Também filho da revolução francesa, Karl Marx (1818 – 1883), o filósofo alemão que inaugurou a Associação Internacional dos Trabalhadores junto com Mikhail Bakunin, demonstrou desde muito cedo incomparável talento para interpretar e analisar a economia política do século XIX. Nos dedicamos ao longo do nosso primeiro capítulo em apresentar uma série de questionamentos referentes ao marxismo; neste item, trataremos apenas de alguns pontos concentrados no interior da teoria marxista que fizeram com que a mesma se tornasse referência dentro dos estudos sobre economia, política e sociedade.
A grande preocupação de Karl Marx e Friedrich Engels (1920 – 1895) foi, desde o princípio, uma só: como realizar a transformação da sociedade em que
viviam? A resposta veio em seguida e definitiva, através da revolução proletária. As circunstâncias em que se realizaria esse fenômeno transformaram a vida de Marx numa verdadeira odisséia em busca de respostas sobre o comportamento daquele que seria o seu pior inimigo: o sistema capitalista. Foi em meio aos estudos desenvolvidos por Marx e sua constante confrontação com a realidade, que surgiram as primeiras rusgas entre anarquistas e comunistas. De acordo com Ernest Mandel, o marxismo se expressa nos seguintes termos:
“Muito longe de desejar tornar todos os homens iguais”, como pretendem todos os adversários ignorantes do socialismo, os marxistas desejam permitir, pela primeira vez na história humana, o desenvolvimento de toda a gama infinita de diferentes possibilidades de pensamento e de ação, presentes em cada indivíduo. Mas compreendem que a igualdade econômica e social, a emancipação do homem da necessidade de lutar pelo seu pão quotidiano, representa uma condição prévia para a conquista desta verdadeira realização da personalidade humana por parte de todos os indivíduos48.
Mandel habilmente sintetiza aquilo que Marx levou anos para explicar e que está disperso por toda sua obra. A pergunta que nos vem à mente e que se faz com base na afirmação de Mandel é a seguinte: a partir de que momento esses ideais parecem estranhos aos anarquistas? A resposta é simples: nunca! Boa parte da estrutura teórica que sustenta o marxismo sustenta também o anarquismo, o grande fator que os separa está presente na forma estabelecida por Marx para que fosse promovida a emancipação do homem. Segundo ele, só existia uma possibilidade de acabar com a desigualdade vigente e suplantar as formas de exploração operantes do sistema, a solução estaria na ditadura do proletariado.
Certamente, os anarquistas viram na conclusão de Marx o grande obstáculo para a tão sonhada liberdade individual. A polêmica foi grande, e provocou, inclusive, cisões dentro das organizações operárias. Marx se preocupou, no entanto, em expor as bases sobre as quais se construiria o “novo Estado socialista”. De acordo com Massimo Salvadori, a ditadura do proletariado “era certamente o Estado
determinado pelo advento do Partido ao governo único da sociedade, mas baseado nos instrumentos da democracia política e, portanto, produzido pela vontade
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majoritária constatada no corpo sócia”.49 O grande problema para os anarquistas
consistia no advento do Partido, nunca acreditaram nessa forma de organização, pois viam nesse instrumento político, a dominação de um grupo por outro, apenas com nova roupagem.
Tanto Marx quanto Engels, sempre entenderam a superação50 do capitalismo através da construção de uma nova estrutura capaz de gerir a sociedade economicamente e, a princípio, também política e socialmente; não viam o processo revolucionário como violência desregulada, pela destruição sem construção em absoluto. Não é por acaso que suas idéias acerca da sociedade tenham levado inúmeros movimentos, em diversas partes do mundo, a pensarem, e não raras vezes, a lutarem pela construção de uma sociedade sem exploradores e explorados, em que o produto de seu trabalho lhes parecesse reconhecível e que o próprio trabalho não fosse um fardo a ser carregado ao longo da vida, mas sim sua realização. Para Massimo Salvatori o socialismo descrito por Marx sempre foi:
Uma sociedade sem classes, mas não sem Estado. O Estado deve continuar como aparelho técnico no quadro de uma sociedade inevitavelmente enraizada na divisão do trabalho e na competência profissional, embora privada dos efeitos do capitalismo. Um Estado “social”, baseado em uma “democracia sem classes”, mas racionalmente organizado no plano do trabalho e da organização administrativa: eis o que podia e devia ser entendido com “Estado do futuro51”.
Muitos críticos levantaram a questão do “revezamento opressivo”, porém, há que se levar em consideração que, numa sociedade em que os meios de produção passariam a ser propriedade coletiva, ficaria impraticável extinguir toda e qualquer instância administrativa num primeiro momento. De acordo com Marx e Engels, outro importante debate a ser levantado ao se falar em “revolução proletária” consiste na natureza e fim da propriedade privada, ambos enxergavam a mesma pelo prisma da alienação e, por conseguinte, pelo único e exclusivo sentimento de posse. Segundo argumenta Oscar Negt:
49 SALVADORI, Massimo. In: HOBSBAWM, Eric. História do marxismo: o marxismo na época da Segunda
Internacional. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. p. 337
50
Entenda-se o termo superação sem qualquer conotação evolutiva, no sentido de suplantar o sistema antigo, para plantar as bases de um novo.
51
SALVADORI, Massimo. In: HOBSBAWM, Eric. História do marxismo: o marxismo na época da Segunda
O homem marcado pela propriedade privada e pela produção de mercadorias ficou reduzido ao sentido de posse, ao ato formal da subsunção, a uma forma de apropriação de homens e coisas que corresponde ao comportamento extorsivo do capital. As manifestações vitais assumem a forma da alienação da própria vida, na qual está contida certamente a multiplicação das necessidades e interesses que ligam o sujeito ao mundo exterior, mas – substancialmente – só no nível da espécie: no capitalismo, o homem só desenvolve as potencialidades produtivas da espécie se empobrecendo individualmente.52
De fato, Marx entendeu que o vínculo estabelecido entre homem e trabalho se torna, no capitalismo, apenas material; processo esse que é paulatinamente agravado pela necessidade cada vez maior de produtividade e lucratividade exigida pelo sistema. Para Marx e Engels, a desigualdade econômica e a exploração do trabalho humano são condições imanentes do capitalismo, sem elas, se rompe o ciclo de reprodução do sistema. Nesse sentido, assinalam que apenas o proletariado é a classe verdadeiramente capaz de derrubar essa estrutura, pois nas palavras de Marx “nada têm a perder, exceto seus grilhões”.53
Marx percebeu ao longo de suas análises que o proletariado é a única classe completamente submetida ao processo produtivo e que pode compreender, adquirindo consciência de classe, que só enquanto unidade pode romper o ciclo de exploração capitalista. O filósofo alemão sabia que nada é tão simples quanto parece no terreno das idéias e tratou de assinalar os desvios impetrados pelo sistema no afã de impedir a formação da consciência de classe, ou seja, do reconhecimento do grupo explorado enquanto unidade. Como bem sintetizou Oscar Negt:
A “missão histórica” que Marx e Engels atribuem ao proletariado, à base dos interesses objetivos de classe dele, é contrariada diariamente por forças empenhadas em promover uma regressão da consciência histórica, fortalecidas pelo uso, pela lógica imanente do processo que tende a transformar tudo em mercadoria.54
52
NEGT, Oscar. In: HOBSBAWM, Eric. Ibid., p. 192.
53
MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 1988. p. 97
54
NEGT, Oscar. In: HOBSBAWM, Eric. História do marxismo: o marxismo na época da Segunda
Agregado ao fenômeno da chamada “coisificação”, que transforma tudo em produto passível de compra, venda, ou troca, Marx e Engels também evidenciaram outra estratégia do sistema para pressionar o proletariado a trabalhar dentro do menor salário possível, nas piores condições possíveis, dedicando a isso o máximo esforço. A “mágica” estava no “exército industrial de reserva55” que compreendia o
crescente número de desempregados dispostos a trabalhar por condições ainda piores, na luta pela sobrevivência característica do século XIX e, em alguns países, também no século XX.
Com aguçada percepção sobre o social, o político e o econômico, Marx entendeu o desenvolvimento de uma sociedade através de sua totalidade, a própria dialética marxista inaugura a crítica às fragmentações analíticas. Partindo dessa premissa é que o conceito de revolução proletária, desenvolvido por Marx e Engels, ganhou forma e se conformou na mais contundente expressão da diferença entre anarquistas e comunistas. Sobre a percepção revolucionária de Mikhail Bakunin, militante com o qual travou inúmeros debates dentro da AIT, Marx afirma:
Que estupidez de escolar! Una revolución social radical se halla sujeta a determinadas condiciones históricas de desarollo económico; éstas son su premissa. Por tanto, sólo puede darse allí donde, con la producción capitalista, el proletariado industrial ocupe, por lo menos, una posición importante dentro de la massa del pueblo, y, para tener alguna probabilidad de triunfar, tiene que ser, por lo menos, capaz de hacer inmediatamente por los campesinos, mutatis mutandis, tanto como la burguesia francesa, en su revolución, hizo por los campesinos franceses de aquel entonces. Hermosa idea la de que la dominación de los obreros lleva consigo la esclavización del trabajo agrícola! Pero aqui es donde se revela el pensamiento íntimo del señor Bakunin. Decididamente, él no comprende nada de la revolución social; sólo conoce su fraseologia política; para él, no existen las condiciones económicas de esta revolución.56
A crítica de Marx se concentrava, particularmente, na “fraqueza teórica” do anarquismo. Suas palavras remetem diretamente à idéia que fazia sobre o superficial conhecimento de lideranças do movimento ácrata acerca da realidade do proletariado, suas formas de manifestação política, e, sobretudo, as possibilidades
55
Para maior compreensão sobre o processo de formação do “exército industrial de reserva descrito por Marx ver: KARL, Marx. O capital: crítica da economia política: livro I. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.
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MARX, Karl. Acotaciones al libro de Bakunin “El Estado y la anarquia”. In: Marx, Engels, Lênin: acerca del
de confrontarem suas ações com a realidade saindo vitoriosos nas disputas fratricidas entre classes, pertencentes à essência do sistema capitalista. Marx chega a assinalar a ingenuidade presente na “aposta” que o anarquismo fazia no associativismo, como possibilidade de emancipação do homem. Para o filósofo alemão:
La asociación es un dogma, y no fuerza económica. A diferença de la división del trabajo, del comercio, del intercambio, etc., la asociación no es algo orgânico y productivo. No hay que confundir la asociación con la fuerza colectiva. La fuerza colectiva es un acto impersonal, la asociación es un compromisso voluntário. La asociación es estéril por naturaleza, incluso perjudicial, ya que constituye una traba para la libertad del trabajador. Se há atribuido al contrato de sociedad la eficacia inherente sólo a la división del trabajo, al intercambio, a la fuerza colectiva. Cuando se fundan asociaciones para realizar grandes obras, el êxito no se explica por el princípio de asociación, sino por sus medios. Se someten a la asociación sólo cuando ésta proporciona una indennización suficiente. La asociación productiva es de utilidad únicamente para el asociado débil e perezoso.57
A crítica de Marx atinge não só aqueles que estabelecem seus paradigmas filosóficos sobre o associativismo, como também àqueles que se utilizam do associativismo como forma de alienação política, visto que, segundo Marx, tal mecanismo de ação só funciona no sentido de distanciar a classe trabalhadora das formas legítimas de atividade política operária. Em última instância, a legitimação da ação proletária estará vinculada ao partido, não àquele constituído pela burocracia política dominante nos quadros da extinta União Soviética, mas o chamado “partido de vanguarda”, condutor sábio das massas e representação máxima da unidade proletária na política.
A idéia do “Partido de vanguarda” foi, em grande parte, desenvolvida, aprimorada e posta em prática por aquele que ficou conhecido na história como o líder da revolução proletária de outubro de 1917; desencadeada num país agrário, de economia pouco desenvolvida e, sobretudo, onde a maior parte da população estava mergulhada no mais profundo abismo da miséria e da exploração. Este país era a Rússia Imperial, seu nome era Vadlimir Ilitch Ulianov Lênin (1870 – 1924).
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MARX, Karl. Marx a Engels: Machester, (Londres), 08 de agosto de 1851. In: Marx, Engels, Lênin: acerca del
Governada pelos Czares da dinastia Romanov (1762 – 1917) e, contando com grande contribuição da Igreja Católica Ortodoxa, o Império Russo se caracterizou pelos contrastes. Os bailes da corte eram representações estarrecedoras do universo de opostos presentes no interior da Rússia Czarista onde mulheres puxavam arados com a força do próprio corpo, onde a fome era uma constante e as tradições místicas direcionavam os rumos da cultura camponesa58. Foi nesse cenário inóspito e de incertezas que Lênin vislumbrou a possibilidade de concretizar aquilo que tantos sonharam, ou seja, a realização do sonho socialista.
Lênin foi grande estudioso do marxismo, soube traduzir em formas simples o conteúdo complexo das obras de Marx e Engels, e soube, sobretudo, confrontar a teoria com a realidade. Observou que a Rússia era palco da mais perversa exploração do trabalho humano, incluindo-se o fato de que sua população estava completamente exausta com a Grande Guerra, por conseguinte, com as perdas humanas que com ela vieram e com o clima de hostilidades produzido naquela região. Foi nesse cenário que o emblemático episódio chamado Domingo Sangrento ocorrido em 1905, consistiu num rastro de pólvora para o estouro da Revolução Russa de 1917. Lênin assinalou, com base também em sua vivência prática de militante político, as condições que propiciaram o início do processo revolucionário que de acordo com ele eram as seguintes:
1) a possibilidade de conjugar a revolução soviética com o fim, graças a ela, da guerra imperialista, que havia extenuado indescritivelmente os operários e camponeses; 2) a possibilidade de tirar proveito, durante certo tempo, da luta de morte em que estavam empenhados os dois grupos mais poderosos de tubarões imperialistas do mundo, grupos que não podiam coligar-se contra o inimigo soviético; 3) a possibilidade de suportar uma guerra civil relativamente prolongada, em parte pela gigantesca extensão do país e pela deficiência de suas comunidades; 4) a existência entre os camponeses de um movimento revolucionário democrático-burguês tão profundo que o partido do proletariado tornou suas as reivindicações revolucionárias do partido dos camponeses (do partido esserista, profundamente hostil, em sua maioria, ao bolchevismo) e as realizou imediatamente graças à conquista do poder político pelo proletariado; tais condições específicas não existem hoje na Europa Ocidental, e a repetição dessas condições ou de outras análogas não é nada fácil. Por isso,
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Para aprofundamento acerca das tradições culturais russas pré-revolucionárias ver: FIGES, Orlando. op.cit., parte 1. p. 31-376.
entre outras razões, é mais difícil para a Europa ocidental que para nós começar a revolução socialista.59
Mas, a partir de que momento Lênin se tornou o líder máximo da revolução? Para responder esse questionamento é necessário que voltemos um pouco no tempo. Os quase trezentos anos de Dinastia Romanov, com todo o seu aparato repressivo, não foram suficientemente eficazes para sedimentar a inércia intelectual na imensa Rússia industrialmente atrasada. A fragmentação política configurava novos grupos ainda incipientes, porém, com princípios de atividade bem definidos. O chamado Movimento dos Cem Negros desencadeava o terror através do anti- semitismo eslavo e da organização de pogroms contra judeus, contando com o apoio de membros da nobreza e de tendência liberal. Nessa direção, o Partido Cadete aliado à burguesia liberal reivindicava reformas parciais, visando à modernização do país, sem qualquer alteração na estrutura do poder.60
Contra o absolutismo, organizavam-se os narodniks, que tencionavam provocar uma rebelião da massa rural contra o Czar, no entanto, sem obter sucesso, direcionaram sua ação para o terrorismo, acreditando que a morte de personalidades singulares do Império poderia enfraquecê-lo. Ocorre, entretanto, o oposto, o sistema programa seu aparato repressivo e acaba por diminuir ao máximo o poder de ação dos revoltosos. Este grupo constitui apenas uma das “alas” do Partido Social-Revolucionário, que contava também com a participação dos Maximalistas, defensores da República que eliminasse o poder na nobreza e distribuísse terras para quem nelas trabalhasse, do grupo Trudovique que empunhava a bandeira das reformas sociais e dos Populistas que criaram a pequena propriedade privada no campo e defendiam a democracia rural entre os pequenos proprietários sem a socialização das terras.61
Em outra esfera da organização política estava o Partido Operário Social- Democrata Russo (POSDR), fundado em 1898, através de um congresso que
59 LÊNIN, Vladimir Ilitch. O trabalho do partido entre as massas. São Paulo: Livraria Editora Ciências
Humanas, 1979. p.142.
60 Cf. VIZENTINI, Paulo Fagundes. (org.). A Revolução Soviética 1905-1945: o socialismo num só país. Porto
Alegre: Mercado Aberto, 1989. p.31-32 Para uma análise mais detalhada do assunto ver: FIGES. Orlando. op. cit., p.213-376.
contou com a participação de nove delegados representantes de cidades russas, entre eles, Lênin. As idéias discutidas giravam em torno da incipiente industrialização do país, que não gerava as condições necessárias para o surgimento do proletariado – única classe reconhecida como verdadeiramente revolucionária. Este grupo de militantes, herdeiro das tradições marxistas, foi visto pela polícia secreta do Czar com menor desconfiança que os narodniks e, por isso, sua ação nos primeiros anos se desenvolveu de forma regularizada.
Cinco anos depois de sua fundação, se realizou o II congresso do POSDR, onde é estabelecida a cisão entre bolcheviques, defensores da composição do partido, efetivamente, por revolucionários profissionais que agiriam através da conscientização das massas operárias e camponeses, disciplinadas e obedientes ao Comitê Central (CC), e mencheviques, mais inclinados à composição ampla do partido, contando, inclusive, com o apoio da burguesia para a deposição do Czar. A maioria bolchevique, contudo, toma a dianteira do processo, e, na revolução de 1917, o grupo menchevique acaba se fragmentando.
Para Lênin, o partido só teria sua ação legitimada se estivesse organizado sob princípios rígidos firmados no marxismo, entretanto, não havia como ignorar o poder do campesinato, que compunha a maior parte da população russa. Qualquer iniciativa política que viesse a se desenvolver não poderia ser desvinculada dessa questão. Ernest Mandel avalia a situação através das discordâncias teóricas iniciais existentes entre Lênin e Leon Trotsky, o futuro comandante do exército vermelho. De acordo com o economista:
Lenine concebeu esta “ditadura democrática dos operários e camponeses” sobre a base de uma economia ainda capitalista e no quadro de um Estado burguês. Trotsky pôs o dedo sobre a fraqueza desta concepção: a incapacidade crônica do campesinato (admitida por Lenine depois de 1917) em se constituir em força política autônoma. Através de toda a história moderna, o campesinato sempre seguiu, em última análise, uma direção burguesa ou uma direção proletária. Se é fatal que a burguesia deslize para o campo da contra- revolução, a sorte da revolução depende da capacidade do proletariado em conquistar a hegemonia política no seio do movimento camponês, e em estabelecer a aliança entre operários e camponeses, sob a sua própria direção. Por outras palavras: a revolução russa não poderia triunfar e realizar as suas tarefas revolucionárias sem a
conquista do poder político pelo proletariado e a criação de um Estado operário apoiado na aliança com o campesinato trabalhador.62
Como traduz Mandel, a visão de Lênin ainda não se assemelhava às interpretações de Trotsky sobre a realidade russa e a forma de organização política aglutinando forças entre o campesinato, hoje se sabe que tais discordâncias ficaram restritas aos primeiros anos de atuação política conjunta. Para o líder bolchevique, a direção apropriada a seguir para o fomento do processo revolucionário estaria inerente ao próprio capitalismo – incipiente na Rússia –, justamente por esta razão ganhava prioridade o progresso do sistema capitalista. Segundo a interpretação de Eric Hobsbawm, foi com esse princípio que o marxismo, enquanto ideologia política, se afirmou na Rússia.63