Não obstante o entendimento de que empreender não se refere apenas à criação e gestão de um negócio próprio, nesta análise, serão focados apenas os sujeitos donos de empresa dado que o indivíduo empreendedor, quando trabalha como empregado, para empreender na organização, isto é ser intraempreendedor, depende das condições favoráveis do ambiente organizacional. Quando o negócio é próprio, pressupõe-se que ele tem mais autonomia e, portanto maiores possibilidades de usar as suas características empreendedoras.
Isabel trabalhava em São Paulo com a representação comercial de um produto de outro estado brasileiro. Com o passar dos anos foi adquirindo conhecimento e experiência e se tornou dona do negócio que administra até hoje em parceria com o seu sócio. Iniciou a atividade própria há 10 anos com uma equipe de cinco pessoas, hoje são quase trinta e o negócio está bem consolidado;
Márcia que está casada há 35 anos, tem a vida bem estruturada morando com o marido e dois dos filhos, ficou um ano em casa após aposentar-se na carreira do servidor público. O principal motivo para abrir um negócio era se ocupar, ter com quem se relacionar e fazer uma atividade que lhe desse prazer. Mas precisava aliar essa satisfação com a viabilidade do negócio. Para isso fez pesquisas, analisou o ponto comercial, fez cursos direcionados a gestão de empresa e fez pesquisa de campo. Esses fatores e uma boa dose de determinação tem possibilitado o crescimento da floricultura na zona leste da capital.
Orlando aposentou-se, mas já sabia que não ia ficar parado, queria ter autonomia e não ter chefe. Queria ter uma atividade, fazer algo com amor, com vontade e que tivesse conhecimento, por isso abriu a loja de tintas e acessórios para pintura de automóveis. Para melhor atender a vizinhança ampliou a linha de produtos e incluiu tintas para residênicias e acessórios para pintura. Há 11 anos abriu a loja e a despeito das adversidades, não tem do que reclamar. Tem uma clientela fiel, o consumidor doméstico que prefere comprar no bairro e os donos de funilarias que garantem parte do faturamento mensal.
Mariano - Aposentado com um salário mínimo, era taxista, mas estava cansado do trânsito da cidade. Queria fazer alguma coisa. Juntamente com a mulher, foi vender cachorro quente, na estação Santa Cruz do Metrô - Vila Mariana. Foi pego pela fiscalização e encerrou a atividade. Uma sobrinha que havia deixado de trabalhar numa multinacional, queria fazer algo pelo meio ambiente. Fizeram a sociedade para trabalhar com materiais recicláveis. A sobrinha ‘aguentou’ uma semana e vendeu a parte dela, que ele pagou em um ano. Embora lidar com material reciclável seja uma atividade bastante insalubre, gosta do que faz e a melhor razão para manter esse negócio, atualmente, é o compromisso com os seus parceiros - os carroceiros. São pessoas que sairam das ruas, que não têm família ou que são abandonados por elas. Alguns, são chamados por apelidos e nem sabem os seus nomes. Há o Tatu, o Paraíba, o Alemão, o Gugu, o Moacir...
Desde pequeno Nilo esteve ligado a educação e ao jornalismo. Atua como professor há mais de quatro décadas e juntamente com o irmão mantém a sociedade na editora que publica um jornal semanal no meio publcitário e várias revistas quinzenais, além de outras mensais. Foram pioneiros nesse tipo de jornalismo voltado para o meio
publicitário. Aos 70 anos ainda tem muito projetos sendo um deles fazer um jornal diário. Tem um benefício da previdência privada, mas nunca se sentiu aposentado, nunca parou de trabalhar. Os filhos e sobrinhos já trabalham na empresa, a eles cabe dar continuidade ao negócio.
Fátima quando aposentou ganhou a loja do irmão. Ele queria mudar de ramo, e sabedor do sonho dela em ter um comercio, deu-lhe de presente. Queria ter um comercio para se ocupar, para ver gente e ganhar uns niqueis também. A loja tem tudo, gosta de ter novidades, conta essa portuguesa, de Coimbra. Toda segunda-feira vai a cidade do Porto, fazer compras, buscar novidades, ou encomendas para as suas freguesas. São encomendas pontuais, prendas de aniversarios, de casamentos, bodas, datas especiais. Sabe o gosto das suas freguesas, elas ficam contentes.
Antonio deu continuidade a empresa do pai - um açougue em Coimbra. Nâo gosta de lidar com carnes, gosta do relacionamento com as pessoas, vizinhos e clientes. No passado idealizou ser bancário ou trabalhar para uma grande companhia, mas movido pelas circunstancias se adaptou ao seu pequeno comercio. O trabalho faz manter o interesse pela vida.
Carlos durante mais de 40 anos trabalhou em uma grande companhia nas proximidades de Coimbra, saiu porque a empresa fechou. Assumiu o açougue que pertencera ao sogro, onde a esposa já trabalhava. A sua atuação sempre foi na parte comercial, clientes e fornecedores. Vai ficar com o comercio por mais dois anos até a esposa aposentar, quando esse dia chegar, a funcionária vai assumir o negócio e ele e a esposa vão cuidar do jardim.
Pelos relatos e análises das falas dos sujeitos dessa pesquisa nota-se que eles apresentam muitas características comuns ao empreendedor como por exemplo: persistência e determinação Mariano; iniciativa e bom relacionamento Márcia; conhecimento, habilidades e experiência no serviço Orlando; compromisso com as pessoas Mariano; pioneirismo, criação de um produto novo, Nilo.
Em alguns dos exemplos aqui citados, o motivo para ser dono de um negócio é a propria sobrevivência, um complemento de renda, o ter no que se ocupar, motivações, que por si só, não caracterizam um indivíduo como empreendedor, mas que o
caracteriza como alguém que gosta de estar em atividade; de fazer amigos; de ocupar o tempo e que busca essas realizações por meio do trabalho.
O empreendedorismo, ou a ação empreendedora de qualquer indivíduo, ocorre num dado lugar e tempo, no nível duma dada empresa, independentemente da sua escala. As microempresas e as pequenas empresas onde o empreendedor é o comandante facultam esse meio, mas o intraempreendedor também eclode em firmas maiores, sobretudo quando elas buscam com denodo a pequena escala. Por exemplo, através de grupos de projecto, filiais e parcerias. É nestes sosos que o empreendedorismo germina, é neste microclima que os indivíduos convertem as suas predisposições, capacidades e expectativas, numa palavra, os seus talentos ou capital psicológico em ações concretas e específicas. As iniciativas e cometimentos empreendedores ao nivel da firma resultam então, no geral, em novidades ou em mudanças de tipo variado: produtos, processos, reorganizações, entrada em novos mercados e eclosão de novos negócios. (PORTELAb ORG. 2008, P.10)
É nesses solos que as pessoas, sobretudo os maiores de 60 anos, sujeitos desta pesquisa, buscam uma chance para dar vasão aos seu capital psicológico, a sua larga experiência, para empreender ou até para fugir do tédio, se atualizar, encontrar o sentido para a vida e encontrar o seu bem-estar.