Recruitment Processes
PREWITT’S CHINESE BOX PUZZLE
Sem educação verdadeiramente universal e de boa qualidade, qualquer país está condenado.
Jornal O Estado de S.Paulo, 14 de dezembro de 1999
Em 29 de junho de 2010 um programa de TV exibido no The History Channel - “O Efeito Nostradamus”21 apresentou alguns elementos atualizados que permitem entender como
é possível, depois de tanto tempo, a educação após Auschwitz, retratada por Adorno, estar em prática em alguns lugares do mundo. A crueldade do passado que o frankfutiano insistiu que não se repetisse, se faz aparente nesta primeira década de 2000. O programa mostrava Hitler como um dos piores criminosos da história, culpado do homicídio de milhões, justificando-o através do racismo. Mas este ser diabólico seria também um profeta? – perguntava o locutor na chamada para o episódio – e depois anunciava – sua chegada ao poder foi prevista por videntes como Nostradamus e Erik Jan Hanussen, que previram que ele seria declarado Messias e que tiraria a Alemanha de uma dura época, mas mergulharia a Europa em sua mais sangrenta guerra. O programa, embora sob um ponto de vista inusitado – Hitler e Nostradamus – se baseou na história da Alemanha fascista intercalando informações de um líder ocultista. Mas os dez minutos finais do episódio, ao propor um diálogo entre o passado e o presente, chamou a atenção pela contemporaneidade que conferia ao temor de Adorno quanto à possibilidade de Auschwitz se perpetuar nas várias sociedades. A primeira relação que o programa propos foi entre a crueldade de Hitler e a dos skinhead.
Os skinhead – cabeças raspadas – identificados no programa como uma subcultura originária dos jovens da classe operária, no Reino Unido, no final dos anos 1960, e mais tarde espalhada para o resto do mundo, surgiram como uma tribo com necessidades de demarcação de seu estilo de vida, exibindo moda e gosto musical característico. No final dos anos 1970,
21
Texto de divulgação da série no site do The History Channel - Ao longo da História, cada cultura tem criado profecias nefastas que retratam o fim do mundo. O Efeito Nostradamus estuda os elementos em comum destas predições, assim como sua relação com os acontecimentos atuais. Um grupo de especialistas analisará as profecias de Nostradamus, a Bíblia, diversas mitologias, hieróglifos aborígenes e outros textos antigos para
entretanto, a raça e a política viraram fatores determinantes, gerando divergências e divisões entre os próprios skinheads. O espectro político dentro da cena skinhead abrange da extrema- direita a extrema-esquerda, apesar de que muitos skinheads sejam apolíticos. Eles cultuam a virilidade, o futebol e o hábito de beber cerveja e costumam usar a violência como uma marca própria, quando se sentem ameçados em suas crenças.
O programa exibiu cenas de skinheads americanos e alemães diante de atos violentos e carregando bandeiras nascistas. Uma pesquisa na internet, uma visita a blogs e sites, consultas a entrevistas e é possível constatar que a definição de skinheads não é única. Eles mesmos se idenficam de maneira diferente. No site Brasil Escola22, uma entrevista feita com um
skinheads identificado somente pelo primeiro nome de Caio, deixava claro a existência de seguimentos dentro do próprio movimento. “Atualmente é comum os meios de comunicação e muitas pessoas associarem a palavra skinhead às agressões fascistas e grupos neonazistas – seguia respondendo Caio à pergunta da revista on-line – mas vale ressaltar que tradicionalmente os verdadeiros skins têm estado sempre à margem dessas atitudes condenáveis de agressões contra o próximo”. De qualquer maneira, o que cabe como conclusão é que mesmo com divisões, admite-se existir um grupo que também se identifica como skinheads que é adepto da violência como método de estabeler o poder e defender ideias. E foi o que o programa do The History exibiu.
Quando da maior repercussão do filme Tropa de Elite, no Brasil, muitos comentários se seguiram nos jornais da época. Alguns deles rotularam a incitação à violência como um ato fascista. A "Variety", um dos veículos mais influentes da indústria cinematográfica, publicou uma crítica contundente sobre o filme brasileiro, exibido internacionalmente pela primeira vez durante o Festival de Berlim, em 2008. No texto, assinado pelo crítico Jay Weissberg, o longa de José Padilha é descrito como "a celebração da violência pelo bem, que funciona como peça
de recrutamento para criminosos fascistas".
Na Bolívia ou na Venezuela, para citar países latinos, ou na Europa, a violência com frequência pode ser identificada pelos traços de crueldade do passado que, conforme já anunciados, Adorno sempre temeu não tivesse sido estirpada. Se alguns anos atrás o líder fascista austríaco Joerg Hider era uma voz que mais lembrava um anacronismo, a chegada ao poder de Berlusconi, na Itália, e as expressivas votações dos partidos nacional-fascistas, na França – Jean-Marie Le Pen, faz, no mínimo, pensar sobre a possibiidade de o programa do canal The History estar certo quanto ao fato de que outros líderes podem ainda propagar a violiência porque muitas nações se mostram vulneráveis quanto ao nível de submissão de seu povo.
Esses relatos foram apresentados, como introdução do capítulo, pois são constatações de uma sociedade em curso, que reflete em absoluto todo o objeto desta pesquisa. São ponderações que dialogam com a Sociedade Excitada de Türcke (2010) onde o mesmo anuncia que o sujeito se propõe a conviver com o temor, para não mais temê-lo. E que, mais do que qualquer outra leitura, permite um dialogismo transparente e complementar com a educação e barbárie de Adorno.
Dissertar sobre as obras de Adorno e a relação das mesmas com o universo da educação não se apresenta como algo original, pois antes deste trabalho muitos já o fizeram e brilhantemente. Entre eles, Antonio Álvaro Soares Zuin e outros citados em sua obra Indústria Cultural e Educação – o novo canto da sereia, na página 150 – brasileiros e de várias nacionalidades. A contruibuição se dará então, na proposta de relacionar a obra de Adorno aos textos sobre educação publicados nos jornais Folha e Estado de S.Paulo.
A primeira reflexão está associada ao título do capítulo - A educação nos editoriais sob a luz da Teoria Crítica. O que aparentemente se mostra óbvio, sugere um pensamento esclarecedor. A educação “dos” editoriais ou a educação “nos” editoriais? A diferença de
formulação se justifica pelo fato de ser possível a concepção de ambas as fórmulas de linguagem e de não haver semelhança entre as duas. Dos editoriais propõe haver um modelo de educação defendido pelos veículos de comunicação e “nos” editoriais propõe a reflexão de um modelo de educação de outrem – podendo ser oficial (poder público) e não oficial (sociedade civil).
No caso dos textos selecionados ao longo de uma década é possível assegurar, depois de várias leituras, haver modelos de educação refletidos a partir da concepção de outrem e dos próprios periódicos. Fica claro esta assertiva quando, por diversas vezes, acusou-se em trechos anteriores, que os editorialistas se vestiam de especialistas. Nestes momentos, e foram muitos, o jornal defendia um modelo próprio de educação normalmente formulado a partir da realidade noticiada e debatida. Ou seja, na maioria das vezes, as teorias dos jornais sobre educação eram exteriorizadas em contraposição ao que estava em destaque e não modelos próprios.
Os jornais ousaram propor modelos e se faz oportuno traçar algumas propostas defendidas considerando as diferenças ideológicas de cada veículo. Outra constatação oportuna, é que o reflexo foi infinitamente mais expressivo quanto ao modelo oficial de educação. Outra possibilidade seria ler os editoriais a partir da versão dos alunos e dos professores, mas todas as vezes que elas se estabeleceram, estavam em diálogo com o discurso oficial. Desta forma, como conclusão, a proposta é perceber a educação do poder público ainda que em diálogo com outras instâncias.
5.1 – A educação do Jornal O Estado de S.Paulo
Sem ensino de qualidade, como podem as novas gerações disputar empregos de qualidade? Sem formação escolar como podem as crianças e os jovens de hoje assegurar, quando adultos, condições de vida com mínimo de dignidade? E como pode haver possibilidade de ascensão social sem boa educação?
As perguntas reproduzidas no editorial do dia 18 de junho de 2004, no Jornal Estado de S.Paulo, revelam muito sobre como o veículo entende educação. Com certeza o editorialista está entre aqueles que defende a educação como um passaporte para o mundo moderno, conforme descreveu Wolfgang Leo Maar, na abertura do livro Educação e Emancipação. Nas palavras de Maar, Adorno ao longo de suas obras alerta os educadores em relação ao deslumbramento geral e em particular o relativo à educação, que ameaça o conteúdo ético do processo formativo em função de sua determinação social.
De imediato é possível informar que houve deslumbramento por parte dos editorialistas dos dois veículos quanto ao tema educação, durante a década pesquisada. Os questionamentos: Sem ensino de qualidade, como podem as novas gerações disputar empregos de qualidade? Sem formação escolar como podem as crianças e os jovens de hoje assegurar, quando adultos, condições de vida com mínimo de dignidade? E como pode haver possibilidade de ascensão social sem boa educação?, ilustram com perfeição a aceitação do que está socialmente posto. A predominância do mercado em relação ao modelo de produção é evidente. A busca pela dignidade se dá, segundo o texto, anteriormente pela educação, quando na verdade deveria se dar também pela educação. O mercado, as relações econômicas, os parâmetros de dignidade, a definição de ascensão social são contextualizações absolutamente aceitas. O editorial mostra que todos devem desejar a mesma coisa sob o ponto de vista social e que para atingi-las é necessário o apoderamento educacional.
Quando o editorialista escolhe o lexo “disputar” para descrever o movimento por parte do sujeito em busca de um emprego de qualidade, ele determina a aceitação da competição acirrada. É, na prática, a imagem da sociedade da excitação que tão claramente definiu Türcke em sua obra já referenciada. A educação que se revela na leitura dos editoriais é a que propõe a apropriação por parte do educando de instrumental técnico e receituário para a eficiência.
Para se manter empregado, o trabalhador de hoje precisa do domínio pessoal do processo de produção... E então se concluirá que o ensino técnico só pode se articular com um ensino fundamental extremamente fortalecido; a menos que queira gastar seu tempo na recuperação do básico.
Jornal O Estado de S.Paulo, 15 de junho de 1997
No trecho acima, parte do editorial de 15 de junho de 1997, o editorialista se posiciona tão objetivamente a favor da educação para o emprego que chega a supor ser perda de tempo a tentativa de recuperar o ensino básico. Trata-se da imagem nítida da aceitação do modelo de sociedade assim como ela está consolidada. Ao entender que os dois jornais pesquisados fazem parte da ideologia dominante é possível afirmar, considerando Adorno, “que quanto mais as pessoas estiverem submetidas a contextos objetivos em relação aos quais são impotentes, ou acreditam ser impotentes, tanto mais elas tornarão subjetiva esta impotência (ADORNO, 2003, p. 36). Partindo do pressuposto de que o sujeito só pode estar “aí”, usando o conceito de Türcke, estando empregado, então não importa o método nem o trajeto da educação, desde que ela ofereça um posto no mercado.
Se a formação cultural, como escreveu Adorno – mesmo com o temor de ser rotulado de sentimental –, requer amor, com certeza amor não é um dos requisitos da educação defendida pelos editoriais do Jornal O Estado de S.Paulo.