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Previsiones técnicas a considerar en el proyecto A. Sistema estructural

A vida socioeconômica das famílias camponesas residentes nos SSE visitados no Subpolo Três é consideravelmente diversificada em função dos ecossistemas e rotinas de trabalho que regulam e orientam suas atividades produtivas. A complexidade sociocultural e econômica envolve uma diversidade de organizações que empregam e ocupam os moradores, entre os quais se destacam a escola, o comércio e o transporte de cargas e pessoas, os serviços de saúde e as associações comunitárias. Por outro lado, os camponeses ocupam-se nos sistemas produtivos em interações com o ecossistema, explorando solos, florestas e águas para a produção ou obtenção de mercadorias e valores de uso para o consumo familiar. Essa complexidade constitui o cotidiano da vida camponesa observada no trabalho de campo que aqui se procura relatar com a finalidade de expor e compreender os aspectos socioculturais inerentes a essas famílias camponesas.

Inicia-se a narrativa com os aspectos do se definiu como um tipo ideal de comunidade tradicional27. Neste caso, observaram-se dois tipos de ocupações: i) aquelas diretamente vinculadas aos sistemas produtivos camponeses; e ii) aquelas decorrentes de empregos ou prestação de serviços para organizações da Administração Pública, como escolas e postos de saúde. Assim, os membros das famílias camponesas têm seu cotidiano estruturado pelo modo como realizam suas atividades profissionais e pelo local onde trabalham.

A exposição inicia-se pelos aspectos relativos ao trabalho camponês. Após o despertar matinal, em geral entre as 4 e 6 da manhã para os adultos, e um breve desjejum, os

27 Uma comunidade tradicional caracteriza-se por um relativo distanciamento de áreas urbanas. Nela

predominam os sistemas produtivos camponeses. Entretanto, há uma presença institucional razoável em cujas organizações um ou mais membros das famílias se ocupa. Exemplos típicos são a escola e o posto de saúde.

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membros da família distribuem-se nas suas atividades. O dia de trabalho, dependendo do SSE onde se localiza e do sistema produtivo praticado nas UPC pode começar pela obtenção do pescado para as refeições, pela ordenha dos bovinos para a obtenção de leite, ou pelo preparo das ferramentas do trabalho agrícola. Os camponeses residentes em áreas lacustres iniciam seu trabalho estendendo as malhadeiras28 para captura do pescado para as refeições do dia. Os criadores de gado começam o dia retirando o leite e preparando a produção diária de queijo qualho29. Estes dois tipos de atividades produtivas são mais breves e exigem deslocamentos menores. Em geral, a pesca diária para autoconsumo é realizada pelas mulheres ou mesmo por crianças que reparam as malhadeiras estendidas pelos adultos ainda cedo. A ordenha do rebanho e a fabricação de queijo são atividades realizadas dentro das UPC e, geralmente, encerram-se antes das 13 horas.

Fotografia 7 – O Sr. Sebastião parte para a lida no roçado de Melancia, SSE ilhas e costa do Iranduba. Foto de: Jessé Rodrigues, 2009.

O trabalho agrícola é certamente o de maior penosidade e esforço físico. Os agricultores precisam acordar cedo para preparar suas ferramentas e planejar a sua jornada de trabalho. Em geral, o dia de trabalho estende-se das 6 da manhã até as 11, quando se para por causa do calor e do sol causticante, retornando as 14 e indo até às 15 ou 16 horas, dependendo da distância que percorrerão até suas casas. Ao final da jornada de trabalho, os familiares e

28 Redes estendidas nos cursos de água ou igapós para a captura de pescado.

29 O queijo qualho é o produto mais comum da pecuária leiteira dos SSE Rio Acará Grande e Novo Céu e Rio

Mutuca. Consiste de um queijo branco cuja fabricação é artesanal e simples, resultando da aplicação do “pó qualho”, uma substancia coagulante, e sal sobre o leite coado seguido de uma prensagem de cerca de 24 a 48 horas.

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trabalhadores externos precisam se deslocar das áreas de trabalho para suas residências, nem sempre muito próximas. O abrigo das casas é importante para proporcionar o descanso e a proteção contra as adversidades das áreas rurais, permitindo a continuidade do trabalho no dia seguinte.

Fotografia 8 – O professor e seus estudantes são conduzidos para a escola pelo Sr. Ivan no SSE lago do Curarizinho.

Foto de: Jessé Rodrigues, 2009.

O segundo grupo é formado por uma diversidade de ocupações que podem ser locais ou podem exigir deslocamentos para as áreas urbanas. Os trabalhadores urbanos e estudantes viajam diariamente nas embarcações e ônibus que os transportam para seus locais de trabalho ou estudo nas áreas urbanas mais distantes, geralmente, Manaus ou as sedes dos municípios. Há os que retornam no mesmo dia e os que permanecem durante toda a semana, retornando apenas nos finais de semana ou em períodos maiores.

As ocupações locais envolvem diversos agentes. Entre eles dois grupos se destacam: i) há os professores, funcionários e estudantes que são transportados pelos barqueiros prestadores de serviços até as escolas; ii) há também os Agentes Comunitários de Saúde (ACS), que realizam atividades de visitação dos moradores e as outras atividades que lhes são atribuídas, e os líderes comunitários que dirigem as associações e executam atividades de visitação aos moradores para tratar dos assuntos pertinentes às organizações que dirigem. Este grupo de pessoas trabalha nas organizações que representam a institucionalidade formal local, numa espécie de confluência entre a institucionalidade endógena e a exógena.

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Periodicamente, esta prática é modificada nos períodos de enchente. A partir de março e até junho, as águas sobem atingindo seus níveis máximos. Neste período, o que ainda resta dos plantios de várzea é colhido e comercializado, a pesca se torna menos produtiva por conta da facilidade de deslocamento dos cardumes, e os rebanhos bovinos e bubalinos precisam migrar para os campos de várzea alta ou terra firme. No limite dessa fase, quando as águas invadem as residências, muitas famílias camponesas migram para as áreas urbanas para trabalharem em atividades demandantes de mão de obra com pouca qualificação – geralmente, serviços informais – ou, quando têm propriedades em terras firmes e várzeas altas, migram para essas áreas parta trabalhar na agricultura, em geral produção de frutas em sítios domésticos, e cuidar dos rebanhos bovinos.

As atividades que persistem nos SSE visitados por ocasião das cheias são as de natureza extrativa vegetal e animal, em certos casos, em concomitância com as atividades da mandiocultura. A subida das águas facilita o acesso, coleta e o transporte do Açaí (Euterpe

precatória) e Castanha do Brasil (Bertholletia excelsa H & B), assim como das madeiras

maiores e mais pesadas. O período das cheias também é propício para a prática da caça, pois os animais encontram-se com mobilidade limitada devido ao isolamento proporcionado pela alagação das suas trilhas. Ainda, o período de cheias é propício para o desmanche e beneficiamento dos roçados de mandioca localizados nos SSE de terras firmes permeados por igarapés e lagos.

Estruturado deste modo, tal cotidiano é o lócus da formação dos hábitos e costumes que orientam a busca e a criação das soluções para as necessidades das famílias camponesas. Tais soluções dizem respeito à manutenção da família e ao trabalho produtivo e revelam os padrões de consumo e os anseios de investimentos em meios de trabalho nas famílias camponesas. Em relação ao consumo a proximidade geográfica das áreas urbanas é um fator crucial na formação dos hábitos. Quanto mais próxima a comunidade das áreas urbanas mais frequentemente se observa a preferência por utensílios e móveis industrializados, eletrodomésticos e produtos culturais de procedência urbana – adereços e vestimentas, principalmente. Esse aspecto produz efeitos socioculturais importantes: i) eleva a dependência da família em relação ao mercado e torna imprescindível a obtenção de uma renda para a aquisição deste tipo de bens via mercado; e ii) induz o crescimento de uma expectativa de integrar-se cada vez mais à vida urbana, seja por trabalho, estudos ou outros meios como estratégia de elevar o bem estar pessoal e familiar.

Por tratar-se do trabalho produtivo, a demanda observada reparte-se em dois grupos de bens: os insumos e defensivos agroindustriais; e os equipamentos, as máquinas e os

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implementos agropecuários. O primeiro grupo apresentou uma ocorrência generalizada: todas as UPC visitadas utilizam ou desejam utilizar agrotóxicos e insumos industriais. Quanto ao segundo grupo, a expectativa é a mesma: adquirir, no mínimo, roçadeiras e motores de rabeta para embarcações. Contudo, nesse caso, observou-se que as restrições econômicas e financeiras atuam como os maiores impedimentos para obtenção destes tipos de bens via mercado.

As observações do cotidiano camponês indicaram uma crescente necessidade de inserção no mercado para a obtenção dos meios para a manutenção da família assim como para sustentar e operar os sistemas produtivos. Esse aspecto tem repercussões sobre as decisões estratégicas para a reprodução da família e essas decisões, por sua vez, são constrangidas pelas características socioculturais e econômicas assim como pela sua trajetória histórica. Tais condições estabelecem duas possibilidades ideais extremas: a integração total ao mercado ou a resignação a uma trajetória de subsistência. Os casos observados situam-se entre estes extremos para os quais as UPC pode tender em função das suas características estruturais. Portanto, considera-se que essas limitações posicionaram as UPC observadas em níveis diferenciados de eficiência reprodutiva e, desse modo, as situaram em condições socioeconômicas próximas a estes extremos.