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Salles e Mello (2004) analisam o surgimento no Português do Brasil dos adjetivos

presidenciável, prefeitável, reitorável, propondo que os mesmos sejam formados “a partir de

estrutura causativa analítica constituída do auxiliar causativo e do nome/substantivo que designa a função ou cargo – ‘presidente’, ‘prefeito’, ‘reitor’.” Neste particular, as autoras afirmam que se aproximam da proposta de Basílio, que também está discutida neste estudo, ou seja, elas apontam que Basílio utiliza-se do critério semântico para a identificação das bases; todavia esse critério possui carga sintática, quando é notada a capacidade de predicar dos nomes/substantivos, destacados nas estruturas causativas analíticas. Ainda propõem uma reanálise dos casos em que as bases são formas verbais e introduzem a preposição do objeto indireto, como exemplo é citado no texto o adjetivo (in)crível cuja base advém do verbo crer – transitivo indireto.

O estudo de Salles e Mello (2004) ainda discute alguns aspectos morfológicos e morfofonológicos do sufixo -vel, direcionado para a produtividade, bem como discutem

também a formação morfológica desses adjetivos e as propriedades sintáticas das bases que os constituem.

Toda essa proposta tem respaldo na teoria de E. Williams (1981), exposta na obra

Argument Struture and Morfhology sobre o papel da estrutura argumental na morfologia.

Williams (1981) afirma que as alternâncias na valência de um verbo resultam regras que interferem na estrutura argumental a que estão associados os processos morfológicos. Os exemplos citados pelas autoras são os seguintes:

João cortou a maçã com a faca (agente) A maçã está cortada (tema)

A faca

Ainda segundo essas autoras, a estrutura argumental do verbo cortar está desta forma representada: Cortar: João – > agente; maçã – > tema; faca - > instrumento e o verbo

cortar “seleciona os argumentos citados, sendo um deles realizado fora da projeção do

sintagma verbal (verbal phase – VP), o chamado de argumento externo, e os demais realizados dentro da projeção máxima do VP, por essa razão, chamados de argumentos internos”. (SALLES; MELLO, 2004, p. 7).

cortou a maçã (instrumento)

Conforme teoria de Williams (1981),

Essa abordagem leva às seguintes generalizações: I. Nem todos os verbos possuem argumento externo;

II. Quando selecionado pelo verbo, o argumento externo ocupará a posição de sujeito;

III. O agente, preferencialmente, ocupará a posição de sujeito. (SALLES; MELLO, 2004, p. 7).

São propostos dois tipos de regras: as de externalização, se o argumento externo se transformar em interno; e as de internalização, se ocorrer o inverso. A formação dos adjetivos em -vel apresenta apenas a primeira regra, visto que“a forma resultante predica do argumento interno do verbo que serve de base” (SALLES; MELLO, 2004, p. 10). Para justificar seu entendimento, Salles e Mello (2004, p. 8) apresentam os seguintes exemplos:

Bia (agente) vendeu sorvete (tema) ao gerente (benefactivo)

(i) Bia (argumento externo) (ii) Sorvete (argumento interno) (iii) O gerente (argumento interno) a) O sorvete é vendável.

externalização: o argumento interno passa a externo b) Bia é vendável.

externalização: não se aplica à função T agente c) Gerente é vendável.

A regra de formação de adjetivos em -vel, para as autoras, apresenta-se da seguinte forma: V – > A _ VEL (V – verbo transitivo direto, A – adjetivo em -vel). Mas, ao

mesmo tempo, há limitações quanto à aplicação dessa regra, quais sejam: “I – aplica-se a argumentos internos de verbos transitivos diretos que admitem apassivação; II – não se aplica a verbos intransitivos; III – não se aplica a argumentos internos de verbos transitivos indiretos.” (SALLES; MELLO, 2004, p. 8).

De acordo com o estudo, por essa regra de externalização, ficam justificadas as formas adjetivais inacreditável, incrível, confiável, imexível, gostável, visto que predicam argumentos internos oriundos de verbos com outras predicações verbais que não sejam de verbos transitivos diretos. Salles e Mello (2004, p.16) propõem a aplicação das RFP (regras de formação de palavras) de forma generalizada na formação dos adjetivos em -vel. “A forma derivada predica de um tema argumental selecionado pela categoria que serve de base à derivação (um verbo ou um nome realizado em estrutura causativa analítica)”.

No tocante às análises dos adjetivos em -vel quanto ao aspecto morfofonológico, o sufixo -vel não fica com a tonicidade do vocábulo derivado, ou seja, não há alteração morfofonológica da base, bem como a regularidade da aplicação da RFP desses adjetivos demonstram que a formação é producente.

Salles e Mello (2004) atestam que ainda há bastantes fenômenos a serem investigados em relação à formação dos adjetivos em -vel, tais como: estudos das bases em relação aos papéis temáticos, estudo sobre as “pesquisas acerca das imposições semânticas relativas às formas oriundas das bases adjetivais, das quantificações das ocorrências, ou ainda aquelas que requerem uma investigação diacrônica”, e mais estudo analítico das regras de formação dos adjetivos em -vel, apontando a diversidade de bases usadas regularmente na língua, estudo da produtividade dos adjetivos, levando-se em conta as bases produtivas.

Enfim, o estudo dessas autoras também fornece incentivos para pesquisas de outros afixos (-dromo, -este, -estre) quanto à diacronia e a produtividade. “Estes exemplos apontam para a relação entre a diacronia e a produtividade nas línguas, cuja discussão requer o exame das condições de formação dos itens no período diacrônico em que foram produzidos...” (SALLES; MELLO, 2004, p. 14).

3 ARCABOUÇO TEÓRICO

3.1 A teoria de Stephen Anderson (1992) sobre as regras de formação de palavras e sua aplicação ao sufixo -əble do inglês

Anderson (1992) considera a morfologia flexional de grande relevância para a sintaxe, mas sem ser dependente dela. Os trabalhos relativos à hipótese lexicalista baseiam-se na hipótese de que a estrutura interna das palavras não é estabelecida por princípios sintáticos. Do ponto de vista sintático, o léxico produz estruturas opacas, possuindo estrutura interna não sujeita à manipulação ou à competência das regras da sintaxe. Em suas próprias palavras, assevera Anderson (apud ROCHA, 2003, p. 37):

A essência da hipótese lexicalista e da maioria dos recentes trabalhos em sintaxe se baseia na hipótese de que a estrutura interna das palavras não é estabelecida por princípios sintáticos, nem mesmo acessível a esses princípios. [...] Do ponto de vista da sintaxe, as estruturas produzidas no léxico são essencialmente opacas: elas podem ter estrutura interna, mas essa estrutura não está sujeita à manipulação ou competência das regras da sintaxe, que tratam os itens lexicais como unidades integrais, atômicas. A essência da Hipótese Lexicalista, sob este aspecto, está representada pela separação entre os componentes sintáticos e lexicais.

Na morfologia flexional sob a ótica de Anderson (1992), há uma interação entre a morfologia e a sintaxe. A forma, portanto, mais forte da hipótese lexicalista não se mantém. Para ele, as palavras são derivadas dentro do léxico e nele se realizam como formas flexionadas.

Anderson (1992) entende que seja positivo interpretar o léxico de uma língua como o conhecimento que possui um falante de organizar as palavras nas estruturas sintáticas, mas não fica só nisso: entende também que esse conhecimento deve envolver sistema de regras que estabelecem relacionamentos entre si, descrevendo a formação de novos itens lexicais não oriundos do conhecimento explícito da língua de um falante, entretanto, implícito nas normas que regem a formação de palavras. Anderson (1992, p. 183) em suas próprias palavras afirma:

We assume that productive morfhological processes realizing syntactically relevant properties are described by a system of inflectional Word Formation Rules. [...] for assume that these inflectional Word Formation Rules fall ‘outside the lexicon’ in the sense that they represent knowledge not of particular words, but rather of the form taken by words as a consequence of the syntactic structure in which they appear.

Diante desses posicionamentos, o autor apresenta a derivação se referindo à operação de uma classe de regras de formação de palavras dentro do léxico, afirmando que “Word Formation Rules whose structural descriptions do not involve a dependence on