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1 Introduksjon

1.1 Problemstilling og aktualitet

Antes de destacar o saber social dos pescadores, é importante mencionar que esses trabalhadores relacionam-se com a natureza, e que, portanto, a construção do saber desses sujeitos está envolvida o em um conjunto de fatores naturais e sociais. Os elementos naturais compreendem, por exemplo, o rio, o produto do trabalho, o pescado, as florestas que compõem o cenário ribeirinho. A natureza se torna para esses trabalhadores um componente indispensável em suas relações, assim, esse cenário é a fonte primeira de relação com o seu trabalho e um elemento fundamental no processo de construção do saber. Por outro lado, o saber desenvolvido pelos trabalhadores da pesca a partir de seu trabalho é um saber que se articula na relação social, para além da natureza, quando esses trabalhadores convivem numa comunidade que lhes proporciona companheirismo, ajudas e saberes.

[...] além da necessidade fundamental de alimentação, a uma cultura tradicional cabocla, enraizada no cotidiano e na autodenominação do camponês ribeirinho enquanto “pescador”, [...] tal atividade continua sendo importante por fazer parte de sua simbologia, manifestação de uma cultura. Dificilmente um pescador vai à pesca sozinho, ao menos o filho, o genro ou a esposa vão juntos, geralmente compadres e vizinhos formam a “turma de pesca”, e as famosas ”cambôas” são simplesmente impossíveis, impraticáveis se não forem realizadas coletivamente, assim como quando da montagem do “paredão” ou “curral” quando são necessários vários pescadores. Portanto, para os ribeirinhos, o ato de sair para pescar é também uma relação social, um encontro com o semelhante na mesma condição social, um momento de diálogo e reflexão entre seus pares. (COSTA, 2006, p. 277).

Nesse sentido compreende-se que o saber do pescador é social, de modo que é uma relação que, ao mesmo tempo em que o pescador busca garantir o produto para a sua

subsistência, ele transforma a si mesmo. Como nos assegura Kuenzer, (1997, p. 26) “é uma produção coletiva dos homens em sua atividade real, enquanto produzem as condições necessárias à sua existência através das relações que estabelecem com a natureza, com outros homens e consigo mesmo”. É um saber que nasce das múltiplas relações, que envolvem a natureza, os instrumentos, com seus pares e consigo mesmo, portanto, o saber dos trabalhadores da pesca é construído num processo social e histórico.

Para Kuenzer, (1997, p. 27) “o processo de produção do saber, portanto, é social e historicamente determinado, resultado das múltiplas relações sociais que os homens estabelecem na sua prática produtiva”. Ou, segundo podemos inferir das considerações de Damasceno (1995), o saber social se caracteriza como específico de um grupo social, desenvolvido através das atividades desse grupo, no contexto de suas relações econômico, político, cultural e social.

O saber do pescador é social, porque se inicia no grupo de socialização primária, a família, quando nos certificamos por meio das entrevistas que os processos de aprendizagens de todos os pescadores acontecem no seio familiar, com os saberes aprendidos com os próprios pais. Assim destaca o (P5) “aprendi muito com o papai, o papai era pescador, aprendi quase tudo com ele a fazer o instrumento de pesca, eu sei fazer pari, matapi, o pari que falam é para fazer a tapagem, paredão, aprendi ainda estruvar o anzol, amarrar a linha

no pé do o anzol [...]”. Além disso, os pescadores trabalham numa mesma atividade, a pesca,

e com o mesmo objetivo, já que pertencem a uma mesma organização coletiva, a Colônia de Pescadores Z-16, fatos que justificam os saberes dos pescadores como produto das relações sociais.

A sociabilidade desse trabalho é garantida por uma escala proporcional de trabalho coletivo que depende sempre de outras pessoas, e que, por sua vez, estão articulados no contexto de um sistema organizado de trabalho, uma coordenação que envolve diversas comunidades, coordenação esta que está inserida na Colônia de Pescadores, que, em última instância se articula numa hierarquia nacional.

Para Tardif (2008, p. 12) “[...] o saber é social porque sua posse e utilização repousam sobre todo um sistema que vem garantir a sua legitimidade e orientar sua definição e utilização [...]”. Assim o saber do pescador não é isolado ou aprendido por si só, mas é construído no processo de relação que faz com que tudo que esse trabalhador sabe seja conseqüência de uma relação vivenciada no seu próprio ambiente de trabalho, por meio de um longo processo de observação que inicia na infância, no contexto familiar, e se prolonga pela

adolescência, juventude e maturidade quando a ciência desse fazer passa a fazer parte da constituição desses sujeitos.

[...] eu acho que foi com doze e quatorze ano que o meu pai comprou a

primeira rede, a malhadeira, daí eu foi prestando atenção no momento que ele ia tecer um matapi estava perto dele, quando ia tecer uma tarrafa eu estava junto dele, aprendi, não tive dificuldade de aprender, foi fácil, muito fácil mesmo. [...] (P 4).

Os próprios instrumentos de trabalhos dos pescadores possibilitam construir um saber social, a partir do momento que eles utilizam os instrumentos em suas atividades práticasde trabalhos, objetos que passam a ser humanizados também. Nesse sentido, Tardif (2008, p. 13) ressalta que “[...] o saber é também social porque seus próprios objetos são objetos sociais, isto é, práticas sociais”. A relação que o homem constrói com o mundo através do trabalho é uma relação também material, e, sem os objetos para intermediar a relação do homem com a natureza seria impossível o homem produzir.

Graças ao trabalho, o homem vence a resistência das matérias e forças naturais e cria um mundo de objetos úteis que satisfazem determinadas necessidades. Mas como o homem é um ser social, esse processo só se realiza em determinadas condições sociais, isto é, no âmbito de certas relações que os homens contraem como agentes da produção [...]. (VÁZQUEZ, 1977, p. 195).

Outro aspecto que pudemos inferir em nossa análise das falas dos pescadores é a sensibilidade de socializar as experiências na profissão, de modo que o pescador está sempre à disposição para ensinar o que sabe aos outros, num processo de inserção dos seus saberes como saberes sociais. Para Tardif (2008, p. 14) “[...] o saber é social por ser adquirido no contexto de uma socialização profissional, onde é incorporado, modificado, adaptado em função dos momentos e das fases de uma carreira, ao longo de uma história profissional [...]”. Fica explícito que o saber dos pescadores é um processo construído a partir de suas atividades de trabalho, atividades estas desenvolvidas a partir da necessidade desses sujeitos, de modo que todos precisam do saber dos outros para produzir suas subsistências, ou seja, as necessidades básicas de suas famílias. É um saber que se articula num contexto diversificado, onde a sua constituição precisa de outros fatores para a sua materialização; nessa relação, está envolvido o saber do pescador, configurando-se como um saber social.