Chegar a Alexandria pode ser uma experiência instável e atordoante. Sabemos que sua ocupação ao longo do tempo foi múltipla e diversificada. O Quarteto de Alexandria é uma obra que investiga o amor e não desconfiamos disso quando iniciamos sua leitura. O romance estabelece no seu modus faciendi uma analogia com a teoria da relatividade. Trata-se da mesma história contada por diferentes personagens: Justine, Balthazar, Mountolive e Clea.
No primeiro livro do Quarteto temos a narrativa de um aspirante a escritor, Darley, e os encontros e desencontros de um grupo de amigos. O texto procura o texto e a vida na Alexandria anterior ao período da Segunda Guerra Mundial. Duas mulheres ocupam o maior número de páginas: Justine e Melissa. A primeira casada com o milionário Nessim; a segunda, dançarina de cabaré explorada pelo amante Cohen. O narrador se envolve com ambas. A trama estabelecida não permite ao leitor a suspensão da leitura. À intensidade dos movimentos dos personagens no espaço mistura-se um erotismo violento e difuso, as fronteiras entre desejo, envolvimentos interpessoais e o cenário plástico da Alexandria literária, se dissipam, em direção a um neutro, ao desaparecimento, ao esgotamento, à aniquilação.
Efetivamente trata-se de pensar a idéia de que a pertinência dos habitantes ao espaço literário e a consistência psicológica dos personagens dependem da cidade. Isso é reafirmado em várias partes do texto de tal forma que a própria cidade de Alexandria passa a ser um dos personagens, em jogos interativos com os demais, compondo o mosaico do Quarteto. Mas como isso acontece? Como uma cidade passa a ser um personagem? No romance não há escala de valores entre cidade e vidas. Ambas compõem o espaço literário urdido na trama narrativa. Podemos dizer inclusive que Alexandria ou Darley ou Justine ou Clea ou Melissa ou qualquer personagem estão no mesmo pé no que diz respeito à estrutura do romance e ao enredo. Mas a cidade é também o tecido com que se costura o plano imanente da narrativa. É apenas em Alexandria, e tão somente em Alexandria, com suas vielas, ruas, cabarés, cafés, espaços de invenção da narrativa e de seus personagens, que encontramos as existências dolorosas das personagens de Durrell.
A aludida dependência dessas personagens da cidade de Alexandria é mais do que isso, suas vidas só podem transcorrer no espaço existencial da cidade. A correlação entre literatura e existência produz um fluxo narrativo que elimina a dimensão do tempo, à
exceção do quarto volume, derivando das vidas trágicas em questão, alguma inquietude e muita dor. Os personagens se perdem uns nos outros. Todos os encontros são sofridos.
Uma paisagem coberta de rabiscos, assinaturas de homens e épocas. Agora, entretanto, começo a acreditar que o desejo é herdado do lugar; que, no que tange a esse acessório chamado vontade, o homem depende de seu lugar no espaço, inquilino de terras férteis ou bosques insalubres. (Durrell, 2006, p. 108)
O narrador Darley, de Justine, e o autor Durrell, do Quarteto, só existem porque existe Alexandria, a obra maior do que o criador. Talvez esteja aí localizada a pertença de um e outro no espaço heterotópico da criação literária. Também corre em paralelo o desejo de escrita e o desejo atormentado por Justine e mesmo por Melissa.
O livro de Lawrence Durrell faz referências a um sem número de lugares e endereços na cidade. Praça principal, perto da estação de bondes, rue des soeurs, Praça Zaglul, região dos cortiços, rua tatwig, restaurante Lutetia, etc. Por outro lado, o livro foi escrito sob a sombra de um poeta, de carne e osso, que morou em Alexandria à época e antes de Durrell: Konstantinos Kaváfis, poeta grego de Alexandria, ignorado em seu tempo e hoje amplamente reconhecido. Kaváfis funciona como uma sombra; a beleza de seus poemas aparece no Quarteto direta e indiretamente.
Temos, ao ler o Quarteto, especialmente Justine, a sensação de uma corrida na direção do fluxo das palavras e quiçá do próprio desejo de leitura. Os personagens de Alexandria buscam uns aos outros, como buscam a si próprios, e ao próprio desejo. Assim como as palavras, o espaço vai se diferenciando à medida que vamos conhecendo a cidade. Tomado pelo livro como o autor por seus personagens, nos perguntamos que cidade é essa? Como se constroem as relações entre cidade e os modos de produção de subjetividades na obra de Lawrence Durrell? O andar pela cidade e o passeio pelas palavras, pelos fluxos de escrita, pelo intensivo que emerge das leituras, deixam o leitor sem fôlego. No momento do primeiro encontro entre o narrador e Justine, momento em que o desejo ultrapassa a repulsa, Justine leva a mão à boca de Darley, na presença da lua e do mar, no esquecimento de todo o processo prévio dos movimentos físicos e mentais da aproximação e do flerte; e, no entanto, no parágrafo seguinte, podemos ler: É inútil tentar reviver tudo isso usando algo tão instável quanto as palavras (Durrell, 2006, p.69).
Rue Bab-el-Mandeb, rue Abu-el-Dardar, Minet-el-Bassal (ruas tornadas escorregadias por flocos de algodão que esvoaçaram dos mercados), Nouzha (o jardim de rosas, a memória de alguns beijos) ou paradas de ônibus com nomes assombrados, como Saba Pacha, Mazlum, Zizinia Baços, Schutz, Gianaclis. Uma cidade torna-se um mundo quando amamos um de seus habitantes. (Idem, p.61)
Uma cidade torna-se um mundo quando amamos um de seus habitantes. Ou amamos algo da cidade, ou amamos a cidade, ou amamos, ou urbanizamo-nos. Lembro de minhas cidades, das maneiras de habitar, de circular, de ver e falar com as pessoas. Muito além de uma fenomenologia das cidades, o que nos interessa é o encontro com a cidade ou na cidade, o que num certo sentido dá no mesmo. As cidades contêm a história, ou seus abismos, assim como comporta suas existências, suas vidas, seus modos de viver.
A cidade é a alegria do arquiteto. A cidade é individuação, singularização, hecceidade, espaço heterotópico, ao mesmo tempo trágico e alegre. Um programa como o Google Earth não apreende o que se passa nas ruas, na vida pulsante de coletivos e nas individuações. Fotografa, mapeia, visualiza. O olhar para as cidades literárias, sua construção, também faz isto, contudo vai além: cartografa modos de vida, modos de afetar e ser afetado. No devir de uma atenção clínica, o procedimento de cartografar modos de vida em uma cidade literária pode ser transposto para uma cartografia dos modos de existência na cidade.