F: Når du tenker på det du snakker om nå. Var det spesielt på barneskolen eller på ungdomsskolen?
5 PRESENTASJON AV FUNN OG DRØFTING
Natural de Monte Carmelo, Iraílda tem 55 anos, adoeceu de hanseníase e ficou isolada dos quatro aos nove anos de idade. Atualmente, é dona de casa, pensionista, viúva, mãe de três filhos, criou mais quatro sobrinhos após a morte da irmã. Sua trajetória de vida também nos apresenta indícios de resistência e alternativas criadas por sua família para lidar com a doença.
Iraílda foi diagnosticada e isolada pouco tempo depois do isolamento compulsório de seu pai, no fim dos anos 1960, em função da mesma doença. Mas sua mãe fugiu com ela da “colônia”, pois preferiu tratá-la em casa, no período compreendido entre 1971-1979, sendo tratada com “medicamentos alternativos”, o que provocou sérias sequelas, em decorrência de um tratamento “convencional” tardio, que só aconteceu de fato em 1980/1981.
Recentemente, Iraílda iniciou-se na escrita de poesias, que são publicadas em um blog na internet. Tais composições expressam dores, alegrias, angústias, perdas e superação, que estão frequentemente associadas à história da sua doença. No início de seu blog, Iraílda sinaliza que, posteriormente, prestará maiores informações sobre sua história de vida e sua motivação para escrever:
Como prometido no perfil exponho aqui um pouco de minha história: Imaginem uma criança que aos três anos de idade foi tirada do seio de sua família e levada compulsoriamente para um hospital colônia por estar infectada pelo bacilo da hanseníase.
E lá, depois que a porta se fechou viu parte da sua infância ceifada pelos maus tratos, o abandono e a saudade dos seus e por medo de represálias sufocou no peito uma dor que ao longo dos anos tomou grandes proporções e como se não bastasse ainda criança e com o sonho de se tornar professora foi impedida de estudar para não colocar em risco as pessoas visivelmente saudáveis e nesse processo sentiu na pele o tão temido bullying.
Mas hoje com ajuda psicológica e o apoio dos amigos e alguns familiares foi possível transformar essa dor em poesias que retratam parte de tudo que eu senti e não vivi.
E por ironia esta criança sou eu, hoje aos 55 anos e em plena fase de superação agradeço imensamente as pessoas que me impulsionaram para a criação deste blog que eu espero proporcionar momentos de agradável entretenimento aos leitores internautas. (IRAILDA, 55 anos, 2010).
Iraílda foi incentivada pela psicóloga do CREDESH, ambulatório onde é atendida, a voltar a escrever, como parte de seu processo terapêutico. Desde 2011, tem escrito e publicado, em seu blog, poesias com temas diversos, que em sua maioria expressam suas angústias e frustrações causadas pela experiência do adoecimento, do isolamento e do tratamento tardio.
Entre diversas publicações com temas bastante variados, selecionei as poesias: “A Porta”, “Prisão”, “Por não me aceitar”, “Senti e não vivi” e “Medo”, que, para mim, foram os textos nos quais mais encontrei vestígios da sua história de vida associada à doença:
A PORTA
Da porta eu vejo a porta. A última no corredor da morte. Só passa por ela e volta, Se for provido de muita sorte.
Os meus olhos já não desgrudam, Daquela porta fechada.
E o desespero já faz parte, Da minha cara amarrada.
E o medo do desconhecido, Mostra o seu rosto sombrio. Enquanto no peito sufoco, Um grito que causa arrepio.
E aquela porta se abre, Feito boca de leão faminto, Espreitando a sua presa, Atordoada em um labirinto.
É certo que do outro lado, Há sofrimento lágrimas e dor. Tem vidas se organizando, Independentemente de raça e cor.
O meu destino foi selado, Quando a boca do leão se abriu. Um fio de esperança que havia, Dentro de mim se partiu.
Quem sabe eu sou um desses, Provido de muita sorte. Suportarei aos sofrimentos, E driblarei a própria morte.
Depois de anos a porta vai se abrir, E o meu destino e a liberdade, Que até então era desconhecida, Tal e qual é a felicidade.
Iraílda foi internada muito pequena, em plena infância. Certamente não era fácil para uma criança entender o que de fato ocorria naquele ambiente. Mas, certamente, era possível para ela perceber a própria tristeza e o sofrimento dos que com ela conviviam:
Dos 03 aos 09 anos eu fiquei na colônia de Bambuí, colônia São Francisco. O que eu lembro de lá é só coisa triste. Só grito, choro. [...] Meu pai. Meu pai foi primeiro que eu. Assim que ele chegou lá eles buscaram minha mãe, eu e meus irmãos. Só que os meus irmãos não ficaram lá na colônia. [...]. Eu lembro da minha mãe lá, mas eu num sei se ela ia me visitar ou se ela tava lá [...] depois que meu pai morreu ... minha mãe me tirou de lá. [...] eu acho que eu tinha de 8 pra 9 anos. (IRAILDA, 53 anos, 2010).
Aí a gente fugiu pra [...] foi fugido, foi fugido. [...] eu não sei. Eu não lembro. Eu queria tanto lembrar. Eu num sei, eu sei que eu dormia muito. Eu lembro que a minha mãe chegou lá, ela levou biscoito doce pra mim. A gente estava atravessando um corredor, minha mãe conversou com alguém que tava lavando o chão. Essa pessoa levou a gente pra um lugar onde tinha um monte de entulho, móveis velhos e daí a gente saiu e a gente ficou correndo por uns lugares que [...] eu só lembro que tinha muito eucalipto. E a gente andou de trem e depois eu só lembro em Monte Carmelo [...] e chegando aqui eu adoeci de vez. Eu perdi as forças das pernas, deu tipo uma crosta do pescoço pra cabeça. Deu uma bolha, as bolha estourou e grudou casca com casca. Cobriu tudo. Aí minha mãe lavava roupa pra fora e minha mãe me trancava em casa, me trancava no quarto. Aí eu fiquei de 1971 até 1979 trancada. Ela tratava de mim com curandeiro. Eu tomei querosene, garrafada com querosene, eu tomei criolina, essa coisa de lavar esgoto. Aí acabou meus dente tudo. Daí eu fui adoecendo cada vez mais. Tive hepatite quatro vezes. Me trancava em casa num podia sair pra nada. Num estudava. Tudo que eu aprendi foi lendo revista e livro que a minha mãe trazia do serviço. E lia e ouvia radio. Tinha um radinho de pilha. Tudo que aprendi foi através disso daí. (IRAILDA, 53 anos, 2010).
O poema “A PORTA” me remeteu ao trecho da entrevista citado acima, onde ela narra ter ouvido “sons aterrorizantes”, a mudança e separação da família, a morte do pai, o período em que esteve no isolamento sem sua família, o longo período do qual ela não se lembra o que acontecia na colônia, e a fuga promovida por sua mãe.
Se para as pessoas que foram internadas na adolescência ou na idade adulta a situação provocava insegurança, saudade, medo e outras sensações que os fragilizavam, para uma criança todo esse universo deveria assumir proporções ainda maiores e até fantasiosas.
Os versos “O meu destino foi selado, quanto a boca do leão se abriu” nos fala desses medos e angústias e uma sensação de que não sobreviveria à um ambiente tão inóspito, que teria o mesmo destino de seu pai, a morte. No entanto, mesmo após sua fuga, ao lado de sua mãe, ela não pode viver em liberdade durante vários outros anos.
Este poderia ter sido um assunto conversado e melhor esclarecido entre Iraílda e sua mãe, mas o assunto foi silenciado dentro da própria família. Silêncio que pode ter ocorrido por medo de terem reforçado a condição de uma família marcada pela lepra ou pelo fato de a mãe de Iraílda ter cometido uma ação ilegal ao retirá-la do Asilo sem autorização.
Ela ainda relata que gostaria muito de se lembrar do que está apagado ou escondido em sua memória. Essa falta de lembrança pode atuar como uma estratégia de contenção, pelos meios de controle de frustração, fracasso, perda ou dor, causado pela brusca separação da família, ou mesmo pela pouca idade (THOMSON, 2000).
Apesar de ter adoecido ainda na infância, Iraílda relata fatos registrados em sua memória sobre tratamento com “curandeiros”, condição que era reservada aos que “ocultamente” se recusavam a viver no isolamento das colônias. A mesma não permaneceu internada em Asilo-Colônia, mas permaneceu isolada em sua própria casa, entrando em contato com o “mundo lá fora”, somente por intermédio de rádio e revistas, posteriormente também pela televisão.
PRISÃO
As janelas com grades, São tristes as lembranças, Da vida sem vida, De uma criança.
Onde estão meus amigos, E também meus irmãos. Que saudade eu sinto, Do toque das mãos. De recostar ao seu peito, E ouvir seu coração.
O que ouço são gemidos, Alegria aqui não tem. Ao longe escuto um barulho, É o apito estridente do trem.
Que já vem lá na curva, E quando passa além do muro, Todos ouvem e ninguém vê. Porque aqui é uma prisão, Que nos rouba a liberdade, E a vontade de viver.
Acredito que na poesia “PRISÃO”, Iraílda manifeste seus sentimentos da época do isolamento, bem como sua percepção do lugar. A privação da liberdade, novamente a separação da família, a falta do aconchego do colo da mãe, viver entre “desconhecidos”.
Pelo que ela narra durante a entrevista e escreve em seus poemas parece que não havia maior interação entre a mesma e outras crianças ou adulto com quem tivesse estabelecido relação de amizade ou confiança.
Ao contrário do relato de Altina e Nilva que, mesmo no isolamento, conseguiam momentos de interação e descontração. O barulho do trem parecia deixar claro que mesmo que ela soubesse o que acontecia do lado de fora da colônia, não poderia ver ou ter maior contato, evidenciando para a mesma sua condição de “prisioneira”.