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A desvalorização profissional, os sentimentos de solidão e de desamparo e a multiplicidade de papéis assumidos são caraterísticas do trabalho das nossas entrevistadas. Sabemos que esses aspectos são determinantes para a atividade realizada.

Inicialmente, o único papel que os professores possuíam era a transmissão do conhecimento. Hoje, a realidade é diferente. A questão do ensino ainda figura entre os aspectos mais importantes da profissão, porém é perpassada por uma série de dificuldades que antigamente eram secundários, como por exemplo, a questão social. A escola pública deixou de ser um espaço no qual o objetivo primordial era a educação. Ela agora é um caminho para saída da miséria por parte de milhões de famílias no Brasil, principalmente com a vinculação do Programa Federal Bolsa Família.

Elas (as famílias) veem a escola pública como um depósito, um órgão de assistencialismo, a questão da bolsa escola, tudo isso eu sinto que, quando eu comecei não tínhamos esse benefício, há 14 anos não tinha, e as crianças eram mais simples, mas tinham mais assessoramento familiar, entendeu? E posterior esse bolsa escola, eu senti que as pessoas veem esse bolsa escola só como um assistencialismo, elas trazem as crianças pra escola, tem um maior número realmente de crianças na escola, mas não tem assistência, é um depósito de crianças, certo? E aí a questão política (...) eles não tiram o bolsa escola, porque nenhum deles quer perder voto, nenhum partido político se propõe a tirar o bolsa escola, mas aí não dá condição. (Entrevistada n. 3).

Então, com essa mudança da função social da escola, os professores têm tido um papel que vai além da própria transmissão de conhecimentos: eles também são um suporte (afetivo e assistencial) para essas crianças. As professoras da escola são convocadas para esse novo posto e não há como recusar.

O que pesa muito é a questão social, porque o professor, a escola hoje ela é vista como uma saída pra famílias que vivem em risco social, em miséria, é como se a escola fosse a saída, o que antes o seu papel era ensinar, hoje a escola tem um papel maior, uma função social que muitas vezes não tá preparada pra tá absorvendo todos os problemas familiares, de famílias que tem drogas, alcoolismo, abuso sexual, toda uma gama de problemas sociais que é todo levado pra escola e isso é uma dificuldade porque a gente sente, e tudo isso vai desgastando, às vezes a gente se envolve demais ou às vezes a gente quer se defender e não se envolve, então é muito complicado a questão da escola ter que arcar com toda essa, a criança cai, a gente leva no médico, fica no hospital, a criança tá com fome, porque querendo ou não a gente acaba sentindo e acaba querendo ajudar, como tem crianças que a gente vê os pais morrendo, crianças órfãs, mas que a gente queira ou não a gente não abandona, mas isso não é uma função da escola. A função da escola é ensinar, educar, mas nós não temos como mudar a realidade de uma criança onde ela vive em um gueto, o professor nem a escola tem essa fortaleza. (Entrevista n. 7).

A realidade com que nos deparamos é difícil, o que torna ainda mais complicado o trabalho do professor.

Uma criança na escola pública não aprende porque qual é a realidade dela? Morte, fome, desgraça, bebida, droga. A criança vai ter ludicidade com isso na escola pública? Se ela chega de casa dizendo ―tia, mataram um a rua‖, vai pro filho de um que conhece Disney, conhece shopping, não conhece a fome, a dificuldade, que hoje realmente nós temos mais acesso pelo Bolsa Escola, não existe mais miséria, não existe. Mas também não existe Educação, porque não sabe nem usar esse benefício. (Entrevistada n. 3).

Diante de tantas dificuldades e questões sociais, as professoras se veem muitas vezes como mães e pais desses alunos, pois frequentemente assumem responsabilidades que não lhes cabem, por exemplo, levar as crianças ao médico, ao dentista, entre outras atividades. Tais responsabilidades são assumidas sem muitos questionamentos e vistas quase como uma obrigação da profissão.

A gente tem que se dedicar a um pouco de tudo com essas crianças, né? Porque tem crianças que, como eu já disse, são super carentes, então não tem apoio de nada, então eles vem doente, a gente que tem que ir ao posto, levar no posto, ir ao médico,

chega sem alimentação, chega e diz ―tia eu não dormi, porque eu senti fome‖, então

a gente vem, traz ele pra vir comer alguma coisa, perguntar se tem dentista. Graças a Deus, como aqui tem um posto de saúde, tudo facilita pra gente. A gente indica, eu peço à coordenação, ela leva, uma vez uma mãe mandou um recadinho dizendo que o filho dela tinha sido mordido por um rato, que eu levasse o menino pra ser vacinado. Quer dizer, eu ter que sair da sala de aula, deixar os outros, pra levar essa criança lá, quando ela que devia fazer isso. O que eu tô dizendo é isso, a gente é tudo pra essas crianças, é pai, mãe, tio, avô, é tudo, médico. (Entrevistada n. 1).

Além da função familiar, muitas vezes também no contexto escolar as professoras se veem também como agentes burocráticos, assistentes sociais, psicólogas, responsáveis pela fiscalização do recebimento do bolsa família, o que lhes confere um aumento significativo da carga de trabalho diário. Enquanto a escola deveria ser um espaço multi e interdisciplinar, as funções que deveriam ser de vários profissionais são concentradas em um único, o docente.

Isso a gente faz dentro da sala de aula, que é o papel do pai, que se o professor não faz a sala não rende, aí não é culpa de professor, é culpa do sistema, (...) esse é outro tipo de desvantagem que a gente tem em escola pública, a gente vê como coitadinho, filho de um alcóolatra, filho de um viciado, então a gente deixa de ser professora e passa a ser mãe, psicóloga, passa a ter várias profissões que vai tirando o nosso foco. (Entrevistada n. 2).

Nessas situações, ocorre uma interrupção da tarefa prescrita, o ensino, e outras atividades secundárias ganham destaque, principalmente em termos assistenciais para essas crianças. Dessa forma, o real da atividade acaba reconfigurando a atividade. Aqui, atentamos para a diferença entre o trabalho prescrito, aquilo que deve ser feito; atividade real, aquilo que

é efetivamente feito; e o real da atividade10, aquilo que pode ser feito, mas não se faz, as atividades suspensas, sem possibilidades de realização (LIMA, 2007).

Assunção e Oliveira (2009) destacam que esses outros eventos se sobrepõem e concorrem com a atividade diretamente realizada, aumentando, desse modo, a experiência de intensificação de suas atividades.

Cada um tem sua função, eu não posso fazer a função de coordenadora, eu não sou coordenadora, eu não sou diretora, eu não sou psicopedagoga, eu não sou terapeuta ocupacional, eu não sou cuidadora, eu não sou palhaça, eu não sou médica, eu não sou enfermeira e todas essas funções um pouquinho a gente faz, nós professores. Todas essas funções nós assumimos, sem ter essas outras especializações. Mas a gente tem que fazer pra ter um resultadozinho da nossa função (Entrevistada n. 3).

Estas falas denotam uma demanda que parecia não existir de forma tão intensificada como ocorre nos dias de hoje na caracterização da função docente. Tal perspectiva acaba ampliando o fazer docente, que se vê complexificado e ―enriquecido‖, sem um correspondente aumento de reconhecimento social. Estas são características de uma precarização que, juntamente com a questão familiar e a sensação de solidão, que tem impactos na produção subjetiva.

A experiência de intensificação do trabalho, portanto, é também evidenciada pela multiplicidade de papéis assumidos no campo profissional, seja na perspectiva de viabilizar a politica da educação inclusiva, como veremos adiante, seja diante da complexificação do universo de atuação da escola.