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Na Europa do final do século XVIII e a primeira metade do século XIX, encontramos os pilares da Medicina Social alicerçados nos modelos da Medicina Urbana Francesa, Medicina de Estado Alemã e da Medicina da Força de Trabalho Inglesa (ALMEIDA-FILHO e ROUQUAYROL, 1992) surgidas no intuito de minimizar as conseqüências trazidas pela Revolução Industrial à população da Europa, como a rápida expansão desordenada de grandes massas nos centros urbanos em condições bastante precárias de vida e de saúde.

Segundo Chadwick, principal representante e autor da reforma sanitária da época, essa intervenção não deveria afetar o modo de produção vigente, e sim, discipliná-lo de modo a coibir seus efeitos nocivos sobre as condições de saúde do proletariado. Chadwick, então, interpreta a doença como resultante de inadequações na estrutura urbana que poderiam ser corrigidas através de uma legislação sanitária bem organizada (RINGEN, 1970).

O trabalho de John Snow estabelece pela primeira vez, os princípios da investigação epidemiológica ao analisar, separadamente, as características de tempo, lugar e pessoa, isolando um a um os fatores intervenientes e comparando as características de locais e pessoas afetados pelas epidemias de cólera ocorrido em Londres (SNOW, 1967).

38 O aparecimento da Microbiologia ocorrido no final do século XIX, parecia ter a capacidade de ampliar os determinantes da doença, porém a mesma acabou restringindo-se em descrever a Teoria dos germes e o ciclo das infecções, mascarando a natureza simultaneamente biológica e social da doença, proposto pela ala liberal da Teoria do Anticontágio no advento da Medicina Social (GALVÃO, 1988).

Na década de 30, o parasitologista russo Pavlovsky, desenvolve a teoria dos focos naturais das doenças transmissíveis. Pavlovsky percebeu que extensas áreas do território da então União Soviética estavam sendo desbravadas e exploradas, emergindo, como conseqüência, graves problemas de saúde pública como a eclosão da leishmaniose na Ásia Central e as encefalites por arbovírus na Sibéria. Estabeleceu-se, a partir daí, o conceito, ainda que de cunho ecologista, de que o espaço era o cenário no qual circulava o agente infeccioso - a patobiocenose; este cenário era classificado em natural, ou intocado pela ação humana, e antropopúrgico, alterado pela ação humana (PAVLOVSKY, 1963).

A modificação do espaço, ou paisagem, determinava alterações ecológicas na patobiocenose, alterando a circulação do agente infeccioso (GALVÃO, 1988).

Os sucessos da moderna tecnologia microbiológica como as drogas antimicrobianas, vacinas, inseticidas, dentre outros, durante e logo após a 2ª Guerra Mundial, abriram a era dos pacotes tecnológicos para o controle das doenças, não levando em consideração que muitas vezes uma mesma doença pode assumir características diferentes conforme o local e população acometidos. Com isso surgiram as teorias “ecológico-geográficas” que buscavam na própria variabilidade da natureza a explicação para a variabilidade das doenças, iniciando o movimento chamado de “Geografia Médica”(SILVA, 1985).

No entanto, essas variantes ecológico-geográficas, também falharam por prescindirem de uma visão antropológica e social. Assim sendo, elas conseguem analisar no máximo a questão das paisagens modificadas pelo homem, não conseguindo entrar no problema das paisagens organizadas (GALVÃO, 1996).

O domínio da epidemiologia à base da biologia durante o século XX fez ofuscar a natureza social deixando para a sociedade somente o papel de modulador do processo de distribuição e intensidade da doença (SILVA, 1985).

Com Teoria Contra-Hegemônica fazendo face a essa concepção, surge à partir da década de 60 nos países da América Latina, a vertente da Epidemiologia Social (GALVÃO, 1988).

39 A partir da constatação que a Epidemiologia é uma só no estudo dos determinantes da ocorrência e distribuição das doenças, o que deve variar são os processos explicativos empregados em cada estudo (SILVA, 1985). Dentro desse enfoque, a introdução de concepção de espaço se aplica como categoria de análise do processo saúde-doença. A grande questão passa a ser a compreensão da doença nos espaços ocupados e transformados pelo homem. Ainda que os primeiros investigadores dentro da linha da teoria dos focos naturais de Pavlovsky buscassem identificar padrões paisagísticos que permitissem antever as doenças existentes, a aceleração da intervenção humana no espaço natural se fez de maneira tão rápida, criando novos e mutáveis padrões de organização espacial, que o tratamento dado por Pavlovsky ao espaço se tornou rapidamente obsoleto, uma vez que o espaço natural praticamente passou a não mais existir.

A teoria dos focos naturais de Pavlovsky deixa implícito que há um conjunto de relações no interior da paisagem responsáveis pela ocorrência da doença, e à luz dos conceitos geográficos de George e Dollfus, permite a elaboração de um conceito operacional de espaço extremamente rico para a análise epidemiológica, incorporando os determinantes naturais e sociais numa visão de totalidade, permitindo, dessa forma, a análise do espaço e de suas transformações como ponto central da análise (SILVA, 1997).

Para a epidemiologia, o eixo de análise é a coletividade e seu comportamento, ou seja, o processo de interação desta com a natureza e a maneira como o meio é transformado, organizado para sustentar a atividade econômica, resultando numa perspectiva histórica da doença consentindo, assim, uma visão dinâmica do processo saúde-doença.

O determinante maior do processo de organização do espaço é a necessidade econômica que vai reorganizar o espaço conforme as necessidades das atividades que devem se desenrolar seja a agricultura, a exploração mineral, o transporte de mercadorias, a produção de energia, a fabricação de produtos ou a construção de cidades.

Muitas doenças, e em especial as zoonoses, têm habitat naturais em ecossistemas bem definidos nos quais patógenos, vetores e hospedeiros naturais formam associações, ou biocenoses, em que o patógeno circula. A ocupação pelo homem de tais focos naturais leva à ocorrência de casos de doença no local. A doença passa a ter como que uma personalidade própria e se incorpora no contexto ecológico, sendo vista como parte integrante do ecossistema.

40 A identificação destas relações causais ou fundamentais é a chave do processo de investigação. Uma vez feita esta identificação, passa-se para a reconstrução do processo de organização do espaço que resultou no sistema de relações identificado. Dessa forma, ao invés de partir da doença e analisar como esta se insere no contexto, parte-se da totalidade, analisando como esta criou as condições de ocorrência da doença.

Assim, agente, hospedeiro e vetor serão analisados daqui para frente como membros ativos desse espaço, havendo uma interação constante entre os mesmos, não se admitindo uma identidade isolada de cada um.

O mesmo é dividido didaticamente por Barbosa (1985) em três níveis (macro-social, ecológico e individual), sendo o nível macro-social aquele no qual estão o modelo de sociedade e economia vigentes. As normas que são ditadas nesse nível irão refletir diretamente nos dois outros níveis, o ecológico e o individual. No nível ecológico estão o ambiente natural e o ambiente social, esse último onde estão situadas as classes sociais. No nível individual, se situam os caracteres genéticos e pessoais de cada indivíduo.

2.3.1-

O E

SPAÇO EM SEU NÍVEL

M

ACRO-SOCIAL: