A partir da Semântica Argumentativa e da Lingüística Textual, desenvolvemos um estudo da argumentação, investigando o uso de operadores argumentativos nos editoriais de jornal, tendo em vista que eles aparecem com freqüência nessa categoria de texto, funcionando como estratégias argumentativas que têm por objetivo levar o leitor a concordar com determinado ponto de vista adotado pelo jornal e apresentado pelo editorialista.
Verificamos que a linguagem do editorial tem características próprias que objetivam chamar a atenção do leitor e induzi-lo a aceitar ou não levar a tese defendida pelo editorialista, por causa do peso que tem enquanto palavra impressa. Constatamos que o valor argumentativo de uma frase não é somente uma conseqüência das informações que ela traz, mas dependendo de como ela for construída - comportando diversos morfemas, expressões ou termos - além de informar, pode servir para dar uma orientação argumentativa ao enunciado.
Verificamos também, enquanto pesquisamos as funções dos operadores, que em muitas gramáticas essas palavras não estão incluídas entre as classes gramaticais e são chamadas de palavras denotativas e palavras invariáveis. São, portanto, tratadas apenas como elementos de relação. É preciso, diante dessa realidade, um estudo dos operadores argumentativos no Ensino Médio, com aprofundamento nos cursos de formação de professores de Português.
Constatamos ser freqüente o uso de operadores argumentativos em editoriais de jornal (média de 14,153 operadores por editorial). Comparando o número de ocorrências de operadores argumentativos por jornal e também os percentuais de operadores encontrados neles, afirmamos que apontam para um similar estilo de escrita. De uma maneira geral, existe um equilíbrio no uso dos operadores argumentativos que funcionam como marcas lingüísticas na superfície do texto, contribuindo para tornar a argumentação mais forte e, sobretudo, mais eficaz.
A análise feita permite-nos afirmar que é característica do próprio gênero editorial expressar o ponto de vista do jornal a partir de interesses. Isso pode explicar as escolhas dos assuntos tratados, ou seja, aquilo que estão valorizando mais, o silenciamento diante de certos acontecimentos ou uma importância enorme dada a determinados fatos acontecidos na sociedade. O que nos remete à afirmação que fizemos no início desta pesquisa, de que o que se apresenta escrito é uma espécie de representação da realidade porque passou por um deslocamento. Na verdade, pode levar-nos a perceber que é característica do gênero editorial de jornal recortar fragmentos da realidade e os transferir para o universo do jornal, interpretando a realidade. E, como percebemos nas análises feitas na pesquisa, os editoriais podem conseguir ou não a adesão do leitor, a partir de estratégias que contribuem para a persuasão.
Acreditamos que o estilo de escrita semelhante dos três jornais deve-se ao fato de que o editorialista precisa seguir um manual de instruções para a produção do texto e, ao redigi-lo e editá-lo, precisa tomar decisões que são subjetivas. E na pretensão de fazer crer que está com a
razão apresenta um discurso ideológico, influenciado por razões impostas pelo jornal enquanto instituição e por razões pessoais. Isso permite afirmar que a adoção do mesmo comportamento nos três jornais é característica do gênero.
Em todos os editoriais analisados, verificamos que o grupo de operadores argumentativos mais usados em todo o corpus (além disso, ainda mais, além de, e mais, e, também, nem, nem mesmo, ademais, não apenas ... mas, não apenas ... mas também, e não só porque ... mas também, não só ... mas também, sobretudo, e também, além, mais uma vez, mais ainda, aliás, ainda, e ainda) tem por função introduzir um argumento apresentado como acréscimo, um argumento a favor de uma determinada conclusão ou marcar tempo. Esse grupo equivale a 22,10% de todas as funções detectadas. Verificamos que quando são usados, esses operadores chamam a atenção do leitor para determinado tópico do texto, induzindo-o à persuasão.
Constatamos que o segundo grupo de operadores argumentativos mais incidente (mas, mais ainda, mas também, entretanto, porém, contudo, todavia, do contrário, no entanto, agora, ao contrário) exerce como função contrapor argumentos orientados para conclusões contrárias. Essa função representa 15,04% do total. Há um outro grupo de operadores que tem por função exprimir relação de concessão e que foi usado nos editoriais com freqüência baixa (3,35%). Seu funcionamento é semelhante ao do grupo do mas. Estes operadores são: embora, mesmo que, apesar de, ainda que e também opõem argumentos que orientam para conclusões contrárias, no entanto utilizam uma forma de argumentar diferente: a estratégia de antecipação.
Verificamos que, dependendo da situação e do contexto da comunicação, os operadores e, também, ainda, mas, como e já figuram nos editoriais com funções distintas das que lhes são habitualmente atribuídas por estudos lingüísticos. Pudemos perceber outros operadores figurando nos editoriais com uma freqüência mais baixa, porém diversificada - principalmente no jornal
Folha de S. Paulo - que variam conforme a necessidade dos editorialistas de utilizá-los no decorrer da argumentação.
Verificamos que os efeitos de sentido que podem ser causados no leitor e na sociedade, pela introdução do operador argumentativo no enunciado, são: mudança de opinião do leitor e abandono do modo como via o tema antes de ler o editorial; aceitação das mudanças sociais, políticas, econômicas, científicas com maior naturalidade quando ocorrerem.
A presença de operadores argumentativos nos editoriais mostrou-se de grande importância na fundamentação de valores e hierarquias ou reforço da intensidade da adesão que os lugares retóricos suscitam. Revelou também que o emprego desses termos/marcas não se fazem por uma mera escolha, mas, com certeza, tem um objetivo: tornar “mais fortes” as opiniões que devem ser acolhidas pelo auditório (o leitor) que sai, muitas vezes, dizendo a outras pessoas que leu o que está falando e nem se dá conta de que, dessa forma, está não só transmitindo o que leu, mas também está assumindo a “idéia lida” como sua. Isso vai fazendo com que ele “aceite” com maior facilidade as mudanças sociais, econômicas e políticas, ou relacionadas à ciência.
Verificamos que, de acordo com as funções mais freqüentes encontradas e introduzidas principalmente pelos operadores e e mas, as estratégias básicas da argumentação dos editoriais são: introduzir um argumento apresentado como acréscimo e contrapor argumentos orientados para conclusões contrárias. Pudemos verificar que o editorialista baseia-se, principalmente, no argumento por compatibilidade/incompatibilidade, com a finalidade de considerar opostos para “trazer o leitor para si” e tornar-se mais persuasivo; no argumento pragmático, porque pode partir de uma postura de identidade com o auditório que possa contribuir para a persuasão; no argumento por ilustração que não depende de adesão à regra, mas deve impressionar a imaginação para impor-se à atenção. Isso permite afirmar que há uma
correlação entre os dois tipos de operadores argumentativos mais usados como estratégias básicas da argumentação, que vão somando e se opondo, e os tipos de argumento mais freqüentes.
Acreditamos que nosso trabalho tenha atingido os objetivos propostos e tenha contribuído para os estudos lingüísticos, porque permitiu verificar a importância do uso dos operadores argumentativos nos editoriais e a relação que têm com as técnicas argumentativas. Isso nos autoriza a ressaltar a necessidade de se conscientizar os usuários da Língua Portuguesa do valor argumentativo dos operadores (daí sua importância para o ensino), e afirmar que parte da força argumentativa dos enunciados encontra-se na dependência deles, independentemente de quais sejam usados. Por esse motivo, uma atenção especial ao uso deles pode ser um ponto de partida eficiente na detecção dos acordos do processo argumentativo nos editoriais de jornal, já que quanto mais esse gênero de texto estiver permeado por operadores argumentativos, mais persuasivo se tornará.