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Primera sesión. El gran teatro de las emociones

E não somente os alunos, mas também os professores sofrem com as dificuldades de deslocamentos devido à falta de infraestrutura de alojamento e de transporte.

Eu já ouvi experiências de colegas meus que trabalharam lá (nas ilhas). Lá as pessoas chegam e não têm um lugar pra você ficar...elas acabam ficando na escola mesmo e levam a sua alimentação e acabam dividindo com a comunidade. As pessoas ali não têm um emprego e elas vivem da caça, da pesca e muitas das vezes a gente tem que dividir o alimento com eles. Então eu acredito que pra eles é um problema; eles não têm o apoio da prefeitura. Então, eles acabam tendo essa responsabilidade, não só com eles, mas com os alunos dali. Há uma diferença de não ter o apoio pra chegar até lá... não tem um transporte pra quando eles querem voltar. (Profª Inácia - Bagre)

A precária realidade educacional e as condições de trabalho docente apontadas na narrativa dessa professora referem-se ao trabalho de professores em escolas multisseriadas27

que reúnem em uma mesma sala de aula estudantes da pré-escola e dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Apesar de nunca ter vivido a experiência, a professora repassa sua impressão sobre a organização da escola e as intempéries vividas por esses profissionais no exercício docente. Geralmente são escolas que possuem infraestrutura precária e funcionam, na maioria das vezes, na casa de um morador local, em barracões improvisados, igrejas entre outros arranjos muitas vezes pouco adequados. Grande número dos professores que se deslocam para essas escolas são temporários28. Por esta razão, há grande rotatividade dos

profissionais que atuam. Cabe ressaltar, ainda, que a docência não é a única atividade exercida por eles nessas escolas. Na maioria das vezes, eles também cuidam da merenda, da limpeza, de questões administrativas e de outras atividades na comunidade, justamente pelas condições precárias em que a escolarização é oferecida a essa parcela da população brasileira, paraense.

Eles têm essa limitação, porque aqui a gente não tem um acesso muito fácil à televisão. Aqui pra você ter uma televisão, você tem que comprar uma antena parabólica ou você vai pagar uma TV via satélite. Então, eles não têm como ter esse

27 Definição de escola multisseriada é tratada na pagina 13.

28 Professores temporários na rede Estadual ou Municipal são aqueles contratados por um prazo determinado, limitado ao ano letivo, que gozam dos mesmos direitos dos efetivos, os quais têm um plano de carreira, incorporam gratificações de tempo de serviço e evolução funcional aos salários, possuindo todos os direitos trabalhistas de um servidor estatutário, enquanto os professores contratados recebem apenas as horas trabalhadas no período de seu contrato.

acesso, eles não têm essa facilidade aos meios de comunicação; nós não temos jornal, não temos circulação de jornal, a gente não tem circulação de revistas; a internet há pouco tempo chegou aqui na cidade. Então é uma cidade em que as pessoas têm difícil acesso aos meios de comunicação. Eles ficam com o conhecimento restrito em relação a alguns assuntos. Nas escolas da sede também... Os alunos que vêm de 1ª a 8ª série normal também; eles têm um nível de conhecimento baixo e também o pessoal da EJA vem com a mesma dificuldade do pessoal do interior... esses alunos chegam aqui também com uma grande deficiência. (Profª. Alaíde - Bagre)

Outra particularidade existente nesses espaços educativos refere-se à questão do ensino-aprendizagem, que, na maioria das vezes, é pouco produtivo, pois os professores enfrentam muitas dificuldades em face do isolamento que vivenciam e do pouco preparo para lidar com a grande diversidade e heterogeneidade de idades, séries, ritmos de aprendizagem, dentre outros desafios que se fazem presentes em uma turma multisseriada, o que reflete no cotidiano das escolas dos municípios-sede quando recebem alunos provenientes dessas localidades.

É muito difícil, né? Porque tu tens várias realidades aqui. Tu pegas os alunos do interior e eles têm uma dificuldade imensa. Tu vais sentar pra conversar e eles falam: - professora a gente quase não tinha aula. No interior é outra realidade. Tem professor, por exemplo, que não dá aula. Não posso nem tanto afirmar, mas são os alunos que dizem. Se você sentar com os alunos do interior, eles vão lhe falar. Há uma coisa muito clara entre a educação do município da cidade, da zona rural e da zona urbana. Tu vês assim a dificuldade daqueles que vêm pra sala de aula - e são muito visíveis, não tem como não perceber! Aí tu ficas, mas o quê que acontece? Bom, se no município, na cidade, já têm dificuldades com profissionais, com materiais e com merenda, essas coisas, transporte, agora imagina no interior...?. Então é dobrada essa dificuldade. Tem professor que às vezes não dá aula. Aí o aluno vai pra roça, ele vai pescar. Não tem merenda...eles dispensam o aluno, tem muito disso no interior. São poucas as escolas que funcionam direitinho, como no município (cidade). Então existe essa deficiência da educação do campo, do campo no caso dos nossos, dos rios e das florestas. (Profª – Amélia - Bagre)

As narrativas confirmam o quadro de precarização e abandono em que se encontra a educação nas escolas ribeirinhas da Amazônia paraense, alegando que a deficiência dos alunos na aprendizagem se deve em parte ao isolamento dessa população devido à escassez dos serviços, dos meios de comunicação, que poderiam ampliar o universo cultural dos alunos, assim como a situação de isolamento das escolas, que não oferecem condições de funcionamento, com propostas e práticas pedagógicas insuficientes, que se devem, em parte, à má formação de professores, à própria falta destes profissionais ou ainda devido à constante rotatividade destes.

As pesquisas realizadas por Hage e Barros (2001); Arroyo, Caldart e Molina (2004) revelam que a realidade educacional dessas localidades é uma problemática que evidencia o descaso com que a escolarização obrigatória de crianças, jovens e adultos no campo tem sido tratada pelo Poder Público em todo o país. A falta de investimento em políticas públicas para

educação do campo, segundo eles, tem favorecido o analfabetismo, a entrada tardia na escola e a não elevação do nível de escolaridade por não oportunizar conhecimentos básicos à alfabetização e continuidade dos estudos destes sujeitos.

Isso, no município (Bagre), reflete no Ensino Médio...se a senhora for pegar os nossos dados de desistência do 1º ano, é muito grande; a gente tem pouca reprovação, mas a gente tem um nível de desistência do 1º ano que é muito grande. Aí, o que a gente analisa: esse aluno não vem (das ilhas) com a mesma estrutura porque aqui (na sede) a gente pega pesado, porque daqui a pouco eles tão fazendo ENEM. Tu tens que te preparar pro ENEM. Então,toda nossa orientação e nossa parte pedagógica é voltada pro ENEM. A forma de prova, a forma de dar aula, toda a forma de trabalhar em sala de aula é pro ENEM. Por exemplo: a nossa prova taí... três provas num dia só. E é simulado na maioria das vezes. Porquê? Porque tá preparando pro ENEM. E esse aluno que vem do interior tem uma prova por dia, ele tá todo acostumado naquele (ensino) tradicional, aí ele chega aqui e sofre um impacto muito grande, muito grande mesmo, não os que moram na cidade, porque eles vão adaptando. (Profª Amélia - Bagre)

Conforme o relato da professora pode-se observar que os processos de negação, exclusão ou a descontinuidade nos estudos por parte dos alunos (as) das comunidades ribeirinhas fazem parte dos processos escolares anteriores à entrada no Ensino Médio, desenvolvidos ao longo das trajetórias de vida desses alunos (as), culminando na falta de embasamento, de conhecimento para lidar com uma educação baseada em um modelo urbanocentrico29, com uma organização curricular que exige a realização de provas dos

processos seletivos de universidades públicas, em que a corrida para o vestibular é o objetivo central. As narrativas dão conta de que tanto os alunos do município-sede quanto da zona rural ribeirinha não foram preparados para absorver todo esse conhecimento sistematizado voltado para o vestibular devido à falta de conhecimento básico em sua formação inicial.