3.3 El material empírico
3.3.1 Presentación de la novela Toda una vida y de la autora Martha Cerda
A FIANEI foi fundada no ano de 1953, na cidade de Gand, tendo surgido por iniciativa da Federação Belga de Estudantes de Engenharia, durante do Congresso comemorativo do seu aniversário, no qual foi estabelecida uma comissão encarregue de estudar as possibilidades de criar a FIANEI. Neste sentido, a 8 de Outubro de 1953, realizou-se em Paris a Assembleia Constituinte da FIANEI, cujos como membros fundadores foram a França, a Bélgica, a Itália, a Holanda e Portugal, representado pela AEIST.295
A FIANEI assumia como objectivos: “estudar e promover os interesses e a cooperação dos estudantes de engenharia num plano puramente profissional no quadro de uma compreensão internacional”. A Federação colocava ao dispor dos alunos de engenharia um rol de actividades, designadamente seminários, estudos gerais e viagens de estudo com destino a locais turísticos e a regiões industriais em diversos países, nomeadamente Itália, França e Alemanha, entre outros.
No âmbito nacional, a AEIST, sabendo que a sua adesão à FIANEI deveria ser ratificada pelas entidades superiores portuguesas, enviou uma exposição com os
294 Relatório e Contas da Direcção da AEIST de 1956/1957, Lisboa, AEIST, 1957, p. 14.
295 Em 1956, teve lugar na Holanda o 1.º Seminário da FIANEI, onde participaram cerca de 200
estatutos daquela federação ao MEN, ao qual recebeu uma resposta negativa em ofício datado de 27 de Junho de 1956. Desta forma, a AEIST, membro fundador da FIANEI, viu-se forçada a interromper as ligações que mantinha com aquela federação internacional, causando espanto e descontentamento entre os estudantes. Como se pode confirmar a seguir:
Foi com autêntica surpresa que recebemos um ofício da Direcção Geral do Ensino Superior “proibindo estudantes portugueses de se deslocar a um congresso na Holanda”. Estava terminado o prazo em que as inscrições deveriam ser enviadas à Holanda e não pudemos fazer mais do que responder relatando o que se passara. 296
As motivações para essa decisão do MEN prendiam-se com o facto de o Governo Português não depositar confiança, num plano estritamente político, nesse organismo internacional, alegadamente por não ser independente em relação à União Internacional dos Estudantes.297 Neste sentido, em audiência que teve lugar em Outubro de 1956, o Ministro da Educação Nacional, Leite Pinto, informou os dirigentes da AEIST que não autorizava a filiação alegando ter conhecimento de que a FIANEI mantinha contactos com “organismos de carácter comunista”, dado que lhe teria sido confirmado, que esta se encontrava filiada numa organização Internacional “para lá da cortina de ferro”.298 Não obstante, os estatutos da FIANEI declaravam, no Art.3º, que “à federação fica interdita qualquer ingerência nos domínios especificamente políticos e em todos os assuntos que não interessem os estudantes de engenharia”.299
Em virtude da autorização não ter sido concedida, a AEIST não pôde estar presente nas Assembleias-gerais de 19 de Abril e de 28 de Outubro de 1955, sendo que , dessa forma, assim a actividade da AEIST como membro da FIANEI “limitou-se a uma
296 Boletim AEIST, nº8, Lisboa, AEIST, Abril de 1956, p. 2.
297 A União Internacional dos Estudantes (UIE) foi fundada em Praga em 27 de Agosto de 1946 com o
propósito de desenvolver a cooperação entre estudantes no contexto do Pós-Guerra, baseada num desejo partilhado entre os seus membros de impedir a ressurreição do fascismo na Europa. A crescente oposição entre blocos que constituiu a Guerra Fria reflectiu-se no contexto dos trabalhos da UIE, procurando os países do Ocidente privilegiar a prestação de serviços aos estudantes por parte daquela instituição internacional em detrimento da sua politização, o que era defendido pelos estudantes da Europa de Leste. Esses antagonismos levariam à saída de 21 membros do bloco ocidental da UIE, que se viriam encontrar em Estocolmo em 1950 com o fim de instituir a Conferência Internacional de Estudantes (CIE). A coexistência entre a UIE e a CIE nas décadas de 50 e 60 assinalou um período de competição pela demarcação de influências, particularmente no que se refere a estudantes da América do Sul, África e Ásia. http://www.stud.uni-hannover.de/gruppen/ius/, acedido em 17/07/2007.
298 Relatório e Contas da Direcção da AEIST de 1955/1956, Lisboa, AEIST, 1956, p. 11. 299 Relatório e Contas da Direcção da AEIST de 1956/1957, Lisboa, AEIST, 1957, pp. 12-13.
estreita troca de informações e consultas sobre problemas ligados ao ensino e situação dos estudantes de engenharia”.300
Paralelamente, os estudantes do IST empreenderam um conjunto de iniciativas junto do MEN no sentido de conseguirem a representação acima mencionada, nomeadamente o envio de várias exposições ao MEN e uma audiência com o Ministro, pelas quais sublinharam que não haveria motivos para a desconfiança da FIANEI. Neste contexto, a AEIST, “na impossibilidade de demonstrar a legitimidade” das suas afirmações, escreveu um comunicado à FIANEI, solicitando a disponibilização de uma lista pormenorizada de todas as organizações onde a FIANEI se encontrava filiada ou com que mantinha contactos, tendo obtido em resposta a respectiva listagem e a confirmação da sua neutralidade política:
A FIANEI apenas se encontra filiada na Confederação Internacional dos Trabalhadores Intelectuais (CITI), o que unicamente se cifra por uma troca de impressões técnicas. No que respeita a organizações estudantis, nomeadamente o COSEC e a UEI, nós apenas nos servimos de uma e de outra para assegurar a publicidade necessária da nossa Federação.301
Uma vez confrontado com estes novos elementos, o MEN, não obstante ter reiterado as suas desconfianças, autorizou a participação dos estudantes do IST no Seminário Internacional em Paris, em Abril de 1957, organizado no âmbito da FIANEI. No entanto, a autorização legal para que a Associação se pudesse filiar na FIANEI só seria concedida em 1958, como se pode observar numa notícia no jornal AEIST:
Em recente entrevista com Sua Excelência o Ministro da Educação Nacional foi comunicada aos dirigentes da AEIST a autorização ministerial para a filiação da AEIST na FIANEI. Representa, antes de tudo, uma justa consagração oficial da actividade verdadeiramente singular que a AEIST tem desenvolvido no sentido de uma maior cooperação e intercâmbio internacional.302
300 AEIST, Lisboa, AEIST, 4 de Junho de 1958, p. 5. 301 Ibidem, p. 5.
Desta forma, ficou concluído o processo de filiação da AEIST na FIANEI, o que representou o facto inédito até então de uma AE portuguesa participar “em pé de igualdade” nos trabalhos de um organismo internacional e, “se esse facto acarreta à AEIST responsabilidades particularmente pesadas, ele torna legítimas por outro lado as maiores esperanças de que uma nova era foi inaugurada no campo das relações internacionais”.303