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Kapittel  5   ANALYSE

5.3   Informantenes  forestilling  om  islamisering

5.3.2   Problemene  med  islam

Além do Estado de São Paulo, o Jornal do Brasil também foi um periódico frequente no Lampião da Esquina; críticas não faltaram por parte dos editores, que diziam que havia nos corredores do JB uma proibição expressa a qualquer referência às homossexualidades em suas páginas. Na seção Bixórdia de outubro de 1979, Lampião publicaria ironicamente um anúncio de um homem a procura de outro homem, e que fosse de boa aparência, bastante forte, para tomar conta de um pequeno apartamento de solteiro e fazer serviços de limpeza etc., de preferência que tivesse trabalhado em serviços de segurança e que pudesse servir de companhia e morar com o proprietário. O anúncio tinha saído nos classificados do JB. Mesmo com a proibição, segundo Lampião da Esquina: “quando se trata de anúncio, não tem princípios tão ríspidos assim. Pagou, levou...”275.

A maneira como a grande imprensa tratava o assunto das homossexualidades não foi percebida apenas pelo jornal Lampião da Esquina. Em uma carta enviada ao jornal Lampião, um leitor expressaria sua indignação e tentava por meio dela protestar contra a intolerável discriminação do Jornal do Brasil em relação aos homossexuais. No dia em que o leitor escrevia (05/10/1979), o matutino em questão estampava na primeira página uma notícia na qual o Papa condenava a permissividade e pontos tais como o controle artificial na natalidade, o aborto, a atividade sexual fora do casamento, a eutanásia e a prática da homossexualidade.276

Até mesmo no caderno de esporte do Jornal do Brasil o machismo e o preconceito estavam expostos, além, é claro, dos pensamentos que conservam essas noções. Para o cronista esportivo do JB, José Ignácio Werneck, futebol não era coisa para homossexuais,

274 Fala de Claudia Wonder no filme Meu amigo Claúdia. Direção de Dácio Pinheiro, 2013. 275 BOM mesmo é carne de homem. Lampião da Esquina, n. 17, outubro de 1979, p. 17. 276 PRAZERES, O. dos. Papa and Papas. Lampião da Esquina, n. 17, outubro de 1979, p. 18.

88 para ele, os homossexuais deveriam dedicar-se somente a atividades mais adaptáveis ao seu comportamento, tipo cabelereiro, manicure, pedicure, calista, costureiro. E ainda dizia que era preciso aos clubes reformularem as escolinhas de futebol, entregue em grande parte, segundo ele, a incompetentes homossexuais277. Assim, aquilo que se entende por masculinidade, construída por processos de incorporação e negação de padrões vigentes na sociedade, que elimina aquilo que se entende por feminilidade, exclui os homossexuais por eles serem sujeitos que a ameaçam, devido ao fato de sua imagem ser atribuída a características dadas historicamente como femininas. De tal modo que a masculinidade ou a virilidade:

Encontram seu princípio, paradoxalmente, no medo de perder a estima ou a consideração do grupo, de “quebrar a cara” diante dos “companheiros” e de se ver remetido à categoria, tipicamente feminina, dos “fracos”, dos “delicados”, dos “mulherzinhas”, dos “veados”. [...] A virilidade, como se vê, é uma noção eminentemente relacional, construída diante dos outros homens, para os outros homens e contra a feminilidade, por uma espécie de medo do feminino, e construída, primeiramente, dentro de si mesmo. 278

A imprensa alternativa também foi criticada, e não só pela imprensa gay, mas por alguns movimentos, como o feminista279 e negro no país, além do homossexual. Um dos pioneiros desse tipo de imprensa no Brasil, o jornal O Pasquim280 também foi figura marcante nas páginas do Lampião da Esquina. O periódico teve suas edições iniciadas por volta de 1969, no Rio de Janeiro, e se interessou em “direcionar suas críticas não só aos aspectos econômicos do regime, mas também em fazer uma contestação cultural mais ampla, ousando empregar expressões da gíria carioca, e misturando discussões políticas”281.

A maneira como O Pasquim tratava não só os homossexuais, como as mulheres, apresentando-se de forma machista e preconceituosa faz com que pensemos que, mesmo a

277 PINHEIRO, Alceste. Noticiários esportivo. Lampião da Esquina, n. 3, julho de 1978, p. 5. 278 BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010, p. 66-67.

279 O Pasquim, o qual, ao mesmo tempo que se opunha ao regime por meio da ridicularização, voltava sua

mordacidade igualmente para as mulheres que haviam se decidido pela luta por seus direitos, ou àquelas que assumiam atitudes consideradas inadequadas à feminilidade e às relações estabelecidas entre os gêneros. Ridicularizava as militantes utilizando-se dos rótulos de “masculinizadas, feias, despeitadas”, quando não de “depravadas, promíscuas”, rótulos através dos quais tais articulistas conseguiam grande repercussão. Cf: SOIHET, Rachel. Preconceitos nas charges de O Pasquim: mulheres e a luta pelo controle do corpo. Revista

Art Cultura, Uberlândia, v. 9, n. 14, p. 39-53, 2007.

280 *O Pasquim segundo o jornal Lampião da Esquina, também tinha proibido falar de homossexualidade e

do próprio em suas páginas. Cf. BITTENCOURT, Francisco. Um bonde chamado prazer. Lampião da

Esquina, n. 10, março de 1979, p. 4.

89 imprensa que se dizia alternativa, era apenas em algumas formas de atuações, que não estavam ligadas ao prazer, ao corpo, ao desejo, pois pensava tratar de questões insignificantes, resquícios da burguesia, assim como para a grande imprensa do período282.

Dois meses após seu lançamento, por exemplo, Lampião da Esquina publicou uma nota que tinha sido noticiada no O Pasquim, na qual o jornalista Roberto Moura chamava o periódico de A luz tosca do Lampião e ainda, chamaria o de jornal das tias, após Antônio Chrysóstomo tê-lo criticado no número um do Lampião.283 A resposta viria em seguida assinada pelo coordenador chefe do jornal, Aguinaldo Silva; essa relação de “ataques” se deu por quase todo o tempo em que o Lampião da Esquina era publicado:

Assim acreditamos que estamos cumprindo nosso verdadeiro papel neste jogo quando mostramos às pessoas que perdemos o medo. É parte do nosso papel, igualmente, responder à altura às provocações do tipo Roberto Moura (LAMPIÃO n.º 2). Fazer ironia velada ou não em torno da homossexualidade velada das pessoas sempre foi uma prática de alguns representantes da imprensa machista que, para isso, contam sempre com a cumplicidade do silêncio: os atingidos, com medo que a repercussão fosse ainda maior, preferiram, à resposta, ficar recolhidos à sua suposta insignificância. Nossa posição é oposta: se nos chamarem de bichas respondemos que somos mais que isso — somos trichas. Mas... (E há sempre um mas... na vida de qualquer machão), aproveitaremos a ocasião para recolher do nosso vastíssimo arquivo, ciosamente organizado pela fera Rafada Mambaba, duas ou três coisas que sabemos — e sempre saberemos — sobre o autor da ironia. Assim, por todas essas coisas. Ficam os possíveis desafiados avisados: em matéria de imprensa, os jornalistas que fazem Lampião da Esquina sempre adotaram a posição ativa, ativíssima. Alguma dúvida?284

Por um momento, Lampião da Esquina se dirigiu de forma positiva ao Pasquim mostrando seu apoio quando o assunto tratou de apreender jornais e processar jornalistas. O Pasquim teria seu número de 559 aprendido, “sob alegações nebulosas, como a exibição de partes pudendas de homens e mulheres, além de uma charge muito do sem-graça sobre

282 O texto abaixo saiu na seção cartas do O Pasquim, em resposta à mensagem de um de seus leitores. “Sabe

donde estou lidando com tua carta, Osva? Do mictório público de Piccadilly, onde acontecem coisas que até o Norival-Cheio-de-Varizes, aquele que politizou todo o corpo editorial das revistas Mundo Gay e Lampião repudiaria como nefandas abominações! Isto foi a coisa mais importante que aconteceu em tua vida. Vadinho não é triste, não é chato? Sabe como é o corpo editorial das revistas Mundo Gay e Lampião? Igual a qualquer Outro, só que com uma bunda DESTE TAMANHO! Cf. OS Múltiplos talentos de Ivan Lessa. Lampião da

Esquina, n. 3, julho de 1978, p. 4.

283 Cf. CHRYSÓSTOMO, Antônio. As menininhas frenéticas. Lampião da Esquina, n. 1, maio de 1978, p.

11; MOURA, Roberto. Dica. O “Pasquim nuslê”. In: Lampião da Esquina, n. 2, junho de 1978, p. 4.

90 o primeiro aniversário da Abertura do governo Figueiredo. As bichas do Lampião se solidarizam com a macharia do Pasquim”. 285

Ziraldo, chargista do jornal O Pasquim, foi um dos sujeitos com uma das seções que mais receberam críticas não só da imprensa gay, mas também do movimento feminista. Mesmo que aqui não pretendamos analisar a questão feminina, observar sua exclusão e a manutenção do machismo por meio do discurso de um jornal de grande representatividade é também observar o machismo como violência. A crítica do uso do corpo da mulher como produto de venda nas capas desenhadas por Ziraldo foi motivo para que uma representante da Comissão de Contra-informação do Coletivo de Mulher escrevesse uma carta repudiando O Pasquim.286

Naquela conjuntura, além das demandas pelos direitos sociais, novas questões foram colocadas pelas mulheres em suas pautas de reivindicações, distintas daquelas de feminismos anteriores, expressando o momento histórico em que estavam inseridas. As “políticas do corpo” assumiram naquele instante um caráter significativo. As reivindicações manifestavam-se em favor dos direitos de reprodução, as mulheres buscavam a plena assunção do seu corpo e de sua sexualidade (aborto, prazer, contracepção) e insurgiam-se contra a violência sexual, não mais admitindo que esta fosse uma questão restrita ao privado, cabendo a sua extensão ao público. E esta não foi uma empresa fácil, já que as mulheres eram formadas em uma cultura na qual não poderiam dispor livremente de sua sexualidade. 287

Não se pode negar o papel social que O Pasquim desempenhou no campo da produção jornalística, como um veículo de visibilidade e de voz de certos grupos, e isso pode ser visto e reconhecido quando o próprio Lampião da Esquina parabeniza o jornal pelos seus dez anos, em 1979. Sendo contra qualquer tipo de institucionalização, e nem querendo ser os guardiões e defensores de nenhum sistema, utópico ou não, não podiam por isso deixar de festejar a resistência do Pasquim. Que “estes dez anos, sempre se jogou de corpo inteiro na luta. Se pisou em falso algumas vezes e se a seguir teve algumas

285 CHRYSÓSTOMO, Antônio. Bichas de QI alto querem doar sêmen. Lampião da Esquina, n. 23, abril de

1980, p. 10.

286 Cf. CAIAFA, Janice. A ironia de um certo humor. Lampião da Esquina, n. 13, junho de 1979, p. 7;

RECADOS para Lampião. Lampião da Esquina, n. 13, junho de 1979, p. 14. Nesta edição a crítica viria a charge feita por Ziraldo de uma matéria do jornalista Sérgio Augusto sobre a manifestação feita por mulheres no Rio de Janeiro contra um jornalista do Jornal do Brasil que tinha molestado uma funcionária, e que apresentaremos mais adiante. “Para um jornal que tanto sofreu por causa da Censura, como o Pasquim, foi uma coisa imperdoável. Ziraldo tentou se explicar, mas não deu – não dava mesmo. Qual é a tua, Zizeitê? De tanto ver os homens em ação aí no Rio o Pasquim acabou aprendendo?”

91 recaídas, sua atuação nos momentos de combate foi muito mais importante. Afinal, ninguém é perfeito. Nem nós”.288

É importante perceber nessa análise das representações por meio de um veículo como o jornal impresso – gay ou não –, as ponderações existentes dos editores falando do próprio periódico. Francisco Bittencourt não poupou críticas a João Silvério Trevisan, ao mesmo tempo em que construiu por meio de sua fala como enxergava o caminho que o jornal tinha tomado após quase dois anos. As práticas que motivaram as escritas, e as próprias experiências e diversidade de ideias dos editores contribuíram para que elas se modificassem com o tempo.

Dizia ele que a seção Troca-Troca, ao descrever as características dos leitores que trocavam suas cartas: adulto, jovem, bonito, 23 anos, universitário, só faltava mesmo dizer branco. Tratava-se na verdade, segundo ele, “de formar um conceito eugênico de gueto que é muito pior do que o de elitismo cultural. Da mesma forma, na seção Cartas na Mesa, foi-se formando aos poucos um clima paternal, de passar a mão na cabeça, que nada tem a ver com os editores do jornal e que surgiu, pode-se dizer, apesar deles”289. Para ele, o discurso do jornal se assemelhava com o da imprensa machista do Pasquim, e dando a entender indiretamente uma falsa militância por meio do Lampião.

Por outro lado, alguns colaboradores, trouxeram para as páginas de

Lampião um discurso ou uma terminologia que está dentro da filosofa do Jornal, mas que vem sendo usado de maneira tão adolescente e antiga que parece mais apenas para épater les bourgeois. Palavras como sapatona e viado estão sendo usadas dentro de uma linguagem de comício que as torna não pejorativas, mas de duas faces, e de um acento machista, que lembra muito o Pasquim. Seremos incorrigíveis? Não acredito prefiro antes pensar que o movimento homossexual brasileiro está cheio de elemento, que ainda estão maduros para uma verdadeira militância (que deve ser feita muito mais a nível de experiência de campo e não com a formação de grupelhos, isto é, que precisam seguir o lema “mais tesão e menos politicagem” de um dos editores de Lampião. E tudo isso, na verdade, me reflete de maneira negativa no Jornal.290

É preciso ressaltar que João Silvério Trevisan, além de ter tido a frase que serviu de título para o artigo de Bittencourt, militou na Juventude Operária Católica e na Juventude Universitária Católica que depois virou Ação Popular, onde rachou com a linha do PC

288 BITTENCOURT, Francisco. Ao Pasquim, com carinho. Lampião da Esquina, n. 14, julho de 1979, p. 5. 289 BITTENCOURT, Francisco. Mais tesão, menos politicagem. Lampião da Esquina, n. 27, agosto de 1980,

p. 8.

92 soviético. Em suas viagens conheceu a Alemanha Oriental e a Tchecoslováquia. Durante sua estada nos EUA conheceu também vários estudantes radicais. Sem falar no próprio Aguinaldo Silva, que desde o golpe militar de 1964 teve problemas com a repressão política, tendo sido forçado a abandonar Recife naquele ano por trabalhar no jornal Última Hora do Nordeste, cuja linha era considerada demasiadamente radical. Ficou preso numa cela no presídio das Flores, passando 45 dias incomunicável, onde fora mandado pela CENIMAR por ter escrito um prefácio para o Diário de Che Guevara. Chegou a trabalhar no Opinião e no Movimento após ser libertado.291

Os leitores, também por meio de cartas enviadas ao jornal, apresentavam suas críticas, comparando o jornal ao discurso que o mesmo criticava. Na edição de agosto de 1978, na sua quinta edição, já receberia e publicaria a crítica de um leitor ao formato do jornal e ele como veículo da imprensa. Gide Guimarães perguntava qual era a sua ideologia, e respondendo por ele mesmo, dizendo que parecia mais com a do Social- Democrata-Cristão Jornal do Brasil. O leitor ainda direcionaria a crítica a todas as outras imprensas, lamentando o machismo do jornal, terminando novamente com uma pergunta: “O Lampião oferece o bumbum a todo vampiro que aparece?”292. Além da crítica e da dificuldade de se constituir um discurso que agradasse a todos e perceber que tipo de pessoa que lia o jornal Lampião da Esquina e mandava uma carta como essa, também nos serve para observar quem esse jornal estava atingindo.

Esses leitores também denunciavam o discurso, fosse ele de exclusão ou de aproveitamento por parte da imprensa, como fez um ao criticar a imprensa que se considerava gay, e chamava a atenção para o “Jornal do Gay”, de São Paulo, à venda nas bancas do Rio. Segundo ele, era uma forma de desmoralizar qualquer coisa séria, pois a homossexualidade era tratada na base de total irresponsabilidade, “visando apenas à exploração do mercado consumidor. Isto se agrava com o desconhecimento e falta de crítica dos próprios homossexuais, que compra tais publicações por achar que estão divulgando o tema”.293

E a televisão? Veículo de comunicação com um grande número de acesso, passou também a apresentar o tema das homossexualidades, porém quase sempre em níveis esperados de machismo, chacota, conservadorismo, e todas as formas de manutenção de um discurso hostil. Mas as rupturas também se deram com a própria TV GLOBO que

291 MACRAE, Edward. A construção da igualdade: Op. cit., p. 90.

292 GUIMARÃES, Gide. Qual é a tua, oh Lampião. Lampião da Esquina, n. 4, agosto de 1978, p. 17. 293 CARLOS S. S. Sobre jornais caça-niqueis. Lampião da Esquina, n. 4, agosto de 1978, p. 19.

93 apresentou no programa Fantástico uma pesquisa sobre o que os brasileiros pensavam sobre as homossexualidades. Levando-se em conta a democracia relativa em que viviam, João Antônio Mascarenhas acreditava que a TV GLOBO mereceria sem cumprimentada, pois teve “o mérito de salientar, em suas muito medirias, a importância do combate aos preconceitos, à tônica do programa”.294

Ao que tudo indicava, a década de 1980 daria lugar às discussões sobre as “minorias”. Porém, antes mesmo dos anos 80 se iniciarem, alguns movimentos começaram a tomar conta do Brasil. Os negros saiam às ruas; os homossexuais estavam abandonando os becos escuros; as mulheres já possuíam experiências anteriores à década de 60. Mas como levar uma reivindicação minoritária ao complexo sistema de TV, perguntava-se Adão Acosta. Segundo ele, os problemas das “minorias” eram vistos pelos telespectadores, mas com teor superficial. Ora, era um relato sobre os índios, com fortes doses históricas e poucas bases profundas, ora sobre as mulheres que lutavam pelos seus direitos de integração na preconceituosa sociedade machista. 295

E os homossexuais, como ficavam? O apresentador de televisão Flávio Cavalcanti dava um passo nesta abordagem levando ao ar um programa que mostrou que os homossexuais estavam lutando pelo direito de serem aceitos. Mencionou o Lampião em um de seus programas como sendo um órgão sério e digno de lutar pelo seu espaço. No meio desta luta constante de “abertura”, todos se preocupavam com a Rede Globo de Televisão, que se limitava a mostrar a problemática homossexual apenas nos seus enlatados de exportação. Eis que uma de suas séries brasileiras, o Plantão de Polícia, abordou o assunto. O autor foi Aguinaldo Silva, com O Crime do Castiçal296, com direção do excelente José Carlos Pieri; foi um marco na história da televisão brasileira. E era impressionante, segundo Adão Acosta, o silêncio da grande imprensa em relação ao resultado daquele programa. A sensação que ficava é que as críticas de TV não conseguiram achar defeitos, razão pela qual não mencionaram nada sobre O Crime do

294 MASCARENHAS, João Antônio. Opinião pública na tv. Lampião da Esquina, n. 2, junho de 1978, p. 9. 295 ACOSTA, Adão. “O crime do castiçal”. Lampião da Esquina, n. 19, dezembro de 1979, p. 16.

296 Foi exibida de 25 de maio de 1979 a 22 de outubro de 1981 às sextas-feiras as 22h, a partir de 1980, às

quintas-feiras. Faziam parte da produção: Redação: Aguinaldo Silva, Doc Comparato, Antonio Carlos da

Fontoura, Leopoldo Serran

Direção: Antonio Carlos da Fontoura, José Carlos Pieri, Marcos Paulo; Jardel Mello, Luís Antônio Piá

Número de episódios: 80. Disponível em:

<http://memoriaglobo.globo.com/mobile/programas/entretenimento/seriados/plantao-de-policia/plantao-de- policia-lista-de-episodios.htm>.

94 Castiçal. “Ou então se negaram a comentar o assunto por uma série de medos inexplicáveis. Será que ainda resta a paranoia da repressão dos últimos 15anos?”297.

Porém, era essa mesma televisão que atingia na época, telespectadores diariamente com informações, conceitos e apelos publicitários que contribuíam profundamente para a formação e mudança de seus padrões de comportamento. Não podemos esquecer que a televisão, assim como qualquer outro grande veiculo de comunicação de massa, “está intimamente ligada ao Estado e que, como parte deste, assume a função de aparelho ideológico, conduzindo de maneira devastadora o pensamento do poder dominante e desta forma forja opiniões, conceitos e atitudes que auxiliem sua dominação”298.

Levando em conta ainda que, o “Patriarcal Estado Brasileiro é pautado sobre valores e padrões machistas, discriminatórios, racistas e repressivos, constataremos que parte considerável do que é veiculado pela máquina de fazer heterossexuais tem estreita ligação com tais valores”299. Não era raro ver em novelas ou comerciais, a discriminação contra os negros, por exemplo, que eram (e são) sempre colocados em papéis que inferiorizavam sua condição de sujeito. Isto ocorria num país onde a grande maioria em