A propósito de elucidar como é a rotina na instituição escolhida, colocar-se-á, a seguir, uma ilustração do que seria um dia padrão na vida dos abrigados, sendo que este foi composto a partir das observações registradas no Diário de Campo, já que em nenhuma oportunidade foi realizada a observação de um dia inteiro propriamente dito, mas sim de todas as suas etapas, em dias diferentes e durante várias observações. Servindo como uma representação fiel ao que foi percebido cotidianamente na dinâmica institucional, tal esboço virá à guisa de enfatizar a opção pela análise apenas dos fragmentos críticos que causaram impacto, visto que, devido à rotina do internamento, muito do que foi observado gira em torno da repetição, da monotonia e do automatismo. Faz-se importante ressaltar o incômodo sentido diante da dinâmica observada, a qual reafirma a falta de possibilidades dada a criança em seu cotidiano e a falta de tentativas de mudança do fazer institucional, indicando um acomodamento e uma pasteurização do vivido. Esta imersão da criança em um cotidiano que remete à solidão e ao silêncio faz pensar na constituição desse corpo infantil, sem recursos e possibilidades, o que aponta para a formação de um corpo sem voz e sem representação.
“Cheguei à instituição e fui recebida por uma das meninas, que estava na janela de frente para a rua, a qual logo chamou uma das funcionárias para abrir o portão para mim. Ao entrar, fui à sala das funcionárias avisar à coordenadora que tinha chegado, para que ela então me levasse até onde as crianças estavam. Era por volta das sete da manhã e a maioria das crianças já estava de pé, outras estavam tomando banho e a cuidadora tentava acordar dois meninos que se negavam a sair da cama. Fomos até o refeitório, que é um cômodo separado da casa por um terreiro, onde fica a cozinha e uma mesa grande com dois bancos longos. Sentei-me por lá, pois eles iriam tomar café. Sonolentas, as crianças comeram bolachas e tomaram leite puro (vale dizer que não há variedade no desjejum fornecido, sendo que os lanches se intercalam entre pão com margarina e chá com bolachas). Ao ver que havia algumas crianças que não estavam na mesa, a cuidadora ameaçou deixá-las sem café. Logo após, as crianças se sentaram no pátio, pois a cuidadora indicara que era hora de brincar e ali era o local para tal. Fiquei ao lado da cuidadora, pois esta conversava comigo enquanto eu observava as crianças, me dizendo que estava muito cansada e com dor nas costas. Mais ou menos às dez da manhã todos foram chamados para o almoço, onde foi servido macarrão em pratos coloridos de plástico. Com as crianças almoçando, a cuidadora perguntou se eu podia ‘dar uma olhadinha’ enquanto ela iria fazer as camas lá dentro. Fiquei com os abrigados no refeitório, estavam todos comendo bem entretidos e falando alto. Uma das meninas olhou pra mim e perguntou se eu não queria comer, respondi que não estava com fome ainda, ao que ela respondeu ‘nem eu’. Depois do almoço as crianças foram para a sala e ficaram assistindo um programa de humor na televisão. De novo fiquei sozinha com as crianças para que a cuidadora pudesse almoçar. Uma das meninas pediu para fazer uma trança no meu cabelo. Assim que a cuidadora chegou, ela mudou a televisão de canal e, sem avisar, colocou na novela da tarde, interrompendo a programação das crianças que ainda não tinha chegado ao fim (uma pequena violência). Às vezes uma ou outra pessoa conversava comigo sobre algum
assunto corriqueiro – “meu filme preferido é o da princesa” ou “não gosto de chuva” - mas a maioria estava prestando bastante atenção no programa, pois a cuidadora parece ser uma grande fã de novelas. Depois disso eles foram lanchar, indo todos novamente para refeitório na hora que a cuidadora chamou. Lá estavam conversando bastante, enquanto comiam bolacha e chá novamente, ao que riam e faziam piadinhas uns com os outros, até um dos meninos começar uma briga, fazendo com que a cuidadora ameaçasse tirar o lanche se eles não parassem, mas eles obedeceram. Após comerem a cuidadora disse que era hora de começar a tomar banho, pois já estava quase na hora de dormir (ainda era dia). Às cinco da tarde houve troca de turno e assumiu outra cuidadora para ficar com as crianças à noite. Quando a substituta chegou, a funcionaria que já estava antes se despediu dizendo ‘até que enfim você chegou, que demora!’. Antes de entrar a nova cuidadora ficou bastante tempo conversando comigo, sendo que havia me perguntado como estava indo o meu projeto. Já estava anoitecendo quando fui para dentro ver as crianças, que estavam fazendo os deveres escolares na mesa do refeitório. Na verdade, elas estavam muito mais conversando do que estudando. A cuidadora estava na cozinha fazendo o jantar e não havia ninguém com eles para ajudar. De vez em quando eles me perguntavam alguma questão, por exemplo, ‘qual a raiz de 9?’ ou então algum outro assunto que não fosse relacionado à escola, como ‘eu tenho uma blusa da mesma cor da sua’. De vez em quando a cuidadora passava cobrando ‘já terminou o dever meninada?’. Nisso se passou mais de uma hora, até que ficou pronto o jantar e as crianças foram para a cozinha. Na mesa foi servido galinhada. Depois do jantar, hora de ver novela, sendo que, ao fim desta, todos iriam dormir.
04/03/2011