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In document Opinionslederskap (sider 35-45)

A Classe 3, culpabilização da vítima e banalização da violência, foi composta por palavras e radicais no intervalo entre χ2 = 92 (pessoa) e χ2 = 15 (rir), identificadas principalmente na fala dos estudantes do sexo feminino e dos alunos não satisfeitos com o corpo. Pode-se observar o agrupamento de palavras que denotam duas subclasses: a primeira pode ser denominada de “culpabilização da vítima”; a segunda trata da

“banalização da violência”.

Sobre a subclasse que trata da culpabilização da vítima, eis os recortes elucidativos:

(...) acho que é por destino, vê que a pessoa é frágil, tímida aí eles atacam mesmo, quando a pessoa não é tímida, que tem atitude, eles não vão, agora uma

85 pessoa tímida que não sabe se defender (...). (feminino, negra, 17 anos, não satisfeita com o corpo, vítima-agressor)

Acontece, mas depende da pessoa. Não sei, elas se sentem fragilizadas, acho que é uma pessoa frágil, não consegue conviver com o defeito com a doença, fica frágil, a pessoa, emocionalmente (...) (masculino, pardo, 16 anos, não satisfeito com o corpo, vítima-agressor).

Pelo fato da pessoa ser homossexual eles começam a tratar a pessoa como se não fosse pessoa, como se a pessoa fosse um animal diferente, fosse um bicho. (feminino, branca, 16 anos, não satisfeito com o corpo, vítima-agressora).

(...) outras pessoas ficam chamando, outras ficam rindo, até eu mesma às vezes não aguento e começo a rir também, até ele mesmo rir, (...) mas a sala toda rir, não para de ficar chamando também. (feminino, preta, 14 anos, não satisfeita com o corpo, agressora).

A segunda subclasse trata da “banalização da violência”, conforme as temáticas exemplificadas a seguir:

Esse negócio de magro, gordo, negro, a gente leva tudo na esportiva, tudo na brincadeira ei, “chega aí negão”, leva tudo na brincadeira, que eu entendo aqui não tem não essas coisas, eu acho. (masculino, pardo, 16 anos, não satisfeito com o corpo, vítima-agressor).

86 (...) diziam que era brincadeira de criança, como não era brincadeira com eles, nem com os filhos deles eles diziam que era brincadeira de criança, mas isso magoava, eram apelidos (...) (feminino, parda, 17 anos, não satisfeita com o corpo, vítima-agressora).

Eu acho isso humano, bem humano, não vejo com uma coisa absurda, eu acho bem natural, aliás, querer excluir as outras pessoas (...) (feminino, branca, 18 anos, satisfeita com o corpo, vítima-agressora).

Esta classe demonstra a ancoragem do bullying na culpabilização da vítima, com

a objetivação em palavras como “pessoa” e “tipo” assim como outras palavras

significativas. As características da pessoa seriam determinantes para o mau-trato, ou seja, reduz-se a causa ao perfil da própria vítima. Constatou-se ainda a ancoragem na naturalização da violência, onde o bullying é objetivado como uma “brincadeira”,

embora de mau gosto, por parte do agressor.

Vaillancourt et al. (2008) ao analisar como estudantes definiam o bullying

encontrou resultados semelhantes ao do presente trabalho. Segundo os autores, boa parte dos alunos, especialmente as meninas, realçam características de personalidade da vítima em suas definições para este tipo de agressão. Os achados aqui expostos são corroborados ainda por Thornberg (2010) que encontrou “reação ao diferente” como a representação social mais evocada por alunos para a causa do bullying. O bullying

enquanto “brincadeira”, forma de divertimento dos agressores, também comparece dentre as representações sociais utilizadas pelos estudantes investigados por este autor.

Observou-se que os estudantes construíram sua própria teoria do senso comum, enquanto grupo de pertença, na qual utilizaram a representação social do bullying como

87 brincadeira do agressor que tem como alvo determinado tipo de pessoas, consideradas frágeis e que por serem incapazes de reagir continuariam como alvos.

Foram observadas falas que apontam que ser alvo de bullying é “culpa” da

própria vítima que não sabe lidar com sua fragilidade ou ainda como obra do destino. Este processo de desengajamento moral pressupõe que se considerem socialmente aceitáveis práticas prejudiciais, representando-as como algo que tem propósitos válidos, assim, desumanizam e culpam as vítimas por terem atraído os maus-tratos para si mesmas (Bandura, Azzi & Polydoro, 2008; Barnes & Leavitt, 2010). A desumanização das vítimas também pode ser vista em uma perspectiva intergrupal, como têm apontado estudos acerca da percepção social dos homossexuais, o que também foi apontado em uma das falas ilustrativas anteriormente, onde a garota por ser homossexual, percebe

que o tratamento dirigido a ela equivale a forma como se percebe um “bicho diferente”, “um animal” (Santos, Lima, & Mendonça, 2009).

Os estudantes constroem sua própria teoria social prática que passa a orientar suas comunicações e condutas. Assim, especialmente as meninas não satisfeitas com o corpo, associam às situações de bullying, estratégias ligadas à agressão relacional, através de brincadeiras, chacotas que evocam risos.

Percebe-se aqui a proximidade entre as classes 1 e 3, apontada no dendrograma. O bullying faz-se valer do preconceito, expresso em suas formas mais em que os estudantes considerados diferentes, fora do padrão, são alvo de brincadeiras que são minimizadas por quem as pratica sutis (Lima & Vala, 2004; Pereira, 2004; Pereira et al., 2003). As representações sociais do bullying comparecem, portanto, enquanto preconceito, permeadas pela banalização da violência e culpabilização da vítima.

Os alvos do bullying têm ressaltadas características “desviantes” a partir das quais passam a serem tratados nas relações intergrupais. No contexto escolar em que a

88 popularidade é valorizada, crianças tímidas são hostilizadas, especialmente por aqueles que querem destacar-se enquanto os “donos do pedaço”. Espaços que valorizam o padrão normativo da heterossexualidade tendem a diferenciar e discriminar os alunos homossexuais. É grande a lista de comportamentos ou situações socialmente desvalorizadas no âmbito escolar, e em outros mais amplos, que podem gerar relações intergrupais permeadas pelo preconceito. Reafirma-se a importância de considerar-se o

bullying também a partir da perspectiva intergrupal, em que atuam categorizações sociais das quais resultam o preconceito, expresso a partir de suas sutilizas que banalizam a violência e culpabilizam a vítima.

In document Opinionslederskap (sider 35-45)