O conceito de forma possui uma enorme ambiguidade e uma grande variedade de significados. A forma pode ser entendida como figura exterior ou aparência visual, como contorno ou silhueta ou até mesmo como gênero ou estilo artístico. Forma e espaço muitas vezes são considerados os dois elementos fundamentais na arquitetura. A forma tem uma relação mais próxima com o sentido da visão do que o espaço. A forma é concreta, e buscar o fascínio da forma significa buscar o que é visualmente interessante ou satisfatório. No entanto, o interesse visual atém-se ao estímulo da retina e raramente inspira o coração. O espaço, ao contrário da forma, está relacionado não apenas a visão, à audição e a outros dos cinco sentidos, mas também a sensações subjetivas. O espaço é domínio privado de expressão da arquitetura. (TRAPANO; BASTOS, 2007)
A luz natural está em constante modificação, tanto em quantidade quanto em qualidade, podendo ser trabalhada de modo a oferecer diversas possibilidades de ser revelada pela arquitetura. O modo como as formas das construções revelam a luz incidente poderá mudar drasticamente ao longo do dia, intervindo no espaço e estabelecendo relações com os elementos arquitetônicos, como pode ser observado nos projetos do arquiteto Português Álvaro Siza Vieira (FIG. 6.1).
(a) (b) FIGURA 6.1 – Projetos de Álvaro Siza Vieira
(a) Museu Serralves – Cidade do Porto (b) – Pavilhão de Portugal- Lisboa Fonte: VIEIRA, 2011. Fonte: VIEIRA, 2011.
136 A obra edificada deverá ser uma manifestação de beleza, emoção, poesia e imaginação, e a luz será um dos elementos que influenciará intensamente este resultado. A abertura para a luz é uma forma de construção espacial, e a história da arquitetura é também uma história da apropriação, do domínio, do aprisionamento e da manipulação da luz num espaço interior. (TRAPANO; BASTOS, 2007)
Alguns conceitos mostram a importância da luz na concepção dos diversos espaços gerados pela arquitetura:
a luz definindo diferenças entre interior e exterior, podendo ser utilizada para enfatizar conexão ou separação;
interação entre luz e forma, conectando ou diferenciando o espaço interno; a luz indicando orientação;
a luz criando ritmo ou sugerindo movimento;
A luz, como tema central nos projetos de arquitetura, define formas, texturas e cores das estruturas arquitetônicas. É adequada a frase de Le Corbusier mencionando que a "arquitetura é a apropriação, o correto e grandioso jogo de massas conduzidas juntamente com a luz”, resumindo tal necessidade. (TRAPANO; BASTOS, 2007)
A luz é um fator de extrema importância para a composição e percepção dos espaços; provoca nos usuários sensações variadas de acordo com a plasticidade que lhe é resultante. Dessa forma, a iluminação interfere diretamente na atividade desenvolvida em determinados espaços e por isso deve ser estudada antes de ser empregada. No interior de uma edificação três fatores interferem no seu resultado: a quantidade de luz do exterior, a proporção de luz admitida pelas janelas e a quantidade de reflexão interna.
O espaço arquitetônico é definido pela composição e jogos de força de elementos, onde o caráter de um lugar natural ou artificial está determinado por sua articulação formal, e se define mediante expressões como clausura, abertura, amplitude, limitação, obscuridade, iluminação, entre outras qualidades que dependem da modelação plástica, da proporção, do ritmo, da escala, das dimensões, dos materiais, das cores e da luz natural e artificial.
A luz pode definir distintamente diferentes espaços dentro de uma grande área. A hierarquia de ambos os tipos de luz, natural e artificial e a organização da iluminação podem acentuar as divisões dos espaços. A modulação de estruturas nas edificações pode induzir movimento por meio da alternância entre luz do dia e sombras, criando uma experiência rica de percepção
137 visual, como ocorre no edifício do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, do Arquiteto Affonso Eduardo Reidy (FIG 6.2). As variações de luz ou de tom são os meios pelos quais se distingue oticamente a complexidade da informação visual do ambiente. Vista sob diversos ângulos a estrutura é responsável por um ritmo já que esculpe a luz por meio de sua ordenação, proporcionando um ritmo de contrastes. Já dizia Louis Kahn sobre as estruturas na arquitetura que “(...) a estrutura é quem molda a luz. Quando se tem uma ordem de estrutura formada por coluna junto à coluna, estas apresentarão um ritmo de luz, não luz, luz, não luz. (...)” (TAVARES FILHO; LASSANCE, 2008)
(a) (b)
FIGURA 6.2 Museu de Arte Moderna – MAM - RJ Fonte: GALVÃO, 2012.
A luz indicando orientação é uma forma de compreender os espaços, é dirigir o olhar do observador de um ponto ao outro, induzindo um caminho ou uma direção. Muitas vezes ela também auxiliará trazendo mais dinamismo aos espaços que teriam simplesmente a função de passagem.
Quando se manipula a luz, modifica-se também a percepção do espaço arquitetônico. Uma mudança nas condições de iluminação de um ambiente significará também uma mudança na percepção.
Esta indicação de orientação pode ser conseguida, por exemplo, com o uso de sheds num espaço de circulação e de espera como no caso do Hospital da rede Sarah de Fortaleza (FIG. 6.3), onde o interessante jogo de sombras e de luz que ocorre ao longo do dia, faz com que o espaço seja percebido não como um lugar estático. Os contrastes de luminosidade a cada hora
138 do dia, e de acordo com o tipo de céu, delimitam contornos, marcando com mais intensidade áreas de passagem.
FIGURA 6.3 – Hospital da Rede Sarah, em Fortaleza Fonte: LIMA, 2011.
Todos os modos de expressar o espaço por meio da luz, seja definindo o limite entre o interior e o exterior, revelando estruturas, definindo áreas ou induzindo movimento, criam ricas experiências visuais, sendo capazes de revelar formas que não seriam percebidas com a ausência da luz.
Os dispositivos de proteção utilizados em fachadas servem de elementos filtrantes, e agregam à forma arquitetônica uma maior integração entre exterior e interior. Esses elementos modificam a luz do dia, criando uma divisão metafórica entre interior e exterior, modelando a luz recebida no interior, trazendo um grande ganho na percepção visual dos espaços internos. Ao modelar a luz eles também funcionam como cortinas que modificaram o brilho e o excesso de luminosidade.
Fenômenos naturais, como a luz, surgindo dentro de espaços que apresentam simplicidade das formas, materiais homogêneos e cor uniforme, estimulam e inspiram a consciência. Essa luz transforma o espaço uniforme em espaço dramático, onde luz e sombra concedem movimento, afrouxam a sua tensão e injetam corporalidade no espaço geométrico.
139 Espaços de transição apresentam grande potencial para entrada e distribuição de luz aos ambientes. Representam também um elemento simbólico de separação entre interior e exterior.
Desta forma vê-se que para os requisitos básicos de desenho de iluminação deve-se então considerar sempre a orientação ou situação geográfica dos ambientes a fim de garantir níveis de iluminação mínima necessária para ambos os sistemas naturais e/ou artificial e ambiências diferenciadas dos espaços.