O Novo Testamento narra Jesus curando paralíticos. Os evangelistas sinóticos apre- sentam com detalhes as curas nas seguintes passagens: Mt 9,1-8; Mc 2,1-12; Lc 5,17-23. Em outros textos, embora a narrativa não mostre particularidades, faz-se referência a milagres em paralíticos (cf. Mt 15,30; 11,5; 21,14). Curar os paralíticos era também um sinal messiânico (cf. Is 35,6). Nos milagres de Jesus não se descreve qual era a gravidade da paralisia dos cu- rados, os doentes foram apenas foram apresentados a Jesus e ele os curou, ora pela palavra ora pelo toque. Todos depois de curados colocavam seus pés no chão e retomavam sozinhos pelo caminho.
De acordo com as narrativas do Gênesis o homem foi tirado da terra (cf. Gn 2,7) e nela foi colocado pelo Criador para poder viver (cf. Gn 2,15). A terra firme sustenta o ho- mem, pode se dizer que é o local onde, de certa forma, ele foi como uma erva plantado por Deus. Plantado no sentido de ligação com essa realidade material, pois o homem necessita da terra para sobreviver, nenhum outro ambiente possibilita a vida humana se o elemento terra for ausente.
Os pés são os responsáveis para o homem fazer o contato direto com a terra. Embora seu contato primeiro com a terra, quando criança, não se dá com os pés, sabe-se de sua natu- reza bípede e ereta. Portanto, os pés são os membros por excelência do contato humano com o solo.
O termo regel designa pé no Antigo Testamento e há 250 ocorrências dele. A maior frequência de uso se dá para definir os membros inferiores dos humanos, embora também seja usado para falar dos pés de animais e, metaforicamente dos pés de Deus54. Vale a pena ressal- tar que “a língua hebraica não faz distinção entre pé e perna; de acordo com o contexto, regel pode significar ou um ou outro”55. No Novo Testamento há 136 ocorrências do termo pé e o seu plural (pés), e todas se referem ao membro humano.
Para o povo do Antigo Testamento os pés eram vistos a partir da dimensão fisiológi- ca, isto é, membros servidos para o homem ficar na posição ereta e andar. Dentro desta ótica “a paralisia ou fragilidade na velhice prejudicam essa capacidade, que diferencia fundamen- talmente os vivos dos mortos”56.
O conjunto pés e pernas dentro do Antigo Testamento representariam os seguintes sinais: vida na pessoa (cf. Ez 37,10); vitória e dominação57 (cf. Sl 58,11-12; 18,37-39; 110,1); ponto de fragilidade (cf. Dn 3,32-35); liberdade (cf. Ex 3,5 58; Is 5,7); posse (cf. Js 14,9; Gn,
54 HAMILTON, Victor P. Regel. In: VANGEMEREN. NDITEAT. v. 3. p. 1044-1046. 55 SCHROER; STAUBLI. O simbolismo do corpo... p. 232.
56 Ib.
57 Essa ideia de vitória e dominação sem dúvida foi um elemento que Israel herdou das várias culturas que o influenciaram. Há descobertas arqueológicas que revelam a mentalidade de calcar os inimigos sob os pés. al- guns exemplos são a inscrição pré-babilônica em que o Anubanini, rei de Luluber, está armado pisando um ini- migo; nas sandálias de Tutancâmon estava o desenho de seus inimigos em posição de prisioneiros; a pintura egípcia da tumba de Kenamon que mostra Amenófis II pisando sobre os inimigos atados sobre uma corda. E há muitas outras descobertas de mundo antigo que revelam tal mentalidade.
58 Liberdade, pois foi no encontro de Moisés com Deus que se iniciou a ação libertadora do Êxodo. Caso se queria, poderia isso a partir da ideia de que um homem escravo não está de pé, mas rastejando e sem sinal de vida. Num ambiente desse Deus não estaria presente, pois ele é “um Deus de vivos e não de mortos” (Mt 22,31).
13,17) e base de sustentação (cf. Ct 5,15). No Novo Testamento essa forma de ver os pés e pernas permaneceu. Primeiramente, pode ser vista a partir de Jesus, pois os evangelistas fize- ram várias referências aos seus pés. Neles as pessoas se prostravam (cf. Lc 5,8; 8,28); perto deles se sentavam (cf. Lc 10,39); uma pecadora os lava, enxuga com os cabelos, beija e per- fuma (cf. Lc 7,38); seus pés são feridos na crucificação (cf. Lc 23,33); após a ressurreição as mulheres que o tinham acompanhado na vida pública abraçaram seus pés (cf. Mt 28,9). Da mesma forma, há também, o episódio mais famoso referente aos pés no evangelho joanino, o Lava-pés (cf. Jo 13,1-15).
Nas atitudes das pessoas se lançarem aos pés de Jesus, está fortemente manifestada, a intencionalidade dos evangelistas em apresentá-lo como Deus, ou seja, na pessoa de Jesus de Nazaré está latente a divindade, esse elemento foi sendo paulatinamente revelado e tornado plenamente manifesto no momento da cruz e ressurreição.
Os textos referentes aos milagres de cura em paralíticos carregam toda essa dimensão simbólica. Jesus como Deus presente entre os homens, veio para restituir e dar ao homem a plenitude do seu ser. Uma pessoa ferida pela paralisia está impossibilitada de caminhar, logo, por si já está limitada a condição de derrotada. É pessoa escrava, pois fica aprisionada em uma cama e sem liberdade dependente de outros para locomoção. Dada sua condição estática não tem como administrar seu corpo e muito menos seus bens, logo seus direitos são renega- dos e tirados mal podendo a pessoa se sustentar.
Dar aos paralíticos o movimento das pernas significa devolver a dignidade de pessoa, homem completo, pleno no corpo e na alma. Em termos de ética da corporeidade e teologia do corpo, está atitude de Jesus, revela a vontade de Deus em querer a vitalidade com qualida- de e liberdade para o homem. Deus não o quis doente e vivendo em situação limítrofe. Um corpo ferido, não podendo se locomover, não se limita no físico doente, é uma pessoa em si- nal de degradação, ferida no seu ser. Em contrapartida o ficar de pé e poder se movimentar independentemente representa sinal da vitória e de autodomínio. Isso não só no sentido terre- no, mas também no eterno, no dia da consumação de todas as coisas em Cristo. O texto do Apocalipse diz que os assinalados vitoriosos conservavam-se em pé diante do trono e diante do cordeiro (cf. Ap 7,9).
Evidentemente que essa linguagem tem cunho teológico, contudo, há de ser ter cons- ciência das limitações impostas aos homens, quando atingido pela paralisia, e isso, não faz parte do plano de Deus, pois fere a integralidade da pessoa. O mesmo Senhor libertador do homem nos tempos de sua vida terrena é o mesmo Senhor que acolherá os libertados nas rea- lidades escatológicas.