CHAPTER 2: An Empirical Study of Norwegian Mutual Fund Managers
2.1.3. Problem Statement 3
Neste conto em especial, por ser protagonizado por uma heroína que se relaciona com outras personagens femininas, nos ateremos, principalmente, à forma como a mulher é retratada e suas conexões com certos aspectos da sociedade patriarcal em geral.
Nos contos, o fato de o pai ou mãe do herói contrair segundas núpcias, como ocorre com a mãe de Cabeça Pequena, é algo corriqueiro. Segundo Warner (1999, p. 233-73), como mencionado no primeiro capítulo, isso se justifica pela função social do casamento até o século XIX, que pode ser descrito como um contrato financeiro entre famílias mais abastadas; sendo essencial, principalmente para as mulheres, a fim de garantir seu amparo na velhice. A mãe de Cabeça Pequena, após a morte do primeiro marido, casa-se novamente e continua sua existência doméstica a contento. Após a morte do segundo, ela definha, sem jamais sair de casa. Ela retrata, assim, a imagem da fragilidade feminina nos parâmetros masculinos, principalmente após a perda da juventude quando, supostamente, já não é mais atrativa aos homens. Na ausência do marido, também deixa de viver, como se tivesse morrido junto com ele, razão de sua existência.
O ódio e ciúme que as irmãs sentem por Cabeça Pequena remetem implicitamente à questão do dote, crucial para um bom casamento. A eliminação de uma das irmãs resultaria num dote maior para as outras, favorecendo-as na escolha de um bom partido para marido. O assassinato da mãe também reflete esse aspecto, uma vez que por cultivar um relacionamento amoroso com a filha mais velha, certamente ela seria um obstáculo à intenção das irmãs de se
apropriarem de seus bens. Além disso, o fato de Cabeça Pequena parecer idiota na concepção das irmãs, também resultaria em fracasso matrimonial: “‘Homem algum se casará com nenhuma de nós’ elas disseram, ‘se perceber que temos uma irmã idiota.’” (JACOBS, 2002, p. 146); pois na sociedade, um membro constrangedor da família poria em risco o sucesso de acordos matrimoniais com pretendentes de famílias de posições mais elevadas (WARNER, ibid.).
A atitude das personagens masculinas também coopera para confirmar o casamento como um puro ato de interesse: o príncipe aceita casar-se com a heroína para salvar a própria vida, e as irmãs se casam com príncipes em troca de objetos valiosos, sendo esse fato mais evidente no seguinte diálogo entre Cabeça Pequena e o príncipe: “‘Você casaria com minha segunda irmã se conseguisse o Livro Negro?’”, pergunta-lhe a heroína, obtendo a seguinte resposta: “ ‘Certamente. Eu me casaria com qualquer mulher se junto com ela eu conseguisse o Livro Negro’ ” (JACOBS, 2002, p. 154).
Quanto à Cabeça Pequena, embora seja uma heroína bastante ativa e ousada, ela caracteriza traços estereotipados da mulher. Ela se preocupa, antes de tudo, com o bem-estar da família (base de toda a sociedade), cuidando de si mesma somente após garantir o futuro das irmãs e conseguir uma convivência harmoniosa com elas.
Outro papel atribuído à mulher pela sociedade patriarcal, segundo Wollstonecraft (s.d., p. 19-29.), evidenciado na história, é o de ser agradável em público, pois Cabeça Pequena sabia como angariar a simpatia de todos: “Ela vestia-se com sobriedade e era alegre. Todos gostavam dela. Muito mais do que de suas irmãs, embora elas fossem lindas.” (JACOBS, 2002, p.150). Esse mesmo atributo fez com que a heroína obtivesse a proteção de seu futuro sogro, que se encanta com sua habilidade de entreter convidados. Após causar a morte da noiva do príncipe, o rei intervém para que não seja expulsa do castelo: “‘Ela não teve culpa’, disse o Rei de Munster, satisfeito com a moça” (JACOBS, 2002, p. 165). Esse episódio ilustra também a astúcia que, de acordo com Wollstonecraft (Ibid.), era ensinada desde cedo às meninas, para que conseguissem o que desejavam de forma dissimulada, bem como a arte de atrair a proteção masculina.
O atributo beleza é fundamental nesta história. Tendo roubado o livro de magias da bruxa, usou-o para tornar-se extremamente bela, o que lhe garantiu o amor do noivo: “Cabeça Pequena era agora uma linda mulher, e, por que não? Ela possuía a magia e não se privaria dela. Fez-se tão linda quanto poderia ficar. Uma beleza como a dela jamais fora vista naquele reino ou no próximo” (JACOBS, 2002, p.161). Todas as habilidades e atributos da heroína a fizeram obter a promessa de casamento de seu príncipe (por meio de chantagem, já que ela só
o salvaria se ele aceitasse se casar), mas sua beleza foi capaz de cativar o verdadeiro amor do noivo. Isso reflete a teoria de Wollstonecraft (Ibid.), quando afirma ser a beleza uma condição suficiente para que a mulher tenha tudo o que deseja dentro dos moldes da sociedade patriarcal. Outra passagem ocorre quando a esposa e a filha do ferreiro vêem a imagem de Cabeça Pequena refletida na água e pensam tratar-se da própria imagem (remetendo ao mito de Narciso). Ao se acharem bonitas, vão “em busca de um filho de rei para casar-se com ele” (JACOBS, 2002, p. 162). Se fossem realmente belas, poderiam ter uma vida muito melhor do que a que possuíam como mulheres comuns. É interessante notar que, assim como no mito de Narciso, o encantamento das moças pelo que seria sua própria imagem gera uma situação embaraçosa para ambas que se iludem com o poder de sua aparência, embora neste conto, o mal decorrente disto se dá de forma muito mais sublimada.
Junto com a beleza, as habilidades domésticas da heroína também lhe são úteis em sua realização pessoal – foi por saber passar roupa tão bem que a rainha, mãe de seu futuro marido, quis recebê-la no castelo, e por achá-la deslumbrante, colocou-a entre suas donzelas. Dessa forma, Cabeça Pequena, engenhosamente, utiliza-se de seus atributos para se reaproximar do príncipe que a havia esquecido.
Com relação às personagens maternas, temos a mãe de Cabeça Pequena e a bruxa. A primeira é boa e carinhosa, morrendo logo no início da história. A bruxa é má até mesmo com o próprio filho, chegando ao ponto de assassiná-lo. Antes disso, porém, já o tratava como a um empregado, dando-lhe ordens sem jamais permitir que fosse contrariada, chamando-o por termos depreciativos e lançando-lhe maldições.
Essas duas imagens opostas de maternidade refletem a acepção de Warner (Ibid.), que diz que as mães boas são inexistentes ou morrem no início da história, enquanto que as más (mães ou madrastas) prevalecem. Isso reforçaria os preconceitos contra as mulheres, os quais seriam incutidos desde cedo nas crianças por meio da Literatura Infantil Clássica, onde a crueldade feminina estende-se à maternidade.
Aqui a maldade feminina é retratada não apenas pela personagem da bruxa, mas pelas irmãs da heroína, que cozinham a própria mãe e tentam livrar-se de Cabeça Pequena, a qual, por sua vez, também gera várias mortes de forma indireta. Segundo Warner (Ibid.), o fato de mulheres infringirem sofrimento a outras mulheres, também contribui para disseminar crenças sociais negativas sobre o caráter feminino.
Wollstonecraft (Ibid.) lembra que a oposição entre mulher-anjo e mulher-demônio se encontra na maior parte da representação feminina literária como um subproduto das tradições sociais ocidentais. Podemos observar, portanto, que este conto evidencia de forma bastante
direta (salvo os exageros inerentes ao estilo do gênero) a imagem da mulher na concepção patriarcal.
4.1.4 Análise do percurso dos personagens principais sob uma perspectiva actancial