4. AVTALER I PLANLEGGING OG GJENNOMFØRING - SITUASJON, STRATEGI
4.2 Drøfting av hypotesene:
4.2.6 Avtalenes smitteeffekt
Para Melucci (1996), a compreensão do sistema de ações por meio do qual os atores constroem uma identidade coletiva, contestam e reinterpretam códigos culturais dominantes requer uma análise do papel da ideologia na formação e consolidação organizacional dos movimentos sociais. Ele define ideologia como um processo de produção simbólica de um “[...] conjunto de quadros interpretativos42 simbólicos utilizados pelos atores coletivos para representar as suas próprias ações para eles mesmos e para os outros atores dentro de um sistema de relações sociais” (MELUCCI, 1996, p. 349, tradução nossa). Os movimentos sociais, assim como os demais sistemas sociais, apresentam intensa produção simbólica envolvendo seus atores, que procuram definir suas circunstâncias e atribuir significado a suas ações dentro das suas interações com o ambiente.
Segundo Melucci (1996, 2001), um movimento social considera-se e apresenta-se publicamente, por meio de operações ideológicas, como o verdadeiro intérprete das relações sociais dos sistemas a que suas ações se referem. Ele atribui-se certos valores morais, culturais e políticos, legitimando assim os seus quadros interpretativos e assumindo-os como válidos para representar a totalidade de posições dos sistemas sociais, ainda que sejam baseados numa racionalização da realidade social de acordo com os seus interesses, referenciais cognitivos e emocionais. Ao mesmo tempo, o movimento emprega seus recursos simbólicos para desqualificar, a partir de argumentos diversos, as produções ideológicas de seus adversários. De acordo com Melucci (1996, p. 350, tradução nossa):
42 Traduzimos o conceito frame, do original inglês, por “quadro interpretativo”, seguindo a tendência de sociólogos que analisam os movimentos sociais com base na abordagem da Framing Theory (Teoria do Enquadramento Interpretativo). Os quadros interpretativos são “[...] esquemas de interpretação que permitem aos indivíduos localizar, perceber, identificar e classificar os acontecimentos ocorridos dentro do seu espaço de vida e no mundo em geral. Ao atribuir significado aos eventos ou acontecimentos, os quadros interpretativos funcionam para organizar a experiência e guiar a ação, seja individual ou coletiva” (SNOW et al., 1986, p. 464, grifos dos autores, tradução nossa).
[...] Na ideologia do movimento social, é quase sempre possível identificar, mais ou menos explicitamente, a definição de ator social que é mobilizada, de adversário contra quem o movimento deve lutar, e os objetivos coletivos da luta. Esses três elementos analíticos são combinados num sistema complexo de representações que define a posição do ator social em relação ao oponente e às metas coletivas nos seguintes modos: (a) A definição do grupo social em cujo nome as ações são realizadas determina os limites da identidade coletiva e a legitimidade do movimento; (b) A situação indesejável que deu origem à necessidade da ação coletiva é atribuída a um adversário ilegítimo, usualmente definido em termos não sociais; (c) Os objetivos ou metas desejáveis, para os quais é necessário lutar, existentes para a sociedade como um todo; (d) Há uma relação positiva entre o ator e as metas gerais da sociedade, e, portanto, as ações do movimento vão além dos interesses particulares do ator; (e) O adversário é visto como um obstáculo aos objetivos gerais da sociedade; e (f) Há, então, uma oposição irreconciliável entre o ator e o adversário.
No processo de formação e manutenção do movimento social, a ideologia desempenha duas funções complementares: integração e estratégia. A função integrativa refere-se aos processos de enquadramento interpretativo, baseados em aparatos discursivos e práticas rituais, que visam manter a unidade organizacional em face de eventuais pressões desagregadoras.43
Para Melucci (1996), é comum existir uma variedade de interesses, demandas e táticas no interior dos movimentos, o que pode levar a conflitos, disputas pela liderança ou provocar dissidências. Para prevenir a emergência deste tipo de conflito, os enquadramentos interpretativos reiteram certo conjunto de valores e normas de um dado grupo – aquele associado às lideranças – para fazê-los coincidir com o do movimento como um todo.
Desse modo, “[...] A ideologia coordena, articula e torna coerentes [diversas] demandas, associando-as, então, com princípios gerais” (MELUCCI, 1996, p. 353, tradução nossa). Assim, são fixados os “[...] limites de pertencimento [...] e critérios para a identificação e punição de quem se desviar das normas” (MELUCCI, 1996, p. 353, tradução nossa). Entretanto, o domínio dos recursos interpretativos por um dado grupo não é monolítico tampouco perene, podendo sofrer alterações devido a conflitos entre grupos e facções, novas configurações na distribuição do poder e troca de líderes, “[...] sendo o controle da ideologia e, mais comumente, do fluxo de informações [...] um importante recurso de liderança” (MELUCCI, 1996, p. 353, tradução nossa).
43 Para Bartholomew e Mayer (1992, p. 144, tradução nossa), “[...] o mérito da abordagem construtivista de Melucci é que ele não encobre, mas expõe a probabilidade de problemas como a construção de solidariedade, recusando-se a assumir a unidade dos movimentos sociais”.
A estabilização de certas práticas rituais também é um recurso ideológico adotado pelos movimentos para manter a unidade de seus componentes. Determinados códigos linguísticos, certos comportamentos e estilos de vestir, aspectos da organização das cerimônias internas e demonstrações externas são reproduzidos e cristalizados, de modo a criar características comuns entre os que compõem o movimento. Esses rituais “[...] representam a síntese de uma cultura organizacional compartilhada [e] tendem a garantir a continuidade e a eficácia da ideologia [...]” (MELUCCI, 1996, p. 353, tradução nossa).
Além da função integrativa em relação aos membros do movimento, a ideologia desempenha uma função estratégica em relação ao ambiente sócio-histórico. Em sua fase de consolidação, o movimento mobiliza recursos simbólicos voltados à ampliação de sua base de apoio na sociedade, incluindo as alianças com outros grupos e organizações sociais dentro dos sistemas a que suas ações coletivas se referem. Esforços são assim direcionados de maneira especial ao aumento da sua influência sobre o sistema político, onde busca espaços de atuação e representação de seus interesses.
Há ainda a preocupação em vencer a complexa batalha simbólica pelo apoio da opinião pública, como sublinharam em sua análise os sociólogos mexicanos Chihu Amparán e López Gallegos (2007, p. 148, tradução nossa):
[...] a ideologia trata de melhorar, aos olhos da opinião pública, a posição do ator coletivo em relação ao seu antagonista. Os enfrentamentos entre o movimento e seus adversários podem ser considerados como encontros dramáticos nos quais se mobilizam estratégias simbólicas com o propósito de produzir significados positivos para o movimento e significados negativos para o adversário.
A produção simbólica de resultados positivos ocorre tanto nas situações de vitória, quanto nas de derrota. Os primeiros são “[...] articulados simbolicamente como a vitória do bom e justo sobre a injustiça arbitrária [...]” e os segundos são descritos como a “[...] batalha do fraco contra o poderoso, com especial atenção a qualquer tática desleal” (MELUCCI, 1996, p. 354-355, tradução nossa).