Relativamente à formação de grupos de aprendizagem cooperativa, é necessário considerar alguns aspetos para que seja desenvolvida corretamente uma prática de ensino cooperativa. Assim, considerámos importante analisar os critérios de formação dos grupos, nomeadamente a sua dimensão e o tipo de grupos. Segundo Pato (1995) e Freitas e Freitas (2003), os grupos podem ser homogéneos, formados por grupos de alunos com um nível idêntico de aproveitamento, e por grupos heterogéneos, constituídos por alunos com diferentes níveis de aproveitamento. Neste contexto, será feita uma análise apenas sobre os grupos heterogéneos, não só por ter sido esta a forma implementada durante o período de intervenção pedagógica, como também por ser considerada a mais vantajosa para a promoção de uma aprendizagem cooperativa (Pato, 1995, Bessa & Fontaine, 2002, Freitas & Freitas, 2003).
Tal como refere Pato (1995), os grupos heterogéneos “integram seguramente alunos com diferentes aptidões e atitudes perante a aprendizagem e permitem uma maior probabilidade de diversificação no que respeita à experiência de vida, desenvolvimento de linguagem, hábitos de trabalho, perseverança, etc.” (p. 27). Contudo, se existir um grande desnível de aptidões ou capacidades, o professor deve acompanhar os alunos para evitar que sintam inferioridade em relação aos colegas (Pato, 1995). Desta forma, é importante que o professor promova a ideia de que os alunos dependem uns dos outros para alcançarem o sucesso, em que é necessário que todos se esforcem para um bom desempenho, promovendo a cooperação e a colaboração (Sanches, 2005).
Slavin (1984, citado por Sanches, 2005), refere que a heterogeneidade do grupo é o grande ingrediente da aprendizagem cooperativa. Neste sentido, Pato (1995), refere que “o espaço de
interajuda que se abre nos grupos heterogéneos é, com certeza, o mais favorável ao desenvolvimento de atitudes como a persistência, a confiança em si próprio, a responsabilidade, a tolerância e a solidariedade” (p. 28). Neste pensamento, Johnson e Johnson (1999) salientam que “há geralmente vantagens na constituição de grupos heterogéneos, aos quais os estudantes chegam de diversos contextos e têm competências, experiências e interesses diferentes” (p. 21).
Na mesma linha de pensamento, Bessa e Fontaine (2002) referem que “é no seio desses grupos heterogéneos que os alunos desenvolvem alguma forma de actividade conjunta” (p. 44). Monereo e Gisbert (2005) referem que a aprendizagem cooperativa é
uma metodologia que transforma a heterogeneidade, isto é, as diferenças entre os alunos – que, logicamente, encontramos em qualquer grupo – em um elemento positivo que facilita o aprendizado. Na verdade, os métodos de aprendizagem cooperativa não tiram partido apenas das diferenças entre os alunos, mas muitas vezes precisam delas. A diversidade, inclusive a de níveis de conhecimento – que tanto incomoda o ensino tradicional e homogeneizador – é vista como algo positivo que favorece o trabalho docente. (p. 10)
Contudo, a heterogeneidade constitui um desafio para os professores, pois “um grupo diversificado obriga a estratégias eficazes para a gestão da diversidade na sala de aula” (Sanches, 2005, p. 136). Assim, é importante estabelecer objetivos, métodos de ensino e de aprendizagem alternativos e um ensino flexível para gerir a diferença e criar oportunidades de igualdade para os alunos com competências mais e menos desenvolvidas. Este processo de gestão da sala de aula, é “o grande desafio a ganhar por professores e alunos e todos vão ter que aprender a assumir as suas diferenças e a respeitar as dos outros“ (Sanches, 2005, p. 134).
Freitas e Freitas (2003) referem que existem três possibilidades de constituição de grupos: formar os grupos ao acaso; deixar que sejam os alunos a fazer a escolha; e, ser o professor a decidir, sendo que todas estas possibilidades podem ser utilizadas de acordo com os objetivos estabelecidos. A formação de grupos ao acaso é indicada quando há necessidade de promover o conhecimento mútuo para fortalecer o espírito de equipa ou para os alunos que já têm desenvolvidas técnicas de aprendizagem cooperativa (Freitas & Freitas, 2003). Quando são os alunos a fazer a escolha corremos o risco de ter grupos de amigos em vez de grupos de trabalho, resultando na formação de um grupo que tem por base outras razões que não a da aprendizagem. Contudo, esta possibilidade de constituição de grupo apropria-se a tarefas de curta duração. Por fim, “a escolha do professor é a mais indicada quando este já possui elementos acerca dos seus alunos, em termos de capacidade intelectuais e de estrutura pessoal de cada um deles” (Freitas & Freitas, 2003, p. 40). Desta forma, o professor poderá equilibrar o grupo, criando condições para melhorar o seu funcionamento.
Relativamente ao número de alunos por grupo e número de grupos, Pato (1995) refere que devem formar-se no máximo 6 grupos, com 4 ou 5 alunos por grupo, pois um número superior de grupos não permitiria um acompanhamento significativo por parte do professor. Neste sentido, Freitas e Freitas (2003) salientam que o número de alunos deve ser reduzido, mas que, de uma maneira geral, para que um grupo funcione, é essencial que ele “respeite o principio da interação face a face, ou seja, que todos os membros do grupo tenham a possibilidade de se olharem mutuamente” (p. 40).
Johnson, Johnson e Holubec (1998, citado por Lopes & Silva, 2009) identificam três tipos de grupos de aprendizagem cooperativa: grupos formais, informais e de base. Freitas e Freitas (2003) referem também esta tipologia de grupos, utilizando a nomenclatura “grupos formais permanentes” para descrever os “grupos de base” utilizados mais tarde por Lopes e Silva (2009).
Relativamente aos grupos formais de aprendizagem cooperativa, estes decorrem quando os alunos trabalham em conjunto durante um período de tempo que pode ir desde uma aula até várias semanas (Lopes & Silva, 2009). Nos grupos formais, os alunos “trabalham juntos para conseguir objectivos comuns, assegurando-se de que eles próprios e os seus colegas de grupo completam a tarefa de aprendizagem atribuída” (Lopes & Silva, 2009, p. 21). É importante que os elementos do grupo tenham um objetivo ou tarefa comum concreta, por exemplo, a resolução de um problema que integre a tomada de decisões complexas ou as respostas a um questionário (Freitas & Freitas, 2003). É importante referir que “tudo ou quase tudo o que os alunos realizam na sala de aula se pode transformar em aprendizagem cooperativa” (Freitas & Freitas, 2003, p. 49).
De acordo com Lopes e Silva (2009), quando são aplicados os grupos formais, o professor deve:
1) especificar os objectivos da lição; 2) tomar uma série de decisões antes de dar a aula; 3) explicar a tarefa e a interdependência positiva aos alunos; 4) supervisionar a aprendizagem e intervir junto dos grupos para dar apoio à tarefa ou para melhorar o desempenho interpessoal e grupal dos alunos, e 5) avaliar a aprendizagem dos alunos e ajudá-los a determinar o nível de eficácia com que funcionou o grupo. (p. 21)
Os grupos informais aplicam-se a atividades de curta duração, em que os alunos trabalham para um objetivo temporário (Freitas & Freitas, 2003). O professor pode utilizar estes grupos para atividades de ensino direto (aulas expositivas, demonstrações ou visualização de filmes e vídeos) com o objetivo de “1) concentrar a atenção dos alunos na matéria em questão; 2) promover um clima propício à aprendizagem; 3) criar expectativas acerca do conteúdo da aula; 4) se assegurar de que os alunos processam cognitivamente a matéria que se lhes está a ensinar; e 5) encerrar uma lição”
(Lopes & Silva, 2009, p. 21). As atividades de grupos informais podem também efetuar-se em diálogos de 2 a 3 minutos durante a aula ou 3 a 5 minutos entre os alunos antes e depois de uma aula (Lopes & Silva, 2009). Tal como nos grupos formais, os grupos informais permitem ao professor verificar se os alunos participam no “trabalho intelectual de organizar, explicar, resumir e integrar o conhecimento nas suas estruturas conceptuais” (Lopes & Silva, 2009, p. 22).
Por fim, os grupos cooperativos de base funcionam durante um período de longa duração (aproximadamente um ano), e são formados de forma heterogénea por membros permanentes (Lopes & Silva, 2009). Estes tipos de grupos podem ser úteis quando há alunos com problemas, se a tarefa for demasiado complexa ou quando a turma for muito grande (Freitas & Freitas, 2003). O principal objetivo da formação destes grupos é promover o apoio, a ajuda, o estímulo que os seus elementos necessitam para alcançar o bom desempenho escolar (Lopes & Silva, 2009). Estes grupos permitem que os alunos “estabeleçam relacionamentos responsáveis e duradouros que os motivarão a esforçar-se nas suas tarefas, a progredir no cumprimento das suas obrigações escolares” (Johnson, Johnson & Holubec, 1992, citado por Lopes & Silva, 2009, p. 22).