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O possível significado paleoambiental do conteúdo micropaleontológico, em termos de fatores controladores regionais como paleoclima e NRM, só pode ser devidamente discutido após avaliada a influência de fatores locais sobre a distribuição de microfósseis. Dentre estes fatores, destacam-se duas variáveis essencialmente sedimentares, o aporte, quanto a volume, origem e constituição, e os processos deposicionais, ambos com implicações paleogeográficas, paleo-hidrodinâmicas e paleoflorísticas. Se a determinação da taxa de aporte depende da relação entre idade e espessura de cada intervalo vertical amostrado, e pressupõe assim a realização de datações, a caracterização qualitativa deste aporte passa necessariamente pelo estudo da distribuição granulométrica, seguido, em caso de detalhamento, pelo exame da composição mineralógica. Os processos deposicionais, por sua vez, materializam-se e podem ser inferidos nas fácies sedimentares, unidades sedimentares concretas e descritivas, porém desconfinadas estratigraficamente (Walker, 1976; Anderton, 1985; Giannini, 1993), delimitadas com base em mudanças de uma ou mais dentre cinco propriedades macroscópicas: geometria externa, estruturas, paleocorrentes, granulação e fósseis. As associações laterais e sucessões verticais de fácies, vistas enquanto materializações de processos deposicionais, são imprescindíveis para a compreensão do contexto e da evolução paleogeográfica local. Há que se considerar ainda que a abundância e distribuição vertical de microfósseis é passível de modificações pós- deposicionais geradas por dissolução pedogenética-eodiagenética, identificáveis através da quantificação e exame da textura superficial de minerais pesados da fração areia. Outro fator de alteração pós-deposicional é a bioturbação, que pode ser reconhecida e avaliada através do grau de obliteração de estruturas sedimentares sindeposicionais. Com base nestas considerações, propõs-se a caracterização sedimentológica das colunas verticais amostradas segundo duas etapas principais: tentativa preliminar de separação de fácies e análise granulométrica. Estas etapas encontram-se resumidas a seguir.

3.2.4.1. Delimitação de fácies

Em vista do tipo de amostragem empregado, a delimitação de fácies em laboratório com base nas características descritivas dos testemunhos de sondagem rasa atentou para três aspectos principais: estruturas sedimentares, distribuição de macrofósseis e variações maiores de granulação. A análise de fácies foi executada imediatamente após a abertura dos testemunhos, de modo a minimizar os riscos de oxidação de matéria orgânica, grãos de pólen e esporos. Para a documentação gráfica dos testemunhos, obtiveram-se imagens

fotográficas, em escalas tanto geral (intervalos de 1m) como de detalhe (intervalos de 10 a 30 cm).

3.2.4.2. Granulometria

Admitido o predomínio de depósitos lutáceos de suspensão, pobres em estruturas sedimentares aparentes, dentre os sedimentos testemunhados, a caracterização sedimentológica de fácies deposicionais e outros tipos de intervalos verticais torna-se fortemente dependente da análise de distribuição de freqüências de classes granulométricas. Em vista da necessidade de obtenção de alíquotas para análise mineralógica, a granulometria foi executada por técnicas mecânicas convencionais de pipetagem e peneiramento. Os ensaios de análise granulométrica foram realizados no Laboratório de Sedimentologia do Instituto de Geociências da USP. As amostras desagregadas, em massas iniciais de cerca de 60 g (equivalente seco), foram submetidas a pipetagem em cinco intervalos de 1,0  (escala phi de Krumbein) entre silte grosso e argila, seguida de lavagem dos finos pelíticos por elutriação e peneiramento ao vibrador mecânico em intervalos de 0,5 .

Para a realização destes ensaios, optou-se pela não secagem prévia das amostras, o que resulta em controle indireto do peso inicial. Giannini (1987, 1992) alerta para o problema na secagem prévia de amostras predominantemente argilosas-siltosas. Amostras deste tipo, quando submetidas à secagem em estufa, podem aglutinar partículas argilosas coloidais, falseando os resultados finais da análise granulométrica. Desta forma, as massas iniciais foram obtidas através do cálculo do teor de umidade de cada amostra. Para isso, pequenas alíquotas de amostras foram pesadas, colocadas em estufa a 600 C por 24 horas e pesadas novamente a fim de inferir qual a massa de água perdida durante a secagem e assim obter o teor de umidade da amostra. Obtidos os valores de teor de umidade, fez-se o cálculo para saber qual a massa suficiente para perfazer aproximadamente 60 g de amostra seca.

Algumas amostras apresentaram valores de teor de umidade superiores a 80%. Com isto, para obter-se massa inicial seca de 60g, seria necessário mais do dobro deste peso de amostra úmida. Por este motivo, algumas das análises realizaram-se com massa inicial equivalente a 30g de amostra seca, ou por vezes 10g, dependendo da quantidade de amostra disponível. Como os ensaios foram realizados sem secagem prévia, isto é, por controle indireto do peso inicial, o erro analítico admitido foi de até 10% (fator de correção dado pelo peso inicial/peso final entre 0,9 e 1,1).

Os procedimentos efetuados na análise granulométrica encontram-se sumariados a seguir:

• separação de alíquota de aproximadamente 10 g de amostra úmida para a realização do cálculo do teor de umidade;

• determinação do teor de umidade de cada amostra e separação de massa suficiente para perfazer 60, 30 ou 10 g de amostra seca, na dependência de disponibilidade de massa;

• adição de dispersante (pirofosfato de sódio tri-hidratado) e água destilada às amostras, seguida de desagregação em almofariz;

• pipetagem em proveta de 1 litro em cinco intervalos de 1,0  (escala phi de Krumbein) entre silte grosso e argila;

• lavagem dos finos pelíticos por elutriação;

• secagem em estufa do material retido na elutriação;

• peneiramento em agitador macânico em intervalos de 0,5 Ø; • pesagem das frações separadas pela pipetagem e peneiramento; • cálculo das porcentagens das frações granulométricas.

Os resultados brutos de distribuição de freqüências granulométricas foram convertidos em valores de parâmetros estatísticos (diâmetro médio, desvio-padrão, assimetria e curtose) pelo método analítico dos momentos de Pearson, através do programa