A fragilidade da Administração no Brasil como área de conhecimento preocupava pesquisadores e agitava o campo ao final dos anos 90. Assim, ser ou não ciência - e até onde a posição escolhida poderia ser sustentada - eram oposições que caracterizavam estas discussões.
Por um lado, os argumentos a favor de uma resposta afirmativa esbarravam em fraca argumentação quando relembravam o cabedal teórico pouco consolidado se comparado a outras Ciências de evolução também recente (BERTERO; CALDAS; WOOD JR, 2005). Da mesma forma, a facilidade de difusão na comunidade de negócios, alinhada ao pop- management, bem como esta estreita relação, parecia aproximar a Administração dos ‘práticos’, mais interessados no dia a dia dos negócios do que no tipo de conhecimento ali gerado.
Identificava-se, por outro lado, movimentos que buscavam um distanciamento crítico em relação às demandas práticas do campo, tornando a Administração um “fenômeno de academia” (BERTERO; CALDAS; WOOD JR, 2005, p.13). Professores pesquisadores a bordo deste movimento ensaiavam aproximações com disciplinas como Filosofia, Antropologia, Sociologia, Arte stricto sensu, etc, investindo em reconhecimento e distinção.
Posições díspares quando se tratava de perspectiva epistemológica, da teoria da ciência e da metodologia da pesquisa somavam-se a modismos e tornavam problemático falar em conhecimento científico em Administração no Brasil (BERTERO; CALDAS; WOOD JR, 2005).
Os autores expõem que produção de conhecimento e produção científica referem-se a realidades diferentes. Produtores de conhecimento relacionados a teatro, cinema, arte, etc., não são necessariamente cientistas. Citando Henry Mintzberg 87em trabalho em que
critica produtores na área de estratégia empresarial, afirmam que peças que podem ser elegantes, podem conter pouco conhecimento, enunciando e explicitando “intuições e sínteses ocorridas anteriormente” (BERTERO; CALDAS; WOOD JR, 2005, p.2).
Para ser reconhecida como conhecimento científico os autores defendem que uma produção deve ser:
Canônica – ou seja, deve “obedecer regras claras e aceitas pela comunidade científica”. Embora em períodos anteriores da história os cânones tenham sido mais duradouros e pouco contestados, atualmente diversos cânones são aceitos. Assim, nas Ciências Sociais, ao lado das regras do positivismo lógico, deve-se “exercitar a tolerância” e acatar diversas outras; Cumulativa – no sentido de que esta produção ocorre no tempo, tendendo a ser uma cadeia, onde novos esforços completam a obra por outros iniciada.
Bourdieu (1976, p.123) confirma a obediência e aceitação da comunidade científica ressaltando que a verdade científica se apoia em condições sociais de produção:
O universo “puro” da mais “pura” ciência é um campo social como outro qualquer, com suas relações de força e monopólios, suas lutas e estratégias, seus interesses e lucros, mas onde todas essas invariantes revestem formas específicas.
No campo científico, o que está em jogo é o monopólio da autoridade científica, entendida como competência científica, que inclui capacidade técnica e poder social, representando a capacidade socialmente outorgada de falar e agir legitimamente. Na luta científica, “os dominantes são aqueles que conseguem impor uma definição da ciência segundo a qual a realização mais perfeita consiste em ter, ser e fazer aquilo que eles têm, são e fazem” (BOURDIEU, 1976, p. 128).
Nessa luta, aos dominantes cabem estratégias de conservação – no sentido de rejeitar e desencorajar iniciativas heréticas, assegurando a ordem científica da qual
87 MINTZBERG, Henry. The rise and fall of strategic management: reconceiving roles for planning, plans, planners. New York: The Free Press, 1994.
comungam. Essa ordem não se refere apenas à “ciência oficial”, ou seja, aos recursos científicos herdados do passado e reconhecidos em “estado objetivado” na forma de instituições, obras, etc. Refere-se também aos recursos que existem em “estado incorporado” ou seja, sob a forma de costumes científicos, sistemas de percepção, apreciação e ação, produto de ação pedagógica que influi na solução e avaliação de problemas. Incluem-se ainda, as instituições que asseguram produção e circulação de bens científicos, bem como reprodução e circulação de produtores e consumidores – em especial o sistema de ensino,
[...] “único capaz de assegurar à ciência oficial a permanência e a consagração, inculcando sistematicamente habitus científicos ao conjunto dos destinatários legítimos da ação pedagógica, em particular a todos os novatos do campo da produção propriamente dito” (BOURDIEU, 1976, p. 138).
Recusando cauções e garantias que a antiga ordem oferece, bem como participação no capital coletivamente garantido, aqueles que rompem o contrato então vigente e as trocas de reconhecimento que asseguram a transmissão da autoridade científica recorrem a estratégias de subversão. Buscando “vencer os dominantes em seu próprio jogo”, esses “novatos” (BOURDIEU, 1976, p. 138) empenham-se, a princípio, em investimentos cujos lucros não se farão notar a curto prazo, uma vez que desafiam a lógica do sistema.
Ao tratar de estudos organizacionais, Clegg e Hardy (2007) identificaram uma série de conversações entre uma comunidade de pesquisadores – incluindo periódicos e instituições - que ajudam a constituí-la. Estas conversações são progressivas e utilizam vocábulos e termos que apresentam vários graus de continuidade. Reproduzem ou contestam tradições do discurso que tem moldado as práticas, refletindo o engajamento dos membros das organizações. Quando pesquisadores escolhem como representarão a organização em seus trabalhos, participam do próprio processo de transformação e interpretação das organizações, uma vez que a representação envolve como e quais aspectos serão caracterizados – formalização, padronização, variação, etc.
Uma especificidade do campo científico é que pretendentes não podem apenas distinguir-se de seus antecessores; é preciso desacreditar e desqualificar os detentores do seu capital de legitimidade, remetê-los ao “desclassificado” e “integrar suas aquisições na construção distintiva que os supera” (BOURDIEU, 1976, p.127; BOURDIEU, 2004).
Ao privilegiar certos termos do discurso e do estágio das conversações, as representações funcionam, ainda, como meio de “não ver” ou “não reconhecer” outros
atributos possíveis. É o que também admite Fligstein (2001) ao afirmar que, para dar significado ao campo, cada teoria toma posição criticando teorias existentes: se uma é correta, a outra é errada. Para que os outsiders não considerem este debate exageradamente complexo, é preciso compreender que modelos são criados em oposição uns aos outros: daí ser necessário identificar com quem o pesquisador está dialogando. O autor observa ainda que o crescimento das teorias organizacionais relacionou-se aos estudos empíricos para testá-las, sem que isto resultasse em consenso entre elas, ou em sua aplicação. Trabalhos empíricos focalizavam apenas as variáveis identificadas com determinado modelo teórico.
Na leitura dos agentes do campo, as organizações são, então, efeito da interação recíproca de conversações múltiplas, que preparam uma “arena” de disputas (CLEGG; HARDY, 2007) ou um “campo historicamente contestado” (REED, 2007). São locais de ação social, mais ou menos abertas ao conhecimento formal e às práticas que o alimentam, onde não se pode dizer que há uma análise mais correta - já que as possibilidades são diversas.
Apoiados na leitura de Bourdieu, entretanto, podemos identificar, no pós anos 90, o acirramento das tomadas de posição na arena, ou, mais organizadas estratégias de subversão. Assim é que Wood (2007), ao usar seu espaço de comentários no Handbook de Estudos Organizacionais (ali denominado Nota Técnica), considerou ambas abordagens alternativas, no caso referindo-se aos Estudos Críticos em Administração e ao Pós- modernismo como possibilidades de renovação. Destacava, entretanto, que nenhuma delas era nova. Seriam "frutas maduras nesse supermercado de ideias mofadas88, mas ainda estão em
tempo de serem consumidas" (WOOD JR, 2007, p. 265). O autor reconhecia que a empreitada era exaustiva, uma vez que "o material disponível é numeroso, multidisciplinar, contraditório e, muitas vezes (especialmente no caso do Pós-modernismo) confuso" (p. 264). Destacava ainda que, ao contrário dos Estudos Críticos, o Pós-modernismo não havia conquistado muitos adeptos no Brasil.
A disputa pela abordagem ‘legítima’ para os Estudos Críticos surge em trabalho de Vieira e Caldas (2006) que questionam a indicação do Reino Unido como espaço de origem e disseminação dos Estudos Críticos. Assim, a natureza da crítica estaria dirigida e
88 Alusão à metáfora do "supermercado de ideias" com a qual Burrell (2007) critica os rumos dos trabalhos de
Morgan alegando que este estaria alegando – em seu livro Imagens da Organização – que metáforas não são incompatíveis. Assim, segundo Burrell, para Morgan, as metáforas poderiam "ser apanhadas conforme se queira das prateleiras de um supermercado" (BURRELL, 2007, p.451)
uma visão colonialista da questão seria adotada. Acreditavam que, ao construir-se um espaço institucional, a crítica perderia força, adquirindo “caráter de “crítica autorizada”, legitimada e preocupada em ser positiva” (VIEIRA; CALDAS, 2007, p..63).
Os mesmos autores, ao retratarem a disputa já comentada entre Misoczky, Alcadipani, etc, afirmam:
Um ótimo exemplo do vigor, das perspectivas e dissonâncias da teoria crítica no Brasil pode ser visto no recente debate realizado na Revista de Administração Contemporânea (RAC), no primeiro número de 2005, entre Maria Ceci Misoczky e Jackeline Andrade, Alexandre Faria e Rafael Alcadipani. Nele os autores expõem suas ideias, deixando claras suas diferenças e abrindo, dessa forma, o mundo das diferentes possibilidades de se fazer crítica em Administração em geral, e particularmente nos estudos organizacionais (VIEIRA; CALDAS, 2007, p.63).