O foco central deste relatório é, como se diz desde o início, o ouvinte. É a ele que retomamos a todo o momento para reflectir sobre rádio.
esta relação e, mais especificamente, saber que atenção merece, realmente, o ouvinte. Parece evidente compreender que sem ouvintes, uma rádio não poderia sobreviver.
As estatísticas apenas dão uma leve e ténue ideia da origem dos ouvintes, bem como em que circunstâncias e locais costumam ouvir a rádio. Por isso, nunca se sabe com rigor absoluto que tipo de ouvintes normalmente acompanha as emissões. Com frequência, as rádios posicionam-se para um determinado público-alvo, e adoptam uma linguagem e uma postura, de acordo com isso mesmo.
A este propósito, Kalle Lisberg, director-geral da estação norueguesa P4, em entrevista ao Diário de Notícias8, considera que “aperfeiçoar constantemente o nosso
produto, consolidar uma estratégia de oferta e definir claramente o posicionamento da rádio e do seu público-alvo são alguns dos princípios a ter em conta”. Lisberg define,
desta forma, alguns dos pilares essenciais da actividade de uma rádio, entre eles a definição clara do público-alvo.
Uma rádio de entretenimento, por exemplo, virada para um público mais jovem, terá, certamente, uma linguagem e modus operandi completamente diferente de uma rádio de cariz essencialmente informativo. No entanto, tudo parece indicar que a TSF trabalha para um público diferente, composto por adultos e jovens adultos, estendendo-se até a pessoas de idade já avançada, nomeadamente, aposentados. Esta aferição pode, talvez, colher do próprio programa de que este relatório se ocupa, o Fórum TSF, alguma força indutiva. Na verdade, neste programa, a participação dos ouvintes revela, tendencialmente, uma grande franja de indivíduos com graus académicos elevados, não obstante a presença de outras profissões com menor exigência académica.
No fundo, e como o ex-editor do Fórum teve oportunidade de referir na entrevista que se apresenta em anexo, todos os indivíduos, não obstante o grau académico de que dispõem, valem o mesmo democraticamente, ou seja, um voto. A força de uma rádio trabalha sempre com os ouvintes no pensamento. É neste domínio que reside a força deste meio.
Convém assinalar a perspectiva do Livro de Estilo da TSF sobre os ouvintes, na sequência de todo o processo produtivo de um trabalho jornalístico:
“Não e possível escrever uma notícia sem pensar que o ouvinte pode começar
ouvir, porque lhe buzinaram num semáforo (…) ou que, mesmo estando em casa, concentrado a ouvir o relato do futebol, o telefone pode tocar no momento do golo…”
(Meneses, 2003:26)
No fundo, o jornalista terá de fazer sempre esse paralelo com a mente dos ouvintes, e o que estes poderão pensar ao ouvir determinada expressão, no prosseguimento de toda a sua actividade. O Livro de Estilo afirma mesmo que
“nenhum jornalista de rádio, por mais experiente que seja, pode esquecer que
as condições da escuta da mensagem condicionam-na fortemente (…) quando escrevemos e quando falamos na rádio, temos de pensar que há cuidados a ter em conta, muito mais quando escrevemos, porque no improviso nem sempre isso é possível.” (Meneses, 2003:26)
4.1 O ouvinte em traços gerais
Por tudo exposto, a rádio potencia concepções que não se inscrevem apenas no duplo movimento entre locução e audição, tido muitas vezes como algo estanque e sem directriz que legitima tal situação. O acto da escuta radiofónica pressupõe um ouvinte atento, com um comportamento voluntário e consciente do seu papel que o mantém vinculado a esse processo. Por tal motivo, há argumentos que estão além de determinadas prerrogativas ancoradas como fundamentais para o êxito da rádio no contexto dos meios de comunicação social, tais como: diverte, informa ou torna-se “companhia” nos momentos de solidão, além do pressuposto de que apresenta linguagem simples, objectiva, coloquial e invocativa, de tal maneira que qualquer pessoa pode ouvir rádio, mesmo sendo analfabeto.
Ouve-se rádio porque ainda é um veículo que ao longo do tempo tem possibilitado um estado de fruição compreensiva, o que denota um ouvinte activo, afectado pelos componentes estéticos e artísticos, os quais são agregados às peças radiofónicas.
Ouve-se rádio como uma fonte de informação imediata, precisa, relevante ao conhecimento de mundo do ouvinte, e por se querer estar inserido nesse mundo onde os acontecimentos pautam a vida social, sem o qual é possível se manifestar numa situação de alheamento da realidade.
Ouve-se rádio porque é um meio que atrai o ouvinte pela natureza própria de promover sentidos que perpassam pelo prazer, identificação, bem como engloba também a estética da recepção. E como é da essência humana gostar de sentir
pela qual demovemos a ideia de que as novas tecnologias ou a era digital podem comprometer a sua existência no campo da comunicação mediática.
A propósito, Cunha (citado por Moreira e Bianco, 2001:01) destaca: “o valor de
permanência da rádio no horizonte actual e futuro próximo segue baseado na sua capacidade de suscitar efeitos junto à recepção e no seu poder de mobilização”.
Entende-se, por fim, que o ouvinte de rádio é um sujeito histórico, socialmente constituído pelo seu ambiente cultural e identificado, é selectivo e consciente do seu estar no mundo que o circunda e revela clareza na sua opção pela audição. É esse o ouvinte que diariamente reconfigura a sua experiência estética, ampliando os seus horizontes de expectativas e, por extensão, reunindo um repertório de informações que o torna mais sensível à produção radiofónica, com maior produção de sentidos.