A abertura às necessidades do outro requer o desenvolvimento de certo grau de sensibilidade de, em certo sentido, conseguir colocar-se no lugar do outro, e de modo particular a percepção dessa possibilidade de socorrê-lo e ajudá-lo oferecendo seus préstimos, revela-se capacidade preciosa. Em conseqüência, produz-se no indivíduo voluntário um estado de satisfação, um sentido de realização e de bem-estar, apresenta-se importante motivação do tipo altruísta. Esteve presente para 37,5% dos entrevistados, constituindo-se como razão significativa pelo número de voluntários que a apontaram. Eis algumas:
Sempre tive o desejo de alguma maneira contribuir com a sociedade como um todo, com as pessoas que vão estar recebendo esse projeto, eu senti esse desejo de querer mais, de fazer mais, de valorizar as pessoas (Araci).
Além da experiência, o que me fez continuar no projeto foi justamente assim o prazer de ajudar aquelas pessoas que estão lá aprendendo [...] e acaba que aquelas pessoas vão motivando pra que nós voluntários, pra que a gente continue fazendo o trabalho lá (Saíra).
Em meio à sociedade marcada por forte tendência para o consumismo desenfreado continuam se fazendo sentir manifestações da sensibilidade humana e expressões de sentimentos de humanidade que tendem para iniciativas de ajuda, apoio e solidariedade. O
desejo de abrir-se para a alteridade e agir em benefício do outro, conforme entende Jandira, tem como efeito direto o usufruto de um estado de bem-estar, que acaba por fortalecer as motivações altruístas.
Minha motivação sempre foi essa de poder ajudar as pessoas. Eu gosto de lidar com as pessoas. [...] Quando eu entrei no projeto me afeiçoei muito aos alunos, gostei muito do que eu vi e senti, e assim estou realmente muito feliz com o que eu estou realizando (Jandira).
Outros apontam como motivação relevante a oportunidade de poder abrir-se para a comunidade, para conhecer a concreta nua e crua realidade social, de ter contato com a complexidade dos problemas e desafios enfrentados pelas pessoas individualmente ou em grupos, na comunidade, entendendo o projeto de voluntariado como meio de contribuir com as pessoas para que cheguem a obter condições de vida com dignidade. O diálogo com a comunidade oportuniza ter ciência de suas necessidades, possibilita o conhecimento e a consciência dos direitos, e desafia para a busca de alternativas e soluções. Ajudar a melhorar a realidade, colaborar para a consecução das necessárias oportunidades de formação para todos apresenta-se elemento motivador para o voluntariado.
Motivações assim que o próprio grupo gestor que tinha na comunidade traziam essas necessidades, esses questionamentos, fazia com que pensasse e buscasse cada vez mais, você sentia como se fosse na obrigação de dar aquele retorno para a comunidade (Ceci). Tendo contato com essas mulheres trabalhadoras eu vejo que eu posso contribuir com a formação, e que cada pessoa na sociedade tem que ter esta oportunidade de adquirir todo um conhecimento, formar uma base sólida para ter uma vida melhor, mais digna, de qualidade. [...] Gostei de trabalhar com aquelas trabalhadoras que não adquiriram todos os seus direitos (Içara).
O processo de despertar para envolvimento em projetos de voluntariado, requer estratégias de sensibilização dos jovens universitários. O incremento de processos adequados de estimulação tende a desempenhar papel motivador relevante. Os depoimentos que seguem traduzem isso.
Primeiro, por querer conhecer a história de vida deles. Quando entrei no curso de Serviço Social foi exibido um vídeo sobre a Cooperativa Reciclo – dos catadores de material reciclável. Aí eu falei: ah, eu quero participar desse projeto, e ao chegar na comunidade eu me envolvi mesmo [...], e a gente cria vínculos (Piatã).
Estou no 2º semestre, eu ouvia falar que a gente deveria participar de algum projeto, mas nunca fui atrás. Aí um dia desses um professor me procurou dizendo que tinha um projeto aonde eu moro, na Cidade Estrutural, aí ele vivia falando desse projeto nas aulas
dele, né, aí um dia, no outro semestre já, ele me procurou dizendo que tinha um projeto lá e que precisava de alguém de comunicação para fazer fotografia; aí ele me convidou, moro lá, né, e fotografia é coisa que eu gosto, aí eu fiquei motivada para participar (Coaraci).
Desde que entrei no curso um professor comentou alguns projetos, né, e eu nunca tinha conhecido. E eu ficava atrás dos professores buscando [...], então no início eu queria participar, conhecer, ver como é o trabalho do psicólogo na prática, então eu fiquei sabendo desse projeto pela professora e entrei [...], eu quis mesmo como voluntária conhecer o trabalho do projeto (Iracema).
A proposta metodológica e política do projeto socioeducativo por vezes pode constituir-se razão fortemente estimuladora para compromissos de atuação voluntária, fazendo com que o universitário se identifique com a causa abraçada pelo projeto, mormente quando a própria comunidade externa consegue sensibilizar a academia fazendo chegar-lhe suas demandas. Isso se manifesta nas palavras de um dos voluntários.
O projeto surgiu não como uma proposta de projeto de extensão que vai desenvolver um serviço em uma determinada comunidade; surgiu, pelo contrário, com a comunidade, com algumas lideranças dizendo a nós universitários enquanto instituição universidade como nós deveríamos caminhar juntos, né, então daí surgiu a necessidade também de dialogar os saberes. [...] Procuro fazer alguma coisa que agregue conhecimento a mim, tem que fazer algum sentido. Não foi especificamente a Cidade Estrutural ou especificamente o projeto teia do Conhecimento o mais motivador; pelo contrário, foi a proposta do projeto. Então aqui na universidade sempre tem algumas chamadas para participar como voluntariado de algumas ações, então aquelas com que eu me identifico, aí eu procuro, né, também participar. (Ubiratã).
No trabalho socioeducativo junto à comunidade ou em distintos segmentos sociais há uma tentação que se faz sentir e se materializa, com alguma freqüência, em atitudes e práticas direcionadas para alguém, para algum grupo, dirigidas e determinadas por alguém, ao invés de serem efetivadas num processo de diálogo com a comunidade.
Nesse sentido, para alguns participantes do estudo parece claro que a comunidade deve ser compreendida como o verdadeiro sujeito da mudança social requerida ou da solução de seus problemas e desafios. Para isso deve ser-lhe garantida a efetiva participação nesse processo.
O depoimento que segue, do mesmo estudante voluntário, deixa claro que isso pode constituir-se em chamamento para jovens universitários sentirem-se instados ao engajamento em projetos socioeducativos, em forma de atuação voluntária.
A causa motivadora principal, o que me identificou com o projeto realmente foi a acolhida da comunidade e essa abertura do curso que fazia, de não levar algo pronto, que
é o diferencial, porque quando se tem algo pronto, a gente tem uma metodologia e um projeto social a gente sabe que não é bem assim, a flexibilidade não acontece de acordo com o que nós queremos e sim como a comunidade quer, então essa abertura, essa capacidade de poder relacionar os saberes da academia de uma forma diferente e dialogar esses saberes foi realmente o que me levou a participar do projeto (Ubiratã).
O desejo de envolver-se em movimentos sociais e outras instâncias de organização social, aproximar-se do universo externo à universidade, compartilhar conhecimentos, aprender com a comunidade do projeto, mediante o intercâmbio de saberes apresenta-se para alguns voluntários, como estimulo fortemente motivador. Sentir-se comprometido para agir em benefício da comunidade, numa ação de partilha e troca de saberes, ecoando essa aprendizagem sobre as práticas da academia, pode ser razão provocadora para o compromisso voluntário. É o que se pode ver nesse depoimento.
Não dá para falar de uma motivação só. Realmente são várias. A princípio senti bastante vontade de participar nos movimentos sociais e participar em ações junto à comunidade, não só por uma vontade que eu sempre tive assim de poder fazer alguma coisa, de não simplesmente ficar parada frente aos muitos problemas que há na sociedade [...] seria muito importante compartilhar esse conhecimento com outras pessoas que precisassem dele; aprenderia lá com elas, né, então melhoraria o meu próprio aprendizado do curso, trazer as questões sociais pro meu curso [...], fazendo essa espécie de troca (Yara).
O compromisso com as mulheres trabalhadoras domésticas, ser uma presença de escuta e de estímulo para que elas recuperem sua autoestima parece ser muito estimulador. Contribuir para que reconquistem o poder da palavra, tomando consciência de serem detentoras de conhecimentos produzidos e acumulados, e que tendo a oportunidade, elas os socializam, constitui motivação para estar no projeto e nele prosseguir, segundo a mesma estudante.
Também fazer algo por essas mulheres que tem muita sede de conhecimento, mas não têm voz, então lá nós temos um espaço de voz, em que tantos elas falam como nós falamos, todas falamos, colocamos expondo os problemas, compartilhamos o que nós sabemos a respeito disso (Yara).
Por sua vez, os resultados que a atuação no projeto alcança são gratificantes e ao mesmo tempo instigadores. Os benefícios obtidos pelos voluntários, tal como reações das pessoas beneficiadas pelo projeto também são razões que acabam provocando energia estimuladora para assumir um projeto de voluntariado e nele persistir, como se pode perceber da manifestação a seguir.
[...] A gente vai convivendo com essas pessoas, vivenciando o problema delas, ouvindo os problemas que elas passam no dia a dia, a luta diária que essas mulheres têm, a gente realmente ganha essa força e essa vontade de continuar nesse trabalho, de se manter fazendo isso porque vê que há resultados, não só para os estudantes que crescem, como eu já falei, como também pra essas mulheres que você percebe que depois de um tempo elas estão falando bem mais, colocando os problemas, já estão encontrando soluções elas mesmas, entendeu, então é realmente um trabalho que nos gratifica, nos ensina. Então, essas motivações levam a gente a ter uma sede maior de conhecimento, de procurar, de buscar entender a prática e o que ocorre no dia a dia (Yara).
Na mesma linha, outro depoimento prossegue expressando a convicção em relação à importância da inserção social dos universitários em algum programa de ação voluntária. Destaca a importância da conexão da academia com a comunidade envolvente, oportunizando a circulação dos conhecimentos produzidos nessa dinâmica, bem como a conquista dos direitos não reconhecidos como tal para todos os que são trabalhadores. Essa possibilidade seria motivo impulsionador para o envolvimento em programas socioeducativos, como dá a entender este depoimento.
Eu entrei nesse projeto porque eu acredito que a sociedade ela tem que participar de toda vida comunitária e os acadêmicos estão trabalhando não só por si, mas fazem parte de uma sociedade e têm que estar inseridos, levando esse aprendizado para que possa render frutos e que toda a sociedade tenha um ganho com este conhecimento adquirido na universidade. [...] E continuaria porque gostei do tema do projeto, trabalhar com aqueles trabalhadores que não adquiriram todos os seus direitos (Içara).
Como foi possível perceber, os estudantes destacam em seus depoimentos vários elementos que consideram motivadores na linha do altruísmo, a saber: a sensibilidade de abrir-se às necessidades do outro, o desejo de ajudá-lo, a sensação de bem-estar originada, iniciativas de ajuda, apoio e solidariedade. Além disso, apontam também a proposta do projeto de voluntariado, os processos de diálogo academia-comunidade, a possibilidade do envolvimento em projetos e movimentos sociais, assim como os benefícios decorrentes como quesitos fortemente motivadores para seu envolvimento nessa modalidade de atuação.