Se para o teatro tradicional, o papel da “platéia” é bem definido: aquele que assiste a um espetáculo cênico, o mesmo não acontece com os outros teatros aqui desenvolvidos. Neles há uma quebra da antiga hierarquia que versava que textos, atores e público têm papéis específicos dentro do contexto teatral. As relações são refeitas, mudando- se inclusive o objetivo do espetáculo cênico e as interferências do público diante do que está sendo apresentado.
No teatro épico de Brecht as interferências daqueles que assistem ao espetáculo são limitadas a reflexões de ordem política; a passividade dos espectadores é provocada, mas não há processos interativos no sentido em que não se levanta da cadeira, nem se sobe ao palco. A partir do momento em que se resolve sair dos assentos, acentuando as problemáticas individuais ou sociais, as interfases começam a se tangenciar e podem se interligar.
As análises desencadeadas por este estudo levam-nos a reflexões acerca das interfaces existentes entre a psicologia clínica e social e algumas práticas teatrais desenvolvidas principalmente por Moreno e por Boal. O que esses teóricos faziam é inserido em qual categoria? Nas ciências psicológicas ou nas artes cênicas? Os teatros interativos desses profissionais, um médico e um diretor teatral, levaram os espectadores não apenas a saírem dos seus papéis de ouvidores passivos de um espetáculo cênico, mas a participarem e a trazerem no palco seus outros papéis, suas outras necessidades,
O espetáculo deixou de ser apenas apreciado e passou a ser vivenciado e o palco perdeu a sua exclusividade: ele não é mais um lugar apenas dos atores e atrizes. Nas concepções teatrais de Boal (2008, p.19), ele generalizou afirmando que tudo é teatro, que “somos todos atores, inclusive os atores e que é possível fazer teatro em qualquer lugar até mesmo nos teatros”. O teórico e dramaturgo brasileiro propunha um novo conceito além daquele especificado desde a época dos gregos onde havia um lugar específico e pessoas específicas para fazerem o espetáculo teatral.
Em sua opinião, o estado grego utilizou-se do instrumental cênico para impor sua ideologia, determinando lugares específicos para cada pessoa e isso se manteve ao longo dos anos e ele propunha uma quebra dessa pseudo harmonia. Caminhos bastante similares àqueles percorridos pelos teatros políticos que apregoavam a tomada do poder e da ação pelo proletariado e também pelos teatros morenianos que davam o lugar de protagonista àqueles
que antes estavam sentados. Nesse momento o que está acontecendo? Nos teatros do agit-prop e para os que seguiram na linha política, fica claro que o que se faz é teatro de inclusão social. O teatro enquanto instrumental para que o operariado tenha uma consciência de classe e possa entender e assimilar o teor social do texto que ele viu, com esse entendimento ele pode se mobilizar para modificações futuras. Em Brecht e nos teatros políticos, o espectador se mobiliza com as reflexões advindas do espetáculo, durante a encenação. Ele não atua, nem o modifica. É teatro porque ele assiste a um espetáculo e a partir daí pode se sentir impelido a fazer ações, podemos dizer que é terapêutico? Sim, mas não é psicologia comunitária porque quem esteve ali foi para casa, se encontraram naquele lugar, mas podem não se encontrar mais. O único vínculo dessas pessoas foi a simpatia por um texto político.
Em Moreno e Boal surge a possibilidade de colocar-se individualmente. Não é mais um texto apriorístico, escrito por um dramaturgo desconhecido, é algo da pessoa ou da sua comunidade e as colocações advindas e a própria dramaturgia passam pela subjetividade e pela terapêutica. Nos teatros de Boal, há um diretor e um grupo de atores e há intervenções da comunidade. São teatros que mobilizam mais do que o anterior porque as pessoas agora se conhecem, eles não foram ao espetáculo apenas pela simpatia com o texto. Elas foram mobilizadas e procuram soluções. O diretor de teatro transforma-se em um facilitador do processo e os atores em seus ajudantes, são os ego-auxiliares nas dimensões do psicodrama.36
A trupe não está restrita a ensaios específicos de algum texto, mas tornam-se, naqueles momentos, agentes sociais, além de artistas. Mas não são os únicos atores.
Boal foi um diretor teatral que desenvolveu processos terapêuticos nos seus teatros que além de interativos, tornaram-se inclusivos. Esses processos estão presentes em todas as manifestações artísticas porque elas têm condições de propiciarem ao autor e aos seus usuários experimentarem outros momentos, de prazer ou de reflexões.
Moreno abandonou o campo tradicional da medicina para entrar no domínio do teatro. Ele havia trabalhado com as prostitutas de Viena e com elas estabeleceu aquilo que chamou de “teatro recíproco”, precursor da terapia familiar e comunitária. A partir daí começou a notar que as pessoas tinham uma necessidade de falarem de seus medos e angustias e bastava para isto criar um ambiente propício e seguro. Nas suas atividades encontramos os primeiros passos para a estruturação de interferências mais terapêuticas usando o teatro do improviso como formas lúdicas de envolveram os espectadores.
36 Nome que Moreno deu àqueles que desempenham os contrapapéis do protagonista e ajudam o diretor nas cenas desencadeadas no processo psicodramático.
Ele também acreditava, assim como Brecht e Boal, no poder modificador da arte, onde a mesma passa a ter uma objetividade que nas palavras do filósofo e dramaturgo germânico Friedrich Schiller (1992, p.82) sugere a mediação entre o homem enquanto natureza e o homem, enquanto ser moral, mercê do estado estético. Nas suas Cartas, o belo, o estado contemplativo da obra-de-arte e do mundo estético é um mundo de belas aparências. Aparência e realidade, aparência e verdade, o reino da imaginação.
O belo nos leva a um estado contemplativo, que podemos entender aqui como um processo terapêutico. Um processo que vai além do simples deleite da observação de uma obra artística e passa a atuar como um processo de modificação. A arte para Schiller tem o potencial de tirar o homem do seu estado comum propiciando experiências significativas.
Se por um lado a palavra ‘terapêutico’ pode ser entendida como uma das funções do teatro, podendo estar atrelada ao estético e à experiência de contemplação, o mesmo não acontece com as palavras ‘psicologia’ e ‘psicólogo’. Essas têm acepções mais delimitadas: a primeira enquanto uma ciência, a outra nomeia o profissional de nível superior que a utiliza.
Henry Ey no seu Manual de Psiquiatria (1991, p.3), define psicologia como: “uma das ciências do homem que tem como objetivo sua vida de relação, isto é, as relações que o ligam, enquanto sujeito ou pessoa, a seu mundo”. As relações podem torná-lo doente, o médico deve tratá-lo. Já para David Edwards (1972, p.13) é “a ciência do comportamento e cabe aos psicólogos formularem questões que possam desvendar princípios sobre a conduta dos indivíduos”. Conceitos que nos falam de relações, doenças, curas e desvendar. Uma ciência apta a desvendar as causas físicas e psíquicas que levaram o sujeito a uma patologia. Para ajudar o outro a resolver o seu problema, a psicologia dividiu-se em várias metodologias que buscam uma melhora do cidadão com ele mesmo e com aqueles com quem se relacionam. A psicologia busca uma melhora física e psíquica e parte de uma demanda, de um pedido. Alguém procurou o profissional para que fosse ajudado. Sendo necessário um pedido, podemos delinear melhor a área de atuação do profissional e enquadrar com mais propriedade os teatros estudados. Em alguns teatros morenianos como o psicodrama bipessoal e o psicodrama em grupo há um setting terapêutico, há uma demanda, portanto é psicologia, é uma vertente psicológica que se utiliza de técnicas teatrais. Moreno era médico e os psicodramatistas são psicólogos clínicos com especialização em psicodrama.37
37 No Brasil o curso de especialização é regimentado pela Federação Brasileira de Psicodrama, o clínico é prerrogativa de médicos e psicólogos.
Nos teatros políticos e tradicionais, a peça tem um palco (no teatro de rua e no teatro do invisível também, pois há um lugar para a cena), temos atores, atrizes, um texto e o espetáculo foi coordenado por alguém. Não é psicologia, mesmo que tenhamos processos de cunho terapêutico, é teatro. Ninguém da plateia pediu uma ajuda no sentido de resolver alguma problemática interna ou física.
Mas nem tudo tem essa clareza. O teatro do oprimido de Boal tem enormes similaridades com o sociodrama de Moreno. O primeiro foi desenvolvido por um diretor de teatro quando trabalhava com pessoas marginalizadas, há uma demanda, um pedido de ajuda, há interferências, mas também há um grupo de atores e há um diretor de cena. Não temos dúvida que é teatro interativo, mas é psicologia? O outro foi consequências de intervenções clínicas em comunidades e tem como objetivo suscitar problemáticas, bem como, as suas resoluções. Não tem texto, esse é produzido concomitante ao espetáculo; não tem atores, esses são advindos do público participante. Mas tem um diretor com formação em psicodrama: é psicologia comunitária, mas é teatro?
O que o estudo nos mostra é que antes de especificar áreas de atuação quer da arte, quer da ciência, o que temos é o ser humano como um todo. Indiferente ao fato do diretor de teatro também ser psicólogo, pedagogo, sociólogo ou antropólogo, o que realmente temos é o uso da arte com finalidades além da diversão. Uma arte engajada com o momento histórico, que passa pelo estético, político e lúdico, mas também ético e social.