diferentes intervenções hospitalares
Chauvenet (in Carapinheiro, 1993) propõe uma tipologia sociológica para melhor estudar os serviços hospitalares onde apresenta a clássica oposição entre “serviços de doentes crónicos” e “serviços de doentes agudos”. Segundo este, existem três categorias de serviços: os “serviços de medicina interna”; os “serviços especializados e semiespecializados”; e os “serviços de ponta ou de alta tecnicidade”. Os serviços especializados são bastante importantes no seguimento da tese por nós apresentada, pois distinguem-se dos serviços de medicina interna pela produção de cuidados que é mais desenvolvida consoante a doença especializada pelo serviço. O principal fundamento aqui é o cuidado médico aos doentes e não meramente a investigação científica. Nos Cuidados Paliativos a especialização do serviço centra-se principalmente em doentes oncológicos que estão em fase terminal de vida e para os quais é urgente a qualidade de vida enquanto puderem viver (não descurando outros doentes que necessitem igualmente de cuidados e que são também abrangidos por estes). A especialização centra-se em cuidá-los da melhor forma que esses profissionais possam. Segundo Pacheco (2002), o enfermeiro é aquele que tem uma relação mais complexa e próxima do doente, não só porque é ele que permanece mais tempo nestes serviços, ao seu lado, mas também é o que presta os cuidados mais directos. É a pessoa da equipa que mais conhece o doente e as suas necessidades, estando assim mais apto para lhes responder. Ocupa um lugar central na equipa fazendo o elo de ligação entre o doente e os restantes profissionais de saúde. Há ainda muitos enfermeiros que tal como os médicos, não aceitam o facto de já não haver cura para certa doença, “desistindo” assim do doente: “Este tipo de sentimentos prende-se com o facto de
muitos enfermeiros não estarem preparados para enfrentar a morte e de não terem ainda uma formação suficiente que lhes permita compreender a importância de cuidar o doente em fase terminal” (Pacheco, 2002: 128). E mesmo compreendendo o valor e significado desses
cuidados, há enfermeiros que têm dificuldade em lidar com a morte, criando por isso, mecanismos de defesa que lhes permitem viver com isso diariamente. “A ocorrência
sistemática destas situações provoca, por um lado, um desgaste muito grande do pessoal de enfermagem, produzindo cuidados que exigem um grande esforço físico (como lavar, vestir, dar de comer aos doentes, tirar secreções, tratar as feridas provocadas pelo acamamento, entre outros), por outro lado, um esmorecimento no trabalho médico, pois são situações cujo quadro clínico não varia muito e, portanto, não constituem desafios ao conhecimento e à experimentação clínica, estabelecendo-se assim condições propiciatórias à instalação de rotinas nos cuidados de enfermagem e nos cuidados médicos” (Carapinheiro, 1993: 107).
O serviço hospitalar produz cuidados médicos mas também associa saberes e poderes profissionais bem como outras infra-estruturas. Já é certo que tanto médicos como enfermeiros possuem funções distintas no que concerne à saúde, onde se pode ver mais uma relação de
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dominação/subordinação em vez de uma relação de cooperação, onde se denota a separação profissional demonstrando a relação de superioridade entre médicos e enfermeiros. Segundo Carapinheiro (1993) o hospital é um sítio de prestação de serviços médicos e partilha de três funções principais: função de controlo social; função de produção do saber médico; e função de reprodução da força de trabalho. Para melhor gerir um hospital têm de se introduzir instrumentos racionalizadores para assim melhor coordenar os múltiplos interesses de todos os grupos profissionais envolvidos no mesmo local de trabalho. “O processo de racionalização da
actividade médica desvenda e torna inteligível para o doente a construção do raciocínio médico, não no seu conteúdo substantivo mas nas suas operações lógicas, estabelecendo-se a relação médico-doente como a relação entre um técnico especializado e um doente restituído da sua capacidade de participação, o que, para a autora, corresponde à passagem progressiva da relação médico-doente à relação médico-instituição” (Carapinheiro, 1993: 147).
Segundo Carapinheiro (1993) existe uma certa relação desigual de saber e poder entre enfermeiros e médicos. Esta tensão latente já instaurada e visível por ambos pode ser negociável (ou não). Aos enfermeiros cabe o trabalho técnico, um controlo social sobre os doentes para manter a ordem do hospital e as prescrições do médico. Os médicos dizem-lhes o que devem ou não fazer e só a eles cabe a prescrição terapêutica. No entanto, os enfermeiros podem estar em desacordo com isso, ou encontrar certas falhas em alguns medicamentos prescritos, mas essa comunicação com o médico é feita com enormes cuidados. Os enfermeiros jamais podem tomar decisões relacionadas com o diagnóstico de alguma doença. “O facto de os
enfermeiros não terem autoridade para informarem os doentes sobre o diagnóstico da sua doença tende a estabelecer como cláusula informal que também não disponham de autoridade para informarem sobre aspectos acessórios ao diagnóstico, decisão que se estipula pertencer exclusivamente ao médico” (Carapinheiro, 1993: 191).
De uma forma simplória, a principal diferença entre médicos e enfermeiros está patente na (quase) exclusiva humanização e assistencialismo aos doentes pelos enfermeiros. Chauvenet (in Carapinheiro, 1993) refere mesmo que é uma forma dicotómica entre aqueles que “servem a ciência” e os que “servem os doentes”. Os actos de enfermagem são controlados processos técnicos e cada vez mais dependentes da posição autónoma do médico, denunciando a sua posição vulnerável e que gira em torno dos médicos e dos doentes. Segundo a ordem do médico, estes executam sempre as tarefas mais desagradáveis no que diz respeito aos doentes, mas também criam laços mais fortes e próximos e de uma relação mais humanista com os mesmos.
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3.1.
Uma nova medicina: equivoco ou solução?
Existem diferentes concepções que os médicos têm de si e da medicina que praticam, com diferentes modos de produção de cuidados e de discursos médicos. Os serviços hospitalares são os lugares específicos para a produção e reprodução da medicina com funções de saber científico e de controlo social, como atrás já foi referido. Existem dicotomias nas concepções de medicina (discursos médicos) e nas gerações dos médicos (mais novos/mais velhos) que se cruzam claramente. A prática humanista (mais ligada a um hospital de clínica geral) consiste em “ (…) médicos que procuram “salvar” a prática profissional da degenerescência do aspecto
humano, introduzida pelo frenesim das intervenções apressadas e invasivas do corpo do doente, tratando-o sobretudo a partir do “escutar o doente” e deslocando as etapas iniciais do trabalho médico da utilização das técnicas para o conhecimento e exploração clínica directos”
(Carapinheiro, 1991:29). Já a prática tecnicista (ligada mais a um hospital universitário, por exemplo) está “ (…) ligado a uma base técnica e tecnológica de organização de cuidados
médicos especializados e superespecializados o que, nesta acepção restrita, o tornou imediatamente reconhecível no serviço universitário” (Carapinheiro, 1991: 30).
É pois no hospital moderno que se confrontam duas práticas de medicina: a humanista e a tecnocrata, ou seja, a medicina baseada em cuidados paliativos; e a mais relacionada com as novas tecnologias focadas em curar as doenças, mais visível nos cuidados agudos. A primeira centra-se na observação clínica tradicional, e a segunda nos dados objectivos que são obtidos pelas modernas tecnologias, numa visão biomédica que se distingue da visão de enfermagem, que se interessa não pelo exterior do doente (o corpo), mas sim pelo doente como um todo, com hábitos e estilos de vida próprios que importa analisar e conhecer para se tomarem as melhores decisões para o doente, como refere na sua tese o autor Amendoeira (2004). A formação inicial entre médicos e enfermeiros é a mesma quanto ao paradigma em que ambos se baseavam. No entanto, as ciências sociais e humanas começaram a ter um peso bastante significativo na formação principalmente de enfermagem, que começou a valorizar a própria qualidade de vida do paciente. É presumível que essa ruptura com o paradigma biomédico faça com que surjam (ainda mais) conflitos e tensões provocados pelos actos médicos e pelos actos de enfermagem. Segundo Nogueira (2010) a medicina moderna enfatiza o prolongamento da vida e da cura de todas as doenças, mas negligencia a qualidade e o cuidado necessários nesse aumento da esperança média de vida, deixando ao completo abandono indivíduos incapacitados (capítulo que iremos de seguida abordar).