3. DATAKILDER OG PRESENTASJON AV DATA
3.1 T AKSTNIVÅ OG TAKSTUTVIKLING
3.1.3 Presentasjon av takstutviklingen
consiste em nos espantar com aquilo que nos é mais familiar (aquilo que vivemos cotidianamente na sociedade em que nascemos) e tornar mais familiar àquilo que nos parecia inicialmente estranho e estrangeiro (os comportamentos, as crenças, os costumes das sociedades que não são as nossas, mas nas quais poderíamos ter nascido) (LAPLANTINE, 2004, p. 15). Ele sintetiza, mais adiante: ―Construímos o que olhamos à medida que o que olhamos nos constitui, nos afeta e acaba por nos transformar‖ (Ibid., p. 21, grifos meus). Há, assim, além de uma coincidência da valorização do sentir de Laplantine e da UDV, também a da valorização da transformação.
Esse autor destaca para a realização de uma etnografia a importância de se desenvolver ―a capacidade de olhar bem e de olhar tudo, distinguindo e discernindo‖ o que se observa e isso ―supõe uma aprendizagem (...) em ficar atento, mas também e, sobretudo em ficar desatento, a se deixar abordar pelo inesperado e pelo imprevisto‖ (Ibid., p. 18, grifos meus). Ele explicita que
o conhecimento dos seres humanos não pode ser observado à maneira de um botânico examinando uma folha ou de um zoólogo analisando um crustáceo, mas sim comunicando com eles e partilhando seus modos de vida de forma duradoura (...). O etnógrafo deve ser capaz de viver no seu íntimo a tendência principal da cultura que está estudando. Se, por exemplo, a cultura tem preocupações religiosas, ele deve rezar com seus hóspedes (Ibid., p. 22). Portanto, ―a etnografia é antes de tudo uma experiência física de imersão total‖ e o etnógrafo deve interiorizar a instituição estudada ―através das significações que os próprios
indivíduos atribuem a seus próprios comportamentos. É esta apreensão da sociedade, tal
como ela é apreendida do interior pelos próprios atores sociais com os quais mantenho uma relação direta‖ (Ibid., p. 23, grifos meus). Essa ―construção daquilo a que Marcel Mauss chamou o ‗fenômeno social total‘ (...) supõe a integração do observador no próprio campo
da observação‖ e é por isso que ―Não existe etnografia sem confiança mútua e sem intercâmbio, o que subentende um, itinerário durante o qual os parceiros em ação conseguem
se convencer reciprocamente a não deixar perder formas de pensar e atividades únicas‖ (Ibid., p. 24, grifos meus).
E, ―Jeanne Fravret-Saada mostra que ela começou verdadeiramente a observar a feitiçaria a partir do momento em que ela mesma se encontrou sendo ‗objeto de feitiços‘‖ (Ibid., p. 25). De forma distinta, mas também semelhante a essa antropóloga, que me
encontrei em meu campo de pesquisa: distinta porque em meu caso, no lugar da feitiçaria52 está a ―burracheira‖, mas, de forma semelhante a ela, me encontro fazendo parte do meu
campo de estudo.
2.2 Métodos de pesquisa (com minha inserção no campo)
Realizei uma etnografia a respeito da UDV, mais especificamente onde sou sócio, o Pré-Núcleo Menino Deus (e das atividades e artefatos realizados e/ou utilizados pelos frequentadores), situado na cidade de Manaus, na 2ª Região. Registrei, em diários de campo, as observações que fiz, utilizando, ainda, entrevistas e consultas autorizadas a documentos oficiais do CEBUDV e exame de materiais elaborados por seus membros no intuito de entender os sentidos das transformações pessoais nos ensinos da UDV.
Segundo Carvalho e Augras (2005), por meio da observação participante, o pesquisador propõe-se por um período de tempo a interagir com o grupo, abrindo mão da pretensão da neutralidade, sem, no entanto, perder de vista seus objetivos enquanto estudioso. E, de acordo com Spink,
A participação, como é definida, rompe com os preceitos da ―epistemologia da distância‖ que tudo faz para preservar a neutralidade do observador. Exige, em seu lugar, uma atitude de empatia que Montero descreve como ―olhar horizontal que se reflete no olhar do outro‖ (2006, p. 206). Rompe, assim, com a ilusão da possibilidade do registro neutro (SPINK, 2007, p. 11, grifo meu).
Ou, como diz Norman K. Denzin, ―Hoje nós entendemos que escrevemos a cultura e que essa escrita não é uma prática ingênua‖ (DENZIN, 2001, p. 23)53
. Assim, entendo que não existe neutralidade na atividade humana, pois somos parte de um momento histórico- sócio-cultural de certo lugar. E nesse sentido, percebo que, principalmente no método da observação participante, a empatia é uma atitude importante há muito empregada por psicólogos em intervenção e pesquisa para evitar uma perspectiva etnocêntrica.
52
Pode ser interessante pesquisar a respeito das semelhanças e diferenças de quem se encontra sob os efeitos da feitiçaria e da burracheira, mas não é o objetivo de minha pesquisa.
Esse método permite ao pesquisador das ciências humanas estudar algo que vive e pulsa e é capaz de fornecer não apenas sofisticação teórica, mas também a riqueza da
vivência direta com pessoas provenientes de diversas realidades (CARVALHO; AUGRAS,
2005).
Pela minha formação científica e prática enquanto psicólogo clínico, sempre me coloquei na perspectiva de investigador (o que permite certo distanciamento), mas com o objetivo de compreender (e daí a importância da empatia) e auxiliar a pessoa a se compreender e a se transformar no sentido de seu desenvolvimento (e autonomia no sentido freireano). Além disso, na UDV sempre se incentiva ―que se examine o que é dito‖, ―que não se aceite sem exame, pois do contrário seria fanatismo‖54.
Até o início do doutorado (outubro de 2006) eu era apenas discípulo da UDV; a partir daí, passei a ser também pesquisador da instituição a que pertencia, e isso ocasionou uma mudança de perspectiva do meu olhar: busquei observar o que me era familiar com um olhar de estranhamento, como se estivesse vendo algo pela primeira vez. Eu me perguntava: ―o que eu veria, observaria e sentiria, se estivesse vivenciando isto pela primeira vez?‖ Ou seja, a mudança de perspectiva aguçou mais um olhar que já existia antes; e, é claro, a bibliografia estudada induziu um maior aprimoramento do olhar.
Segundo Catherine A. Lutz (1988), as relações interpessoais que são estabelecidas entre o pesquisador e aqueles que ele quer conhecer são o mais central para o processo de
entendimento cultural55. E a aquisição de habilidades de linguagem é o primeiro e mais
significativo modo de acesso ao conhecimento etnopsicológico56.
Nesse sentido, vejo como vantagem neste trabalho que eu enquanto pesquisador faça parte da instituição pesquisada, mesmo tendo vindo de fora57, pois tenho elos de amizade (boas relações interpessoais) com as pessoas da instituição e conheço bem sua linguagem. Somem-se a isso outros aspectos importantes que explicito a seguir.
53
Tradução minha de "Today we understand that we write culture, and that writing is not an innocent practice" (DENZIN, 2001, p. 23).
54Explicito a esse respeito no item ―4.1 Livre arbítrio‖.
55 ―There is nothing more central to the process of cultural understanding than the interpersonal relationships that
are established between the anthropologist and those she visits‖ (LUTZ, 1988, p. 31, grifos meus).
56 ―The ethnographer‘s acquisition of language skills is the first and most significant way that access to local
ethnopsychological knowledge is obtained‖ (LUTZ, 1988, p. 31, grifos meus).
57
Em 2004 falei com o Mestre Central (MC) da 2ª Região58 da UDV a respeito de um Projeto de Extensão na UFAM, que eu estava elaborando e ele autorizou o seu desenvolvimento. Coordenei o projeto que teve a duração de um ano e mais outro até 2006 (com estágios que supervisionei em núcleos da UDV, onde se realizaram Levantamentos de Necessidades dos Sócios e trabalhos de Orientação Vocacional, além de uma Oficina de Capacitação de Desenvolvimento Organizacional, entre outros).
Em 2006, procurei um Mestre (membro do Conselho da Recordação dos Ensinos do Mestre Gabriel – que na época era Mestre Assistente Geral e atualmente é Mestre Representante59 do Pré-Núcleo Menino Deus, do qual faço parte) e falei da pesquisa que eu estava querendo realizar no CEBUDV. Esse Mestre do CREMG acolheu bem, como sempre acolhia minhas ideias, perguntando como seria a pesquisa e me incentivando a realizá-la.
Além desse aspecto, uma pesquisa do antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, embora seja a respeito do Candomblé60 e não de grupos hoasqueiros, possui uma perspectiva importante metodologicamente, pois apresenta uma semelhança com a minha pesquisa: o lugar do pesquisador enquanto participante da instituição pesquisada. Segundo ele, mesmo que ―as lições de metodologia nos orientem a coletar depoimentos representativos do maior número possível dos segmentos sociais que compõem as sociedades ou grupos observados, (...). A experiência mostra que o próprio campo condiciona o que observar e a quem‖ (SILVA, 2006, p. 39, grifos meus).
Percebi em minha pesquisa esse condicionamento do próprio campo a respeito de ―o que observar e a quem‖. Há casos em que pessoas com quem tive contato (e que inicialmente eu não havia percebido como reveladores de dados importantes), em contatos informais, revelaram-se informantes privilegiados ou de oportunidades de contatos riquíssimos que não haviam sido previstos por mim.
Em relação à entrevista, Silva (2006) a considera ―um momento privilegiado para a troca de informações e de percepções entre as pessoas que dela participam‖ e ―estabelecer uma relação de confiança, favorável à sua realização, é, muitas vezes, um processo complicado, exaustivo e que exige um conhecimento mínimo de certas etiquetas e códigos do grupo‖ (Ibid., p. 41). De forma diversa, na UDV não tive dificuldades em relação à confiança,
58
O CEBUDV se organiza em Regiões, constituídas por duas ou mais Unidades Administrativas (Núcleos, Pré- Núcleos ou Distribuições Autorizadas); cada Região tem um Mestre Central, responsável por ela.
59
Cada Núcleo ou Pré-Núcleo tem um Mestre Representante, responsável por ele.
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Aqui destaco que seriam objeto de outras pesquisas, comparações e contrastes entre Candomblé e UDV, mas não de minha pesquisa. Utilizo este autor apenas por facilitar aspectos metodológicos que discuto neste capítulo.
a etiquetas e códigos do grupo, por eu ser sócio desde 1995 e membro do CDC (Corpo do Conselho) desde 27 de março de 2000. O CEBUDV possui, segundo minhas observações e de dois autores, ―quatro segmentos: Quadro de Mestres (responsável pela transmissão da doutrina): Corpo do Conselho (responsável pelo aconselhamento da irmandade e auxílio direto ao Quadro de Mestres); Corpo Instrutivo e Quadro de Sócios‖ (GENTIL; GENTIL, 2004, p. 563). Assim, pela minha trajetória dentro da instituição, tenho acesso a informações e à cultura da mesma que são inacessíveis a uma pessoa que dela não faça parte ou que dela participe há pouco tempo.
Considerações do psicólogo cognitivo Benny Shanon (2002) reforçam a vantagem de eu ser membro da instituição pesquisada. Ele diz que crê firmemente que não há alternativa
para se estudar a fenomenologia senão de dentro e que não há meio de apreciar as experiências extraordinárias (e muitas inefáveis) induzidas pelo chá Hoasca sem bebê-lo.
Compara com o estudo da música: há que ouvir seus sons. Além disso, pela experiência com o chá ser tão ampla, não há como capturar com um número pequeno de vivências: o que acontece com a pessoa é determinado não só pelo chá, mas pela atitude e postura que também mudam no curso do tempo. Em síntese: qualquer estudo sério da Hoasca requer
experiência em primeira mão e familiaridade substancial e de longo prazo61.
Além disso, continua Shanon (2002), em muitos contextos há um tabu explícito
contra discutir os conteúdos das visões além de serem muito pessoais para serem compartilhados principalmente com estranhos; informa que isso é observado por
antropólogos (DELTGEN, 1993, por exemplo). Compara com a investigação da vida sexual: para se obter relatos verdadeiros e completos do que acontece é necessário compartilhar
ativa e reciprocamente a experiência com seu interlocutor62.
61
My own firm belief is that there is no alternative to studying phenomenology from within. The experiences that Ayahuasca induces are extraordinary in the full sense of the term, and many are ineffable. There is no way to really appreciate what they are without experiencing them firsthand. After all, would anyone venture to study music without actually experiencing how music sounds? Moreover, for a serious study of the Ayahuasca experience a cursory, explorative exposure to the brew is not sufficient. The spectrum of phenomena pertaining to the Ayahuasca experience is extremely broad and there is simply no way these can be captured in a small number of probes. Again, the analogy with music is instructive: in order to appreciate what classical music is, it is not enough for one to go to a couple of concerts or to listen to a dozen discs. And as with music, learning to know a field and to appreciate what is interesting about it requires longitudinal, cumulative experience. What happens to one under the Ayahuasca intoxication is determined not only by the brew itself but also by one‘s attitude and stance, and these, in turn, change over the course of time. In sum, then, any serious study of Ayahuasca requires not only firsthand experience, but also substantive, long-term familiarity — indeed, training (SHANON, 2002, p. 32, grifos meus).
62
In many contexts, there is an explicit taboo against discussing the contents of Ayahuasca visions, and even when this is not the case the contents in question are highly personal and often people are reluctant to share them
De forma semelhante ao que explica Shanon (2002), os entrevistados em minha pesquisa, que se colocaram mais à vontade para falar, foram os que mais me conheciam (e, por causa justamente da espontaneidade maior captada por filmagens, fotos e entrevistas por parte do Departamento de Memória da instituição que as utilizei como fonte de pesquisa). Além das entrevistas e observações participantes, mais um elemento importante na coleta de dados foram minhas participações em listas de e-mails, permitidas só a membros. Assim, além das observações nas sessões de escala (1º e 3º sábados do mês), sessões festivas, de casais, instrutivas e da Direção (CDC e QM), e em outras atividades da instituição, estive imerso diariamente em diálogos via internet com membros do CEBUDV.
Ainda em relação à entrevista etnográfica, Silva (2006) diz que, na ―lógica‖ das religiões afro-brasileiras, a palavra falada ―é um ato mágico que impregna por contaminação simbólica o sujeito da fala e seu ouvinte‖ e que nessa lógica, ―aprende-se observando, sem
questionar ou demonstrar uma excessiva curiosidade‖ e ―Perguntar é uma quebra da regra do silêncio e do respeito, pois se acredita que o conhecimento deva ser transmitido de acordo com os méritos de cada um e em função do tempo de iniciação‖; ele acrescenta:
―a filha de santo deve ser obediente, ouvir tudo e nunca perguntar, porque perguntar é uma coisa que acaba sendo mal vista pelas mais antigas‖ (SILVA, 2006, p. 44, grifos meus).
Na UDV também se aprende observando e há ênfase na obediência (é um valor importante na instituição), mas, diferentemente do Candomblé, o interesse por aprender é
valorizado e a pergunta é bem-vista e bem-vinda. A palavra também é valorizada na
UDV63, contudo, em relação às perguntas, o procedimento citado por Silva (2006) é oposto ao que se dá na UDV, onde o conhecimento é transmitido de acordo justamente com as perguntas que são feitas. Mas, o caráter iniciático (que explicitarei melhor a seguir) possui semelhanças, pois, na UDV, há limitação do grau das respostas de acordo com o grau da sessão (de escala, instrutiva e assim por diante) e o grau do discípulo. Portanto, ocupar um lugar na hierarquia da UDV permite acesso a conhecimentos não acessíveis a graus
with others, especially strangers. Indeed, some anthropologists (see, for instance, Deltgen, 1993) have noted that they felt reports furnished to them by their informants did not reveal the entire story these individuals could tell about their Ayahuasca experiences. I would take the liberty of saying that in many respects discussing one‘s Ayahuasca visions is rather similar to discussing one‘s sexual life. And then, just as in the case of sex so also in conjunction with Ayahuasca —the best chance to get true and complete accounts of what happens is to actively share in the experience of one‘s interlocutor. Many of the interviews I have conducted were made possible because of such an active joint participation. The persons interviewed were ones I had met in sessions that I myself had participated in, and to many of them I have reciprocated by telling about some of my own experiences (SHANON, 2002, p. 43-44, grifos meus).
hierárquicos menores (QS e CI). Assim, não pude ter acesso ainda a conhecimentos reservados ao QM ou de graus hierárquicos maiores na instituição como MR, MC e outros acima destes, bem como a assuntos administrativos da instituição que são atribuição destes: esta é uma limitação do meu lugar enquanto pesquisador.
Destaco, agora, um ponto que considero uma questão ética: o caráter iniciático ou esotérico dessa seita64 impede a revelação de determinados ensinos. Portanto, não só por fazer parte da instituição65, mas, fundamentalmente, por uma questão ética, não revelo esses ensinos e tampouco faço críticas à mesma, pois considero que isso é uma questão de foro íntimo e que deve ser resguardado por qualquer trabalho de pesquisa, pois, do contrário, comprometeria o relacionamento entre a academia e a instituição. E, segundo narrativas de dirigentes da UDV, já ocorreu esse tipo de prejuízo em relação à mesma.
2.3 As limitações e outras delimitações deste trabalho
A principal limitação para esta pesquisa é o caráter iniciático da União do Vegetal (e, portanto, os conteúdos são reservados aos graus hierárquicos da mesma) e ensinos terem sido
revelados em pesquisas anteriores, tendo criado algumas dificuldades para minha pesquisa
(não permissão de gravação de entrevista, entre elas). Mesmo os ensinos ministrados nas sessões abertas a não sócios devem, com exceções, ficar restritos às mesmas. As chamadas e histórias não devem ser escritas, portanto, não podem ser analisadas. Daí decorre a impossibilidade de se gravar (em vídeo e áudio) as sessões.
Como já mencionei, segundo Silva (2006), no candomblé, que também possui uma concepção e uma prática iniciáticas, o conhecimento deve ―ser transmitido de acordo com
os méritos de cada um e em função do tempo de iniciação‖ (p. 44, grifo meu). A UDV
guarda a importância iniciática e esotérica em relação aos méritos (nesta instituição, ―de acordo com o grau de memória‖) de cada discípulo, mas, em relação ao tempo de iniciação, já não é dado o mesmo peso que no Candomblé, pois, na UDV ―antiguidade não é posto‖. 63
Analiso a importância da palavra no item ―4.4 A força do querer, o pedido e os mistérios (e poder) das
palavras‖.
64
Palavra utilizada pelos próprios membros do CEBUDV, que, segundo minha pesquisa, está de acordo com a segunda acepção do Aurélio: ―2. Conjunto de indivíduos que professam a mesma doutrina‖ (FERREIRA, 2004).
65
Proponho aqui uma analogia: se uma criança recebesse um alimento que não tivesse condição de absorver, o mesmo lhe seria danoso ou, mais especificamente, se recebesse uma informação que não pudesse compreender, a distorceria de modo que poderia prejudicar seu desenvolvimento. É assim que existe na educação formal (e também na informal) todo um currículo que prevê uma ordem nos conteúdos a serem ministrados de acordo com a necessidade e possibilidade dos educandos. Essa necessidade e possibilidade, na concepção da UDV, é esse ―chegar ao lugar e à condição de conhecê-las‖, é o ―grau de memória‖66.
Outras delimitações para a realização deste trabalho são as do grau hierárquico que ocupo na UDV. Em relação a ser membro do CDC, se por um lado é vantajoso, por outro existe a limitação de eu não ter tido acesso a aspectos que outros membros podem ter por pertencerem ao QM e daí para cima na hierarquia institucional; outra desvantagem que pode ter havido foi a possibilidade de algumas pessoas terem se sentido intimidadas por eu não ser do CI ou do QS: se eu fosse ―um igual‖, poderiam se sentir mais à vontade para falar comigo. Apesar de que há os que me procuram enquanto psicólogo e me pedem sigilo, o que, nesse sentido favorece nosso contato.
Além disso, minhas vivências na UDV também são limitadas, pois se delimitam ao ano de 1991 (de 25 de maio a novembro) enquanto frequentador não-sócio e de 1995 até hoje. São apenas quase dezesseis anos enquanto sócio dentro dos quase cinquenta anos da existência da UDV e, principalmente, no Núcleo Princesa Sama e seu desmembramento, o Pré-Núcleo Menino Deus (o trabalho etnográfico foi realizado quase que exclusivamente neste), que ficam na cidade de Manaus. Nesta cidade existem atualmente dez unidades administrativas, das quais conheço todas, mas apenas através de poucas sessões ou outras atividades em que lá estive. Em Boa Vista conheci dois Núcleos, pois faziam parte desta 2ª Região. Isso dentro do universo de cento e sessenta UAs. Assim, um pesquisador que puder ter acesso a muitas UAs, a todos os mestres antigos e à Diretoria Geral da UDV, certamente terá uma visão de conjunto da instituição bem mais ampla. Contudo, para os objetivos de minha pesquisa, isto não foi necessário. Por exemplo, não se necessita participar de todas as