• No results found

4.2 A RTIFACT D EVELOPMENT

4.2.1 Blue Prism

Comecemos pelo conceito de intensidade, amplamente utilizado pela psicologia científica do século XIX. Essa pressupunha que estados psicológicos, tais como sensações, sentimentos, esforços etc. teriam, cada um deles, diversos graus de intensidade, o que sugeria a possibilidade de serem medidos e o desafio de se criarem “instrumentos” que pudes- sem viabilizar a medição. Nesse sentido, a psicologia, cuja concepção de ciência tinha claramente como parâmetro a física em seu tratamento quantitativo das forças e entidades materiais, estaria em consonância com o senso comum que espontaneamente também atribui graus de intensi- dade aos estados psicológicos. Os sentimentos, por exemplo, seriam mais fortes ou mais fracos, poderiam aumentar ou diminuir. Somos mais ou menos alegres, mais ou menos tristes, mais ou menos medrosos, mais ou menos corajosos, e assim por diante. Em suma, o tratamento dado aos estados psicológicos, tanto pela psicologia quanto pelo senso comum, envolve uma atribuição de grandeza, uma grandeza intensiva.

Qual, porém, o significado dessa ideia de grandeza intensiva que tão naturalmente aplicamos aos fatos psicológicos? Segundo Bergson, a ideia de grandeza intensiva está intimamente associada à ideia de extensão, envolvendo, portanto, sobreposição de objetos materiais. Estabelecemos a grandeza de um objeto sobrepondo-o a outro objeto considerado como medida padrão, por exemplo, uma trena, e ao dizer que um corpo é maior ou menor que outro corpo, pressupomos explícita ou implicitamente a sobreposição espacial de ambos ou a ideia, também espacial, de que um pode conter o outro. Um aspecto desse processo o qual deve ser atentamente observado é que a medição ou comparação da grandeza de dois corpos dispensa qualquer consideração acerca de suas naturezas, ou seja, a diferença qualitativa entre eles é irrelevante. Não apenas comparamos a grandeza de dois ou mais objetos semelhantes, por exemplo, ao dizer que uma mesa é maior do que uma outra, mas também de objetos muito diferentes, por exemplo, ao dizer que uma mesa é maior do que uma maçã ou maior do que uma formiga.

Segundo Bergson, é esse mesmo significado que encontramos na atribuição de intensidade aos estados psicológicos, ou seja, sobrepo-

sição espacial em detrimento das diferenças qualitativas. Vejamos alguns dentre os muitos exemplos apresentados pelo filósofo os quais ilustram a forma equívoca – quantitativa – e a maneira corre- ta – qualitativa – de caracterizar os diversos tipos de sentimentos, os experienciados como se fossem independentes de processos físicos, os vivenciados como consecutivos a processos orgânicos e os senti- mentos relacionados a eventos externos ao organismo.

A afirmação de que um desejo é mais forte do que o outro significa que se trata de um mesmo sentimento, uma mesma essência à qual da- mos o nome de desejo, a qual varia apenas quantitativamente. Contra esse significado Bergson propõe que a diferença entre um desejo forte e um desejo fraco não consiste em uma diferença de grau entre duas vivências subjetivas qualitativamente idênticas, mas numa diferença de natureza entre elas. Qualitativamente falando, um desejo seria fraco ou forte dependendo do quanto interfira, por exemplo, no nosso ponto de vista sobre o conjunto das coisas. Diferentemente de um desejo fraco, um desejo forte é aquele que modifica outras vivências psíquicas tais como as sensações e ideias. Vejamos agora como Bergson descreve o sentimento de alegria. Em seu mais baixo grau, a alegria consistiria na orientação dos nossos estados de consciência para o futuro. Essa atração diminuiria à medida que a alegria aumenta havendo uma sucessão rápida de ideias e sensações junto com a facilidade de movimentos. A alegria extrema é caracterizada como uma qualidade indefinível das percepções e recordações, comparável a um calor ou a uma luz, a qual, em certos momentos, consistiria em um espanto diante da própria existência.

O que Bergson pretende mostrar com esses dois exemplos é que aquilo que é espontaneamente interpretado como mudança de grandeza de um mesmo sentimento é na realidade o caminhar gradual entre formas sucessivas e qualitativamente diferentes de “emoções fundamentais” que participam mais ou menos das vivências diárias. Essa “emoção funda- mental” é o que caracteriza cada sentimento permitindo-nos diferenciar, por exemplo, o sentimento de desejo do sentimento de alegria.

Passemos à descrição bergsoniana dos sentimentos relacionados a processos corporais. Observa-se nesses casos a mesma confusão pro- duzida pela linguagem, como bem o mostra o exemplo do sentimento

de esforço muscular. O aumento do esforço muscular é concebido como o crescimento de um estado psicológico único associado a uma determinada localização corporal. A atribuição de grandeza não de- correria da apreensão da vivência psicológica em si mesma e sim das modificações físicas relacionadas a essa vivência, como o aumento do número de músculos que se contraem. A consciência de uma maior intensidade de esforço sobre um ponto do organismo se reduziria à percepção de uma maior superfície do corpo envolvida na operação; a consciência de um crescimento do esforço muscular decorreria da percepção de um maior número de sensações periféricas e, ao mesmo tempo, de uma mudança qualitativa ocorrida em algumas delas.

Poder-se-ia caracterizar o sentimento de atenção em termos análogos. Embora a atenção possa ser descrita em termos puramente psíquicos, como a “exclusão pela vontade de todas as ideias estranhas àquela de que nos desejamos ocupar”, a impressão que se experimen- ta, de “uma tensão crescente da alma, de um esforço imaterial que aumenta” depois de se ter feito “tal exclusão”, explicar-se-ia pelos movimentos musculares, sendo, na verdade, o “sentimento de uma contração muscular que ganha em superfície ou muda de natureza, tornando-se tensão, pressão, fadiga, dor” (Bergson, 1988b, p.21). Aqui, como no caso do sentimento de esforço, a ideia de intensidade estaria associada a um sistema de contrações musculares que acompa- nha esses sentimentos, o que não significa que sejam de fato o mesmo sentimento de atenção variando apenas em intensidade. A diferença consistiria na qualidade das vivências, ou seja, à intensidade desses sentimentos corresponderia, de fato, a multiplicidade qualitativa dos estados simples que a consciência discriminaria confusamente.

Por fim, Bergson trata das sensações subjetivas associadas dire- tamente a estímulos do mundo externo, tais como frio, calor, peso e luminosidade, procurando mostrar que também nesses casos se privilegia a quantidade em detrimento da qualidade, o objetivo em detrimento do subjetivo. Como nos acostumamos desde muito cedo a associar uma certa qualidade da sensação a uma certa quantidade de sua causa, acabamos por atribuir, a partir do objeto exterior, extensivo e consequentemente mensurável, uma grandeza à sensação, ou seja,

transferimos para o efeito a quantidade da causa, para a vivência psico- lógica imediata e imensurável, a propriedade quantitativa das causas. A ideia de grandeza nas sensações representativas – som, calor, pressão etc. – associar-se-ia, então, ao estímulo externo, derivando-se do fato de pensarmos no efeito a partir da causa. Transferimos para a vivência psicológica a sensação e as propriedades de extensão e mensurabilidade das causas físicas que a produzem, afastando-nos, assim, de sua natu- reza puramente qualitativa. Ou seja, descrevemos as sensações internas a partir de esquemas válidos apenas para aquilo que produz algum tipo de efeito sobre elas, deixando, assim, escapar a própria sensação com todas as suas peculiaridades e riqueza qualitativa.

Todos os exemplos de sentimentos e sensações apresentados por Bergson têm como finalidade mostrar que a “palavra” intensidade não se aplica legitimamente aos acontecimentos psicológicos, pelo menos, quando se a considera em seu significado quantitativo, o qual é indis- sociável do espaço. Com essa noção, projeta-se sobre o psíquico, que é em si mesmo pura qualidade, uma quantidade espacializada, unindo, assim, as incompatíveis noções de extensão e inextensão, de qualidade e quantidade. Daí, Bergson (1988b, p.169) considerar o conceito de intensidade como um “conceito bastardo”, ou, conforme a expressão de Bento Prado Jr. (1989, p.78), uma “noção híbrida”, uma “imagem espúria da extensão inextensa”.

Ao fim desta seção gostaríamos de tecer algumas considerações sobre a difícil e sugestiva dificuldade visível no esforço de Bergson para descrever os sentimentos em seu aspecto qualitativo, dificuldade essa que seria certamente muito menor se o empreendimento consis- tisse numa caracterização dos sentimentos em termos dos observáveis comportamentais ou eventos neurofisiológicos a eles frequentemente associados. Em que medida, por exemplo, a descrição bergsoniana do sentimento de alegria expressa a natureza e a riqueza desse sen- timento fazendo que não apenas nós próprios sejamos capazes de reconhecê-lo em nós mesmos, mas também que seja compreendido por alguém que nunca o tivesse experimentado? Diferentemente dos objetos físicos que ocupam um lugar no espaço não podemos

apontar para esses sentimentos cuja natureza não é espacial. Pelo fato de cada um apreender imediatamente apenas o próprio estado psicológico torna-se difícil saber em que medida duas pessoas que dão um mesmo nome a um sentimento estão de fato se referindo à mesma experiência subjetiva.

A rigor, se fôssemos capazes de discriminar e dar um nome dife- rente para cada experiência subjetiva que chamamos de alegria talvez precisássemos de um grande número de palavras, algo semelhante, embora certamente mais difícil, do que dar um nome diferente para cada uma das tonalidades de cor existentes. Novamente estamos diante dos casos em que uma palavra à qual muitas vezes anexamos uma outra com sentido quantitativo – piedade imensa, por exemplo –, é incapaz de revelar efetivamente as peculiaridades da experiência psicológica, ou seja, da vivência interior dada imediatamente à consciência.

Uma outra diferença importante entre as vivências psicológicas e os eventos físicos, não citada por Bergson, mas compatível com suas considerações sobre a noção de intensidade, diz respeito à dificuldade de se comparar a intensidade de sentimentos distintos. Por exemplo, o que significa dizer que uma alegria é mais forte ou mais fraca que um medo? No caso dos eventos físicos, como vimos, a comparação envolve medição e a medição implica sobreposição espacial. Não vemos dificuldade em sobrepor pela nossa imaginação um homem e uma árvore e dizer que a árvore é dez vezes maior que o homem. Poderíamos dizer que nossa alegria é tantas vezes maior ou menor do que o medo? Em tal caso, o que isso quer dizer? Essa dificuldade confirmaria a natureza qualitativa e inextensa de tais sentimentos e sua irredutibilidade à categoria de quantidade.