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Para a maioria das pessoas, a parábola é geralmente relacionada ao universo religioso, sendo, muitas vezes, lida, ouvida e discutida. Assim, ela é entendida como meio humano para se atingir um objetivo divino, que por meio da linguagem humana torna as doutrinas religiosas mais acessíveis. Assim, criou-se um instrumento para, justamente, conseguir atrair as massas e tornar a religião menos sofisticada e mais popular.

Com isso, aparece certo conhecimento a seu respeito, que, se por um lado permite o acesso e reconhecimento de um vasto número de parábolas, por outro, pode automatizar sua percepção, encobrindo o fato de que se tratam, como tantas outras, de uma forma pertencente ao campo literário, com seus mecanismos específicos de construção e de ricas potencialidades para a análise literária.

Em contrapartida, em seu artigo “A parábola no ensino”, publicado no Proleitura6, Carlos Erivany Fantinati discorre a respeito da importância literária da parábola, destacando que esta

[...] apresenta um conjunto de elementos estruturais que poderiam ser estudados no ensino, tais como sua estrutura literária enquanto discurso alegórico; os elementos morfológicos e estruturais ocorrentes na construção da ação; a representação do espaço, do tempo e das personagens; os traços funcionais e de efeito na tradição do gênero e atualmente; os tipos de parábola – a religiosa, a política, a existencial; ou ainda a presença do parabólico no contexto de outras formas literárias, como no teatro ou no conto de fadas moderno (p. 9).

Sendo assim, é possível perceber como uma parábola pode ocorrer dentro de um discurso narrativo, sem ter que servir apenas a fins pedagogizantes.

Robert Alter, em suas obras: Guia Literário da Bíblia (1987) e Em Espelho Crítico (1998), defende uma abordagem literária não só da parábola, mas também da Bíblia, por meio do estudo de signos e padrões repetidos, que segundo ele, permitem comparar as narrativas religiosas a grandes clássicos da literatura. Pois, para ele, a Bíblia é uma obra que, do ponto de vista literário, resiste ao tempo, e considerando-a um livro que, como outros, atingem seus efeitos por meio da língua escrita. Ao fazer isso, não despreza os demais valores da obra, como os históricos, arqueológicos e religiosos, com isso, afirma que a análise

6 A parábola no ensino. In: SANT’ANNA, M. A. D. (org.). Proleitura. A parábola. Assis: Departamento de literatura da FCL da UNESP. Ano 4, nº 14, jun/1007.

literária deve anteceder qualquer outra, já que essa leitura esclarece o que de fato se quer dizer.

Em entrevista dada a Folha de São Paulo, do dia 10 junho de 2005, o crítico declara que:

Não discuto que os escritores da Bíblia eram fortemente motivados pela ideologia religiosa. Eles queriam, sim, passar uma mensagem. Mas o fizeram de uma maneira sutil e sofisticada. Davi era o escolhido de Deus, mas foi representado com todas as contradições de um ser humano. Do ponto de vista literário é um personagem tão interessante quanto Madame Bovary ou Anna Karenina. E a mensagem religiosa é aprofundada: a história de Davi não é apresentada como um conto de fadas, mas, sim, no contexto de um mundo com questões políticas (p. 4-5).

Na obra O gênero da parábola (2010), do professor Marco Antônio Domingues

Sant’Anna, pode-se verificar esse valor literário dos textos bíblicos, e, para isso, o autor

percorre percurso cronológico da conceituação do termo parábola, desde as suas primeiras aparições até os dias atuais, por meio de várias definições encontradas, primeiramente, em textos de caráter teológico/ religioso, depois, na teoria literária laica, para, a partir daí, analisar as características específicas da parábola como um gênero literário.

De acordo com a definição encontrada por Sant’Anna, a parábola seria uma narrativa breve, amimética e alegórica. O amimetismo referido por ele pode ser percebido nas categorias das personagens, do espaço e do tempo, ou seja, a configuração desses elementos não mantém vínculos com a realidade empírica, mas segue um princípio de organização interna que lhe imprime um caráter universal. Com poucas exceções que acabam confirmando a regra, as personagens não apresentam nomes próprios e nem aspectos psicológicos individualizantes, os espaços não são definidos geograficamente e o tempo não é marcado cronologicamente.

Além disso, é possível detectar em sua forma as partes distintivas de uma narrativa tradicional: apresentação, complicação, clímax e desfecho, além de ser verossímil, em que há a possibilidade ou não de acontecer no mundo real.

Dessa forma, no plano formal de uma parábola é possível detectar um esquema mínimo narrativo com um narrador, um fato narrado, alguém a quem se narra. Também assume um forte caráter argumentativo, deixando de ser apenas um texto narrativo, composta de uma estrutura discursivo-poética com formas indiretas através da linguagem figurada.

Em sua forma tradicional, a parábola também se configura como uma

“metanarrativa”, ou seja, uma narrativa passível de ser encaixada no corpo de um discurso

mais amplo. Isso só é possível por ser breve, tendo em média 150 a 200 palavras, caso contrário, ocorreria uma digressão.

Sendo assim, essas narrativas bíblicas breves não apenas facilitam a sua inclusão num outro contexto discursivo, mas também lhes garante a força persuasiva, já que mantêm uma relação temática com o contexto em que estão situadas. A pequena estória contada constitui um recurso argumentativo eficaz na transmissão de uma verdade geral.

Por possuir esse caráter original intrinsecamente ligado à oralidade, presente em diálogos e manifestações públicas, é garantida à parábola uma possibilidade funcional de estabelecer um confronte entre seus interlocutores.

A participação do leitor nas parábolas é essencial, como em todo texto literário, pois sabe-se que é por meio da leitura de textos literários, que o leitor se atualiza e permite a atribuição de vários sentidos possíveis por meio da reconstrução do universo simbólico conforme as vivências pessoais de cada sujeito. Para isso, é preciso que a leitura seja uma atividade de construção de sentido que pressupõe a interação autor-texto-leitor, em que é preciso considerar, além das pistas e sinalizações que o texto oferece o conhecimento do leitor, pois, se o autor apresenta um texto incompleto, por pressupor a inserção do que foi dito em esquemas cognitivos compartilhados, é preciso que o leitor o complete, por meio de uma série de contribuições. Então, o leitor aplica ao texto um modelo cognitivo, ou esquema, baseado em conhecimentos armazenados na memória que nortearão seu modo de leitura, a seu tempo; com mais atenção ou menos atenção; com maior interação ou com menor interação

Destaca-se, assim, uma concepção de leitura como atividade baseada na interação autor-texto-leitor. Se por um lado, nesse processo, faz-se necessário considerar a materialidade lingüística do texto, elemento sobre o qual e a partir do qual se constitui a interação, por outro lado, é preciso também levar em conta os conhecimentos do leitor, condição fundamental para o estabelecimento da interação com maior ou menor intensidade, durabilidade, qualidade.

Por fim, pôde-se supor que de início a parábola não possuía alguma intenção estético-literária; mesmo porque, originalmente, havia uma grande ênfase na comunicação oral, e não escrita do gênero parabólico. Entretanto, pelo fato de os textos terem sido compostos a partir de elementos literários, manipulados e trabalhados de uma determinada forma, constituem um gênero reconhecido de discurso, que pode ser analisado também de forma literária.