Para a rodada estatística geral42, incluímos apenas as formas na posição de sujeito, sendo, pois, desconsiderados dados sem a realização plena do sujeito visto a dificuldade em recuperarmos a intenção do falante, no momento da interlocução, a partir da desinência verbal de terceira pessoa, conforme exemplos abaixo:
(1) “Ei cara tu vai viaja? Onde é que tu vais? Onde é que Ø vai com essa mala?” (INF. MA26/3)
(2) “Aí eu diria: Hoje Ø vai tê alta. Cê vai saí hoje.” (INF. MA26/1)
Não foram, ainda, consideradas outras formas sintáticas – vocativo, pronome objeto e possessivo –, bem como casos em que as formas apareceram isoladamente, conforme exemplos abaixo:
(3) “Ou então, “Ei, você, volte! Caiu... a sua bolsa”. (INF. MA26/1) (4) “Carol, essa tarefa é de você.” (INF. MA9/2)
(5) “Essa tarefa não é pra mim, pertence a você” (INF. MA9/3)
(6) “Piolho de peixe é um bichinho também que penetra, dói, coça,
você... às vezes é comum na praia.” (INF. MA26/7)
(7) “Tu, Tigre Paraguaio, tu estás pescando, né?”. (INF. MA26/7) (8) “Você... você fazê” (INF. MA16/2)
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Entende-se como rodada estatística geral, o arquivo contendo dados de todos os informantes do corpus mínimo. (cf. CAPÍTULO 4, p. 56).
Uma vez organizado o critério de seleção dos dados, podemos verificar, na tabela abaixo, como as formas tu e você, cê e ocê se distribuem no corpus analisado.
Tabela 5. 1 – Distribuição geral das formas tu e você, ocê e cê nas localidades investigadas
Ao todo, foram registrados 328 dados sendo 126 ocorrências de tu, 168 de você, 27 da forma reduzida cê e 7 da forma ocê. Apesar de nosso estudo se tratar de uma análise binária – tu e você –, faz-se necessário comentar um dado importante observado quando da distribuição geral das formas registradas.
Mesmo não tendo sido possível o cruzamento da variável dependente com o fator localidade, uma vez que a rodada estatística geral apresentou nocautes, observamos que, com exceção de Balsas, todas as localidades apresentaram a forma reduzida cê, sendo Tuntum e Alto Parnaíba as que apresentaram a maior ocorrência para essa forma, sendo 6 ocorrências (14.3%) e 4 ocorrências (12.1%), respectivamente.
A princípio, esses dados nos permitiriam afirmar que a área urbana43, neste caso, São Luís, capital do Estado, favorece o uso da forma plena você, sendo a forma reduzida cê preferência dos falantes da área rural, neste caso os demais municípios investigados.
Entretanto, ao compararmos a ocorrência de cê dessas localidades com a de São Luís (8.6%), vemos que a diferença percentual de 5.7% não nos permite afirmar que a área rural
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Considerando que São Luís permaneceu, durante muito tempo, isolada dos demais municípios, o contraste rural-urbano, neste caso a oposição da capital às demais localidades, leva em consideração a proposta de Bortoni-Ricardo (2004). Isto é, se pensarmos num contínuo de urbanização, os falares rurais são característicos das comunidades mais isoladas geograficamente “pelas dificuldades geográficas de acesso, como rios e montanhas, e pela falta de meios de comunicação”, se comparadas à variedade urbana que, com o desenvolvimento sócio-econômico, sofreu desde cedo a influência de agências padronizadoras da língua, como a imprensa, indústrias, comércio e repartições civis e militares. (BORTONI-RICARDO, 2004, p.52).
TU VOCÊ CÊ OCÊ TOTAL
Bacabal 13 56.5% 9 39.1% 1 4.3% 0 0% 23 Balsas 17 56.7% 13 43.3% 0 0% 0 0% 30 Alto Parnaíba 5 15.2% 20 60.6% 4 12.1% 4 12.1% 33 Tuntum 15 35.7% 18 42.9% 6 14.3% 3 7.1% 42 Pinheiro 31 36.9% 46 54.1 7 8.2 0 0% 84 São Luís 45 38.8% 61 52.2% 10 8.6 0 0% 116 Total 126 38.8% 168 51.1% 27 8.5% 7 2.1% 328 100%
favorece o uso de cê, sobretudo se observarmos que em São Luís, 7 (sete) das 10 (dez) ocorrências foram registradas na fala dos informantes de nível superior, pertencentes à segunda faixa etária, sendo um do sexo masculino e outro do sexo feminino, conforme exemplo abaixo:
(9) Cê teria que pegar, mas salve engano, eu tô tentando me lembrar quando eu era criança, tinha esse lance da pessoa correr, e aí chegava e gritava “ganzola”, quer dizer ele estava naquele ponto que você não tinha mais como.
(INF. MA26/7) (10) [...] aqui o nosso arroz, eh, coloca a água pra ferver e um pouco de sal, depois lava o arroz, põe na água, cê põe um pouco de... de óleo, só um pouquinho para num, que ele num queime muito [...].
(INF. MA26/8) Quanto à forma reduzida ocê, verificamos a ocorrência somente em duas localidades: Tuntum e Alto Parnaíba, com frequência de 7.1% e 12.1%, respectivamente. É interessante observar que essa forma se apresentou, nas duas localidades, na fala dos informantes do sexo masculino, segunda faixa etária:
(11) Mas a gente enfrentou, a gente encarô... Pr’ocê vê, a gente não tinha estrada, pra começá não tinha estrada, era massapé brabo.” (INF. MA18/3)
(12) “Ocê vai me pagá. [...]. Porque ocê tá me deveno tem que pagá.” (INF. MA10/3)
Uma vez que observamos as possibilidades de variação entre o tu e você e que esta última apresentou frequência mais alta que as formas reduzidas (cê e ocê), optamos por agrupá-las em um só variante – a forma você (cê + ocê), chegando ao seguinte panorama:
Tabela 5.2 – Ocorrências das formas tu e você/ocê/cê na amostra geral
TU VOCÊ/OCÊ/CÊ TOTAL 38.4 % 126 61.6 % 202 100 % 328
Assim, no corpus analisado, das 328 formas em referência à segunda pessoa, registramos 126 ocorrências de tu e 202 ocorrências de você, o que representa, respectivamente, uma frequência de 38.4% e 61.6%. A carta linguística a seguir mostra a representação dessas ocorrências.
A princípio, os dados contrariam a hipótese geral formulada para a pesquisa: a de que o português falado no Maranhão apresenta uma difusão bastante maior do tu sobre o você.
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Assim, na tentativa de observarmos se, de fato, o você é a forma mais utilizada pelos falantes maranhenses, fizemos uma rodada separada44, perfazendo um total de 249 dados:
Tabela 5.3 – Ocorrências das formas tu e você/ocê/cê
A tabela acima nos mostra que, mesmo baseados em um corpus estratificado equilibradamente por localidade, o você também se mostra como uma forma de preferência geral pelos falantes maranhenses, com 59.8% de ocorrência.
Em termos gerais, a distribuição do fenômeno ora observado mostra que o português falado no Maranhão apresenta uma alternância entre o tu e o você, sendo esta última a forma mais utilizada pelos falantes para representar a segunda pessoa do singular, conforme verificado na tabela 5.2 e 5.3.
A seguir, veremos em que medida os fatores linguísticos e sociais influenciam a alternância do tu e do você no Maranhão.