nesse sentido, o autor propõe um sistema de classificação hierárquico, pautado em seis níveis tempôro-espaciais, visando facilitar a análise da paisagem, conforme Quadro 02. Tal sistema pode ser usado como ponto de partida para a classificação da paisagem de interesse, ao permitir vislumbrar a hierarquia, bem como a ordem existente entre os elementos que a compõem. A zona, o domínio e a região natural correspondem às unidades superiores; e, o geossistema, o geofáceis e o geótopo situam-se enquanto unidades inferiores.
De acordo com Bertrand (2004), o geossistema corresponde ao complexo geográfico, onde se situam a maior parte dos fenômenos de interferência entre os elementos da paisagem e que evoluem as combinações dialéticas (relação natureza e sociedade); o geofácies refere-se ao aspecto fisionômico, mais precisamente ao mosaico de forma e
Quadro 02- Sistema de classificação da paisagem proposto por Bertrand (1972).
conteúdo que se sucedem no tempo e no espaço no interior do geossistema; e, o geótopo a unidade elementar ou a última escala espacial diretamente interligada ao geofácies. De forma prática, pode-se fazer a seguinte associação: o geossistema corresponde à área de estudo de interesse, o geofácies o critério fisionômico (forma, conteúdo, estrutura), que pode ser os tipos de uso e cobertura do solo, por exemplo, e, por fim, o geótopo como os limites ocupados por cada tipologia (Esquema 01).
No que tange a distinção da paisagem, Carl Troll, em 1939, fez amplo uso de fotografias aéreas para interpretar a interação entre os elementos da superfície terrestre como a água, o solo, a vegetação e o uso da terra (JENSEN, 2009). Na atualidade, entre as técnicas usadas destacam-se o uso do Geoprocessamento e do Sensoriamento Remoto na análise da estrutura, padrão, distribuição e monitoramento das paisagens. De acordo com Jensen (2009), os princípios de ecologia da paisagem desenvolveram-se bastante com o auxílio dessas técnicas, em particular a partir de dados obtidos via sensoriamento remoto, com vista a avaliar a saúde e a diversidade da vegetação, bem como outras variáveis dos ecossistemas.
Segundo Porto e Menegat (2004), apesar da grande disponibilidade de softwares voltados a manipulação de informações geográficas, o método básico de análise em ecologia da paisagem reside na compreensão das características fisionômicas e estruturais dentro de diversas escalas de análise, que vai da escala local à regional. Porém, o enforque estrutural corresponde a apenas um dos enfoques possíveis na análise da paisagem. Além deste, destacam-se o funcional, o evolutivo-dinâmico, o antropogênico e o integrativo da estabilidade e sustentabilidade da paisagem (RODRIGUEZ et al., 2007).
GEOSSISTEMA GEOFÁCIES GEÓTOPO ÁREA DE ESTUDO (Referência empírica) ASPECTO FISIONÔMICO
(Ex. Classes de uso do solo e Cobertura vegetal).
ÁREA OCUPADA
(Mancha)