Falar do Professor Sucupira é algo bastante complexo e difícil, pois tendo sido ele um homem de características e personalidade tão marcantes se torna inviável captar toda a riqueza de suas ações.
Conheci o Professor sucupira no início dos anos 80, na Faculdade de Educação da UFRJ. Era ele Coordenador do Curso de Doutorado. Fui sua aluna em duas disciplinas, uma delas Filosofia da Educação e tive a honra de tê-lo como presidente de minha banca examinadora, ao concluir o curso.
Em 1985 tornei-me sua vizinha, ao comprar um apartamento no mesmo prédio em que ele morava. Ele no 201 e eu, como sua aluna, só podia caber no 101.
Em duas circunstâncias são o norte de minhas breves palavras. Em primeiro lugar quero dar destaques ao ser humano que habitava a personalidade do Professor e, em seguida, falar do vizinho, o cidadão Sucupira, que tanto contribuiu para a construção de uma sólida estrutura condominial.
O Professor, sempre bem vestido, com seus elegantes ternos, já impunha respeito pelo traje. Este respeito, no entanto, no convívio da sala de aula, logo crescia, indo muito além de sua postura ativa. Conhecedor profundo dos temas que marcava para debates, deixava sempre os alunos atônitos. Muitas vezes os nossos olhares, os olhares dos alunos, se entrecruzavam querendo dizer: “estamos por fora! É preciso estudar muito para chegar lá”. Mais o conhecimento do Professor em nenhuma situação foi usado para humilhar os alunos, os aprendizes de feiticeiro, com suas enormes lacunas. Alguns, com medo de receber uma pergunta para a qual não teriam nem esboço de resposta, presentavam temas, indagações ou considerações para distrair o Professor e formar o complô com a turma, criando novas questões passíveis de serem discutidas pelos discentes, obviamente de forma superficial. O Professor não se alterava; dava voz aos aprendizes e pacientemente confirmava o “estamos por fora”.
VIII Lucia Vilarinho,João Eduardo Oliveira eMaria Judith Sucupira C. Lins
Como aluna do Professor, o que mais me cativou foi a sua clara compreensão de que um doutorando necessita fundamentalmente de duas atividades: muito estudo e participação em debates críticos, de modo a se desenvolver uma argumentação consistente com tomada de posições. Para isto oferecia uma vasta lista de referências bibliográficas e, mais , abria aos alunos a sua biblioteca particular. Assim, sem desprendimento emprestava seus livros.
Na indicação das obras sempre fez referências positivas aos autores, ainda que alguns deles tivessem posições diametralmente opostas às suas. Nunca vi o Professor, o longo dos quatros anos do meu curso, destilar um veneno, por menor que fosse, a respeito de algum autor conhecido no cenário da educação nacional. Sendo que a reciproca não foi verdadeira, o que não me admirava, pois, nulidades invejosas sempre passeiam nos espaços educacionais.
Outra faceta que muito me impressionou neste homem tido por muitos como sisudo, fechado e até mesmo arrogante, foi a sua capacidade de escutar os alunos com seus problemas. Quantos de nós tivemos de procurá-lo para falar de alguma dificuldade e ele parava tudo e escutava, buscando ajudar. Nunca tive qualquer problema quando fui conversar com o Professor, mesmo antes de ser sua vizinha. A disponibilidade do Professor me levava a pensar que, no fundo, “a tal da arrogância” era mesmo um pouco de timidez, pois jamais se apresentou como dono da verdade e nunca vi qualquer atitude exibicionista do seu conhecimento.
Na Coordenação do Doutorado se esmerou em trazer professores renomados para darem aula. Trouxe professores da UNB, do IUPERJ e de outras unidades da UERJ, com intuito de oferecer o conhecimento novo. No meu caso, posso que o Doutorado revolucionou a minha cabeça. Foi ali que ultrapassei a dimensão técnica, marcantemente cartesiana, consolidada na graduação e no mestrado. Com os meus grandes professores do Doutorado passei a ver a realidade de forma multidimensional e em uma perspectiva dialética. Sem sombra de dúvida, o Professor sucupira articulou um curso que permitiu o vôo de seus alunos. Tenho muito orgulho de ter feito o Doutorado coordenado por ele.
Não poderia deixar de registrar que este grande professor teve a sensibilidade de conhecer, em inúmeras situações, a importância de sua esposa, a querida D. Odete, que garantiu a tranquilidade de seus estudos para que ele se tornasse esta personalidade nacionalmente conhecida. Ele sempre dizia que lá no Recife passava as manhãs estudando
SEMINÁRIO
OS 50 ANOS DA PÓS-GRADUAÇÃO NO BRASIL XXXIX
para trabalhar a tarde e a noite e quem cuidava dos nove meninos era D. Odete. O entrosamento do Professor com sua esposa se reflete na união dos filhos, o que pude ver de perto nas comemorações dos 40 e 50 anos de casamento.
Por fim, quero destacar o cidadão Sucupira que, durante muitos anos, presidia as reuniões do meu prédio, tendo sido o responsável pela organização, aprovação e cumprimento da sua Convenção, no final da década de 70. Sempre foi muito respeitado e suas opiniões abalizadas acatadas, de sorte que, até hoje, o prédio desfruta de uma boa organização e saudável convivência entre seus moradores. A sua participação na vida do prédio evidencia que ele não era apenas o Professor, mais um homem ocupado com suas coisas simples do cotidiano. A harmonia que existe no meu local de moradia ainda me leva a sentir mais saudades do Professor Sucupira.
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