4. Sisaboahtán mearkkašumit
4.9 Priváhtaolbmot/eanaeaiggádat/earát
Consciente da importância da comunicação, o Presidente Guebuza aliou a sua iniciativa à comunicação social, tendo agendado as presidências abertas de forma sistemática e com grande visibilidade na imprensa nacional. Desse modo, as Presidências Abertas e Inclusivas são então percebidas como um pseudo-evento, ou seja, é uma iniciativa criada com base na produção de mensagens focadas nos objectivos políticos do governo, pela enfatização política da figura do Presidente, pela dramatização dos acontecimentos, limitando, sempre que possível, o trabalho de desconstrução da mensagem por parte dos jornalistas (Serrano, 2002: pp. 31-33).
Numa acepção crítica, pode presumir-se que as presidências abertas, enquanto pseudo- evento, assumem um carácter instrumental, ou seja, é uma acção muito forte do ponto de vista simbólico - um governo ligado ao povo - mas que no fundo não pretende mais do que alcançar o principal objectivo político: o voto popular. Trata-se, portanto, de uma estratégia centrada nos media e na qual o Gabinetes de Imprensa funcionam como fontes de informação credível, mantendo uma relação de grande proximidade com as redacções (Xifra, 2008: p. 394).
A importância mediática das PAI explica-se facilmente através da teoria do newsmaking, a qual sugere que a selecção dos acontecimentos não é aleatória. Existe “um conjunto de critérios de relevância que definem a noticiabilidade (newsworthiness) de cada acontecimento, isto é, a sua «aptidão» para ser transformado em notícia” (Ibid: p. 189). Pelo seu grau hierárquico e importância do cargo, o Presidente da República, de um modo geral, possui um valor-notícia elevado pelo qual qualquer jornalista está disposto a pagar. Os media noticiosos aceitam entrevistas, conferências de imprensa e comunicados do Presidente, mas o mesmo pode não ocorrer com outros agentes políticos. Por outro lado, o Presidente precisa dos media para passar a sua imagem e políticas.
Ainda sobre os valores-notícia do Presidente Guebuza há igualmente a ter em conta questão, estratégica, de proximidade, bem como as dimensões psico-afetivas e socioculturais entre o chefe do Governo e o seu povo. Este conjunto de critérios propiciaram, de facto, a selecção de actos presidenciais para ocuparem os espaços de destaque na imprensa nacional.
Ademais, o Presidente Guebuza sempre privilegiou encontros e contactos com os jornalistas, desde a organização de seminários realizados na Presidência da República e não só, “ao longo do seu mandato foram inúmeros almoços que ele manteve com os jornalistas, em que se discutia abertamente sobre a governação dele. Ele ouvia os argumentos e foi com base nesses encontros que ele fez a primeira remodelação governamental (Manhique, Entrevista: 10/09/2015).
Sabe-se que também Guebuza estabeleceu uma boa relação com os jornalistas, tendo cultivado amizades com alguns deles e, inclusivamente, relações pessoais. Os jornalistas que acompanhavam as suas deslocações vivenciaram momentos de muita proximidade com o Presidente que sempre mostrou preocupação quanto à sua acomodação e condições de trabalho. Como já se referenciou, muitos lugares visitados pelo Presidente da República, no contexto das PAI, eram muito humildes e sem condições de grandes confortos: desde a escassez de água, energia, hotéis, rede de telefone, internet, etc, o que condicionava o trabalho desta classe profissional. Por isso, no processo de preparação das presidências abertas as equipas de avanço integravam sempre um elemento do Gabinete de Imprensa para garantir toda a logística para a imprensa. Por exemplo, a Sala de Imprensa onde decorriam as conferências de imprensa com o Presidente, no fim das PAI, era improvisada e montada de acordo com as condições de cada local:
“Nós não íamos montar o nosso esforço por cima da província. Era o contrário, para que a Província crescesse connosco e, conseguimos isso! Eu tinha um grupo de pré-avanço que visitava as províncias e deixava os termos de referência para, por exemplo, a montagem do pódio (…) Na montagem da tribuna há aspectos muito importantes a ter em conta para a boa comunicação” (Magaia, Entrevista: 10/09/2015).
A intensa convivência entre jornalistas e o Gabinete de Imprensa da Presidência poderá ter influenciado favoravelmente as publicações sobre as PAI até porque, na conjuntura mediática, devido às pressões do tempo e à própria natureza, o trabalho jornalístico sujeita- se a situações de verdadeira dependência dos jornalistas relativamente às fontes. Essa situação agrava-se quando são os serviços dos partidos políticos que muitas vezes financiam as salas de imprensa, o transporte e a alimentação dos jornalistas para que estes façam a cobertura das acções, como aconteceu nas presidências abertas.
A este propósito, um estudo desenvolvido por Jordi Xifra (2008) nos Gabinetes de Imprensa e Relações Públicas Políticas na Cataluña concluiu que, efectivamente, os profissionais das relações públicas políticas concordam que os seus gabinetes se limitam a transmitir a informação, ou seja, obedecem a regras unidireccionais (modelo de informação pública) ao invés de mediar (modelo simétrico bidireccional) as relações entre os públicos e os seus partidos, como seria desejável segundo o paradigma de Grunig e Hunt (1984).66
66 Grunig e Hunt (1984) teorizaram quatro modelos de relações públicas: agente de imprensa,
informação pública, assimétrico bidireccional e simétrico bidireccional. Os dois primeiros, caracterizam- se por uma comunicação de natureza unidireccional, onde não há uma participação activa do receptor. Sendo assim, o modelo de informação pública a que se refere Xifra preocupa-se apenas em informar, observando os princípios de objectividade e verdade jornalística. Os dois últimos modelos, bidireccionais, são sistemas abertos e fundam-se essencialmente na pesquisa de públicos para planificar a comunicação de forma mais efectiva. Todavia, para os nossos dias, Grunig e Hunt sugerem a implementação do modelo simétrico bidireccional, por ser um canal interactivo com um forte estímulo à participação e debate conducentes à compreensão mútua (Gonçalves, 2010, pp. 26-29).
A grande ilação que se pode tirar aqui é que os partidos preocupam-se em preencher a todo o custo, e de forma mais regular possível, a agenda mediática das sociedades democráticas. Nessa lógica, cria-se um ciclo em que os gabinetes de imprensa e relações públicas criam eventos, inundando o caudal informativo das redacções com peças produzidas a propósito. Ditam-se assim os temas sobre os quais a sociedade deve pensar e promove-se a troca de ideias/discussões sobre os temas que os políticos inscrevem na sociedade.
Por norma, as acções do governo podem ser mais interessantes do que as de outros actores políticos, uma vez que definem as prioridades nacionais e internacionais, tomam decisões colectivamente vinculativas, para além de terem disponibilidade de recursos e instituições estatais para disseminação de informação pública. Ainda assim, anote-se que, apesar da suposta influência dos gabinetes de imprensa governamentais no processo de produção de notícias, esse controle não é total porque que lhes escapa a edição de textos, os "cortes" e as "montagens" que são da exclusiva responsabilidade dos profissionais jornalistas (Serrano, 2002: p.41).
Em Moçambique, como já se referiu, a comunicação governamental é gerida pelo Gabinete de Informação (GABINFO), contudo a comunicação da Ponta Vermelha é da responsabilidade do Gabinete de Imprensa da Presidência da República, órgão dirigido por um Adido de Imprensa, que reporta as suas actividades directamente ao Presidente.
Note-se que a função de adido de imprensa é regularmente ocupada por pessoas com passagem pelo jornalismo. Joaquim Chissano, primeiro Presidente de Moçambique democrático, trabalhou com Atanásio Dimas, António Matonse e Bento Baloi. Armando Guebuza teve como adida de imprensa, nos seus dois mandatos, Marlene Magaia.
Estruturalmente, o Gabinete do Adido de Imprensa é subordinado ao próprio Presidente e trabalha em estreita colaboração com os outros gabinetes de assessoria ao mais alto magistrado da nação moçambicana. Nos mandatos de Armado Guebuza, integravam o Gabinete do Adido de Imprensa sete funcionários colocados da seguinte forma:
Figura 3: Estrutura orgânica do Gabinete de Imprensa da Presidência da República. Fonte
(Esquema elaborada pela autora da tese67).
Legenda:
I – Responsável pelo Sector;
II - Área de Comunicação e Imprensa (3 funcionários): responsáveis, entre outros, em dotar os eventos e cerimoniais de padrões para a presença do Presidente da República.
III - Área de vídeo – (3 funcionários): um editor e dois operadores de câmaras;
IV - Área de fotografia: Fotógrafos da Agência de Informação de Moçambique e do Centro de Formação Fotográfica (estes profissionais não fazem parte do quadro pessoal da Presidência da República mas trabalham em estreita colaboração com o Gabinete do Adido de Imprensa).
O trabalho da Adida de Imprensa da Presidente da República ganhou mais visibilidade com as Presidências Abertas e Inclusivas (PAI). A agenda massiva do Presidente Guebuza obrigou, de certa forma, mais cuidados na estratégia de comunicação. Até então, o Gabinete de Imprensa do Presidente centrava o seu trabalho, basicamente, na manutenção da ponte com os jornalistas e no monitoramento da agenda mediática.
Durante as PAI, a Adida de Imprensa e sua equipa tinham a missão de garantir o melhor cenário para o encontro entre o Presidente e o povo, portanto, no comício. O som, a disposição da tribuna, a colocação dos microfones, a organização da sala para a conferência
67Com base nos dados recolhidos no terreno.