O fato de estar em campo sugere ao pesquisador uma adaptação constante, pois o campo, assim como os sujeitos que o habitam, está sempre em constante movimentação, demandando do pesquisador atitudes que possam solucionar problemas que surgem no campo, sugerir novas técnicas para esclarecer melhor as questões que não ficaram bem definidas ou mesmo aproveitar as oportunidades que surgem para desvelar cada vez mais o universo do pesquisado.
Um forte exemplo dessa constante modificação habita na atual “rotina” da Casa Brasil/Granja Portugal. No final de 2009 a instituição vivenciou uma forte crise em todo o cenário nacional. Fato que fez com que no período muitas unidades fechassem suas portas. Na Casa Brasil/Granja Portugal essa crise refletiu diretamente nos cursos de informática (Básico e Avançado) que por falta de pagamento dos professores foram interrompidos. Contudo, mesmo sem os cursos de informática, a unidade da Granja Portugal permaneceu de portas abertas para “expressões culturais”24 do bairro como os grupos de dança, hip hop e capoeira.
24
Logo no final do ano de 2009, a Casa Brasil passou por outra modificação na rotina do lugar, a instituição abriu suas portas para o funcionamento do PRONASCI (Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania). Outras iniciativas também fizeram uso da Casa como o Centro Cultural Bom Jardim, a Prefeitura de Fortaleza com o curso de programação de computadores PROINFOR, o SENAC que promoveu cursos profissionalizantes e outros que funcionaram na instituição.
No início de 2010, o projeto Casa Brasil abriu novamente turmas. Contudo, nesse período, o único curso oferecido pela instituição foi o curso de Informática Básico, módulo que quase não oferece acesso à internet. Durante esse período (1º semestre de 2010) aconteceu uma forte evasão dos alunos. Nesse momento tive a oportunidade de verificar alguns acessos à internet na Casa Brasil. Como as salas dos cursos de informática estavam vazias, por conta da evasão de alunos, a professora permitia que os computadores, que não estavam sendo utilizados pelos alunos do curso, pudessem ser usados pelos jovens que faziam parte do PRONASCI. Durante os intervalos das oficinas os jovens “passavam” no Telecentro para acessar a internet.
Por conta dessa intensa mobilidade, dessa oscilação na rotina da instituição e da grande rotatividade dos jovens, tive dificuldade de me aproximar do universo dos pesquisados e estabelecer um contato aproximado. Não tinha ideia como iria me apresentar aos garotos, como me fazer ser reconhecida por eles.
Essa dificuldade de aproximação com os jovens também acontecia na LAN
house que apresenta como característica primordial de sua rotina a mobilidade, o “entra
e sai” de clientes e usuários de internet. O dono do estabelecimento e o funcionário sabiam que eu era pesquisadora, mas os clientes em geral não compreendiam muito bem o meu papel naquele lugar. Em muitos momentos me sentia deslocada, pois o pequeno
espaço de 3m² vivia cheio e permanecer nesse estabelecimento implicava, de certa forma, ocupar o lugar de um cliente.
Outra grande dificuldade que senti durante a pesquisa na LAN house foi acompanhar os acessos dos jovens, pois todos os computadores são divididos em cabines e virados para a parede. Isto é, a própria estrutura do estabelecimento implica numa vivência “on line” de forma privada e individual não permitindo um acompanhamento de acessos e até mesmo dificultando uma aproximação25.
Por trás da aparente falta de rotina do estabelecimento existe uma rotina silenciosa, formada pelos usuários do estabelecimento que definem em seu cotidiano os melhores dias e horários para ir a LAN house e acessar a internet. Apesar de bastante flexível é possível encontrar uma regularidade na frequência dos usuários no estabelecimento. Ao encontrar esse ritmo pude perceber melhor os sujeitos que faziam parte daquele lugar.
Mesmo tendo noção do funcionamento cotidiano de cada lugar existia uma barreira entre eu (pesquisadora) e os jovens pesquisados. Percebia a presença dos atores em cada lugar, mas muitas vezes não conseguia ser percebida por eles. Ao estabelecer uma conversa informal, não conseguia identificar nas banalidades aspectos que pudessem ser utilizado na pesquisa. Assim não sabia como iniciar uma conversa com os jovens sobre o meu objeto de pesquisa sem me sentir invasiva.
Dessa forma, para conseguir um primeiro contato com os jovens, me apresentei como pesquisadora e iniciei a aplicação de questionários fechados26. Por meio desse questionário comecei a perceber quem se mostrava mais disponível e, ao mesmo tempo, passei conhecer um pouco mais a vida de cada jovem.
25
No decorrer da pesquisa veremos que essa estrutura individualista é o tempo inteiro rompida pelas vivencias cotidianas de bairro.
26
Aplicar um questionário fechado, prática de pesquisa de natureza quantitativa, se mostrou uma estratégia eficaz o suficiente para iniciar uma conversa, estabelecer um contato podendo ser vista e reconhecida como pesquisadora. Por meio desse método também pude ter acesso a informações que não são elucidadas durante uma pesquisa com base na observação como, por exemplo, idade exata dos usuários, nível de escolaridade, bairro onde moram, outros lugares de acesso à internet que frequentam, quanto tempo utilizam a internet. Enfim, por meio desse questionário obtive uma visão panorâmica do perfil do jovem que intencionava pesquisar, além de atingir meu objetivo de estabelecer um contato mais efetivo com os jovens do lugar.
Pode parecer incoerente a utilização dessa metodologia dentro de um contexto de pesquisa qualitativa, contudo Melucci (2005) nos esclarece que cada vez mais essa dicotomia entre os métodos qualitativos e quantitativos perdem o sentido, temos que apostar na complementaridade dos métodos e aproveitar os benefícios de cada um. Segundo o autor:
Nessa enorme redefinição do estatuto da pesquisa social perde o significado a oposição entre qualidade e quantidade, entre pesquisa qualitativa e quantitativa: é uma oposição que aparece sempre mais obsoleta(...). (MELUCCI, 2005, p. 28).
A aplicação desses questionários fechado foi uma porta de entrada para o universo dos entrevistados. Contudo, para identificar os usos apropriações da internet precisaria de métodos que dessem conta de registrar não só o que esses jovens acessavam, mas qual a sua rotina de acesso, ou seja, o como acessavam. Com base nesses usos seria necessário, ainda identificar quais as apropriações da internet em cada lugar de acesso.