Diante dessas ameaças, uma liderança Pataxó, de alcunha capitão Honório, empreendeu uma viagem ao Rio de Janeiro em busca de um posicionamento do SPI, que era na época o órgão que se propunha a ser representante dos interesses das populações indígenas. Não precisamos dizer que foi uma tentativa fracassada e sem sucesso, visto que no capítulo anterior já abordamos a ineficácia deste órgão em suas ações. Sendo frustrado em sua tentativa de encontrar apoio no órgão teoricamente representativo, o capitão Honório voltou do Rio de Janeiro, acompanhado de dois homens.
As versões sobre a identidade desses homens são variadas na interpretação da população nativa. Alguns se referem a eles como ladrões, outros como supostos
engenheiros do governo que viriam auxiliar capitão Honório, outras simplesmente se referem aos mesmos como dois homens de identidade desconhecida83.
O que, no entanto, nos revela Cunha (2010:122) em seu trabalho é que tratava- se de comunistas. Naquela época, havia correntes políticas de oposição (o comunismo no caso) que notoriamente ofereciam apoio às comunidades tidas como minorias. Segundo Cunha (2010:75) “discursos de lutas e defesa, pela causa indígena, eram proferidos pelos militantes comunistas, o que ressaltava a popularidade do PCB, a essa classe desassistida”
Não fica claro nos trabalhos que tratam do massacre (CUNHA,2010; DA SILVA,2013; LUMINOSA-HISTÓRIAS, 2005) como se deu o vínculo entre o capitão Honório e os dois homens (Ary Bering e Nelson Schoum, ambos revelados no final do trabalho de CUNHA, 2010:122), pois estes últimos foram mortos imediatamente no confronto policial (que será descrito a seguir) e em relação ao capitão Honório, o mesmo não foi visto depois para dar a versão dos fatos, pois notícias do seu paradeiro são contraditórias (CUNHA, 2010:84).
Vamos agora relatar o que foi o Fogo de 51 e quais as consequências posteriores para a comunidade de Barra Velha e para os Pataxó como um todo, visto que este episódio configura-se agora na memória do povo de forma geral.
Quando o capitão Honório chegou em Barra Velha acompanhado de Ary e Nelson, solicitaram que os indígenas se munissem de armas para garantir proteção à aldeia e em seguida dirigiram-se para Corumbau onde saquearam a venda de um homem chamado Teodomiro Rodrigues.
Esse ataque é visto pelos nativos como um ato vergonhoso e investido de vandalismo. No entanto, ao entendermos a relação de compadrio84 existente na época, entre os comerciantes e os indígenas, vemos que na verdade trata-se de um ato político, de insurreição contra as práticas vigentes na época no que tange à exploração dos indígenas. Porém, segundo Cunha (2010: 79), Teodomiro já tinha sido
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Ver a esse respeito em LUMINOSA-HISTÓRIAS (2005:6), GRUNEWALD (2001:96), CUNHA (2010:71) e DA CONCEIÇÃO (2016:16)
84
Corumbau, onde vivia Teodomiro e família era considerado pelos militantes como território Pataxó (CUNHA, 2010:79). Além disso, a relação dos comerciantes com os indígenas tinha como pano de fundo o esbulho de suas terras da seguinte maneira: os indígenas compravam produtos nas vendas, através de notas promissórias, as quais eram assinadas pelos indígenas através de suas impressões digitais. As mercadorias trazidas pelos índios a título de trocas (piaçavas, mandioca, farinha e caranguejos) eram desvalorizadas e as mercadorias fornecidas pelo comerciante eram superfaturadas, gerando assim uma relação de débito constante dos indígenas em relação aos comerciantes. Os indígenas deste modo eram enredados em dívidas cada vez maiores, e as quais eram findadas mediante o pagamento com suas terras.
avisado da emboscada, e aguardava a chegada de Honório, Ary e Nelson, acompanhado dos policiais. A ação policial foi devastadora e desproporcional ao ataque dos três homens. Além de matarem imediatamente Ary e Nelson, segundo versões nativas, Teodomiro teve o couro da cabeça arrancado e foi feito de cavalo. Outras versões dizem que ele se embrenhou no mato e nunca mais foi visto.
Em Barra Velha, os policiais atentaram contra a vida da comunidade, açoitando os idosos que não deram conta de fugir, queimando todas as moradias e roças. Segundo Da Silva (2013:6), o massacre durou trinta dias e “mulheres foram estupradas, crianças amarradas, todos chicoteados e levados até a cidade vizinha de Caraíva, onde sofreram as vaias dos habitantes não índios”.
Segundo Cunha (2010:94)
A influência da mídia, na repercussão dos fatos, contribuiu para a mobilização das comunidades de Prado e Porto Seguro, no apoio à ação policial. Os Pataxó passaram a representar uma ameaça às comunidades locais. Diante dessa situação, a ojeriza a este povo era crescente.
Após o episódio do Fogo de 51, os indígenas se dispersaram pelo território. Em função da indisponibilidade de recursos, muitos foram feitos escravos em fazendas contidas nas redondezas. Após alguns anos, foram voltando para habitar novamente Barra Velha, tentando retomar sua vida comunitária.
O episódio do Fogo de 51 no entanto representa um marco na história Pataxó. Como conclui Cunha (2010:120) em seu trabalho:
(...) foi um divisor de águas na trajetória desse povo. Se por um lado marcou vidas em detrimento da violência; por outro, provocou um renascimento social à Aldeia Barra Velha. Inegavelmente, foi um fato que despertou a própria comunidade a repensar suas origens e seus direitos. (...) As conquistas provenientes do conflito de 1951 foram determinantes para que a comunidade Pataxó acreditasse que o homem não é um ser submetido ao seu determinismo, pois através da luta ele pode reverter a sua história.