5. Results – The Norwegian Computer Society
5.3. Prerequisites for Benefits Realization
A história da Academia teve início com Platão, por volta do ano 387 a.C., quando ele fundou nos jardins localizados aos arredores de Atenas, que outrora pertenceram ao herói grego Academo (Ἀkad mοj) – daí o nome Academia –, uma instituição onde se versava sobre
os diversos saberes daquela época, tais como: filosofia, geometria, música, dentre outros. Após a morte de Platão, em 347 a.C., a Academia foi assumida por Espeusipo, permanecendo este como seu dirigente até 338 a.C. Outros escolarcas passaram por ela, como Xenócrates (338-314 a.C.), Polêmon (314-269 a.C.) e Crates (269-264 a.C.). Entretanto, foi somente com Arcesilau que o germe do ceticismo parece ter se fixado na Academia, afastando-a cada vez mais da doutrina do seu mestre e fundador. O início desse período ficou conhecido como Academia média.
Os principais expoentes dessa fase foram Arcesilau e Carnéades. A crítica de Santo Agostinho ao ceticismo é direcionada a esse período da Academia. Os dois acadêmicos acima citados tiveram seus pensamentos expostos em Contra Academicos e foram mencionados várias vezes por Agostinho em sua obra, o que ressalta a importância dessa fase da Academia para esta pesquisa. A próxima fase da Academia é caracterizada por uma forte tendência dogmática e encontra em Filo de Larissa o seu mais ilustre representante.
Dessa forma, são reconhecidos os seguintes períodos na Academia de Platão: a antiga, a média e a nova Academia. Essa divisão pode ser encontrada nos antigos registros de Diógenes Laêrtius , que já utilizava o termo Academia média em seus escritos. É sobre Arcesilau que ele se refere na citação que se segue: “Com ele começa a academia média” (LAÊRTIOS, 2008, p. 118). Entretanto, Brochard (1959, p. 99, tradução nossa) aponta outras divisões:
Os antigos distinguem até cinco Academias: a de Platão, a de Arcesilau, a de Carnéades e de Clitômaco, a de Filo e de Cármide e a de Antíoco. Uma tradição mais autorizada, com a qual concordamos, distingue apenas duas: a Antiga e a Nova, a de Platão e aquela de Arcesilau59.
59 “Les anciens distinguaient parfois jusqu‟à cinq académiens :celle de Platon, celle d‟Arcésilas, celle de Carnéade et de Clitomaques, celle de Phillon et de Charmide, celle d‟Antiochusέ Une tradicion plus autorisée, a laquelle nous nous conformerons, n‟en distingue que deux : l‟Ancienne et la Nouvelle, celle de Platon, et celle d‟Arcésilas” (BROCHARD, 1959, p. 99).
Mondolfo, em alusão ao período em que a Academia teve como escolarca Arcesilau, diὐ: “Esta fase é chamada Nova Academia, ou também Média, por quem chama de Nova a posterior fase eclética”60 (MONDOLFO, 1959, p. 150, tradução nossa).
Como se percebe, as diversas fases pelas quais passou a Academia foram distinguidas ora por apenas antiga e nova Academia, ora por antiga, média e nova Academia. Essa distinção ou divisão fundamenta-se na visão de cada doxógrafo ou estudioso do ceticismo antigo em relação à doutrina prevalecente em cada período. Para efeito de metodologia e com o intuito de melhor enfatizar essas fases, relacionando cada uma a seus devidos representantes, optaremos pela divisão que nos parece mais adequada: antiga, média e nova Academia.
A primeira divisão, na citação apresentada por Brochard e Mondolfo, tem como base os registros de Sexto Empírico em suas Hipotiposis Pirrónicas e a segunda, o testemunho de Cícero em De Oratore. Outras divergências podem ser percebidas quando se refere às fontes disponíveis do ceticismo. Jean-Paul Dumont (1986)61 assegura que Cícero, por não conhecer o termo grego sk ptikoj (skeptikos), não poderia interpretar corretamente o ceticismo. Essa talvez seja uma das causas para justificar as diferenças de pensamento entre essas duas fontes e o porquê de a crítica de Agostinho não se aplicar ao ceticismo encontrado nos registros de Sexto Empírico.
O problema consiste no fato de que Cícero, excetuando o conceito do provável, em certos momentos, confere aos acadêmicos um pensamento muito mais próximo do Pirronismo do que da Academia média62: “De minha parte, aliás, certo como estou de que existe algo que pode ser compreendido (tenho defendido esse ponto já há muito tempo), estou ainda mais seguro de que o homem sábio nunca mantém uma opinião, isto é, nunca assente uma coisa que seja falsa ou desconhecida” (CICERO, 1967, pέ 542, tradução nossa).
Ora, afirmar que o sábio não deve formar uma opinião a favor das coisas não seria um pensamento muito próximo daquele adotado pelo pirronismo? Isso não acabaria, inevitavelmente, deslocando a crítica de Agostinho do ceticismo acadêmico para o pirrônico? Isso não seria, ainda como diz Dumont (1986), qualificar os céticos como filósofos que não afirmam nada?
Fato é que parece haver uma semelhança considerável entre essas duas escolas. O tema em questão já estava presente na obra de Aulo Gélio (2010, p. 378):
60 Esta fase llamada nueva Academia, o también media, por quien llama nueva a la posterior fase ecléctica. 61 Cf.: Artigo “Scepticism”. Tradução de Jaimir Conte. Encyclopædia Universalis, Paris, s. d., v. 14, p. 719-723. 62 Mihi porro non tam certum est esse aliquid quod comprendi possit (de quo iam nimium etiam diu disputo)
Velha porém é a questão, e por muitos escritores gregos tratada: se acaso alguma diferença haja, e quanto, entre os filósofos pirrôneos e os acadêmicos. Uns e outros com efeito skeptikoi, efektikoi, aporetikoi são ditos, porque uns e outros nada afirmam e pensam nada ser compreendido.
Esta citação, datada do século II a.C., confirma o pensamento de Santo Agostinho em
Contra Academicos de que os céticos acadêmicos nada podem afirmar: “Os Acadêmicos sustentam duas cosias [...] nada se pode conhecer e não se deve dar assentimento a nada” (AGOSTINHO, 2008. p. 121). Em continuidade, o nosso compendiador latino encerra o parágrafo cinco do livro XI de Noites Áticas com uma nota esclarecedora:
Embora isso então de modo todo semelhante tanto os pirrôneos digam quanto os acadêmicos, eles foram considerados que diferem todavia entre si, tanto por causa de outras coisas como até principalmente porque os acadêmicos ao menos compreendem isso mesmo, que nada pode ser compreendido, e decidem por assim dizer que nada pode ser decidido; os pirrôneos nem sequer isso de alguma maneira por verdadeiro dizem parecer, porque nada parece ser verdadeiro (GÉLIO, 2010, p. 379).
O que a citação tenta explicar é que tanto os acadêmicos quanto os Pirrônicos aceitam o fato de que nada pode ser compreendido. No entanto, se examinarmos a asserção do ponto de vista lógico, nela encontraremos uma proposição verdadeira. É com base nessa verdade que os acadêmicos decidem que nada pode ser decidido, o que não ocorre com os pirrônicos. Segue, no próximo parágrafo, a demonstração lógica dessa citação.
Primeiramente, vamos extrair da citação a proposição que consideramos o núcleo do argumento, que vai diferenciar os acadêmicos dos pirrônicos: “nada pode ser compreendido e nada pode ser decido”έ Agora, se dividirmos esse argumento em duas sentenças, teremos uma primeira sentença, que chamaremos de “p”, e uma segunda sentença, que chamaremos de “q”έ Dessa forma:
p: nada pode ser compreendido q: nada pode ser decidido Onde,
p q: nada pode ser compreendido e nada pode ser decidoέ
Analisando “q”, teremos que esta só será verdadeira (V) se, e somente se, “p” for verdadeira (V), daí extrairíamos a seguinte fórmula: (q) = V ↔ (p) = V ou, dito de outro modo: para que (q) seja V, é necessário que (p) seja V. Consequentemente, a proposição conjuntiva (p q) seguirá a mesma linha de raciocínio, ou seja, (p q) só será verdadeira (V) se, e somente se, “p” for verdadeira (V)έ Da mesma maneira, teremos então a seguinte fórmula: (p q) = V↔ (p) = V, da qual segue sua textualiὐação: para que a matriὐ (p q) seja V, é necessário que (p) seja V.
Ora, os acadêmicos aceitam que (p) = V e, portanto, (q). Os pirrônicos negam até mesmo a verdade da proposição: “nada possa ser compreendido”έ Em outras palavras, negam que (p) = V, muito embora eles assim procedam.
Essa é a distinção básica entre pirrônicos e acadêmicos que encontramos na citação de Aulo Gélio e que foi demonstrada por meio do cálculo sentencial. Essa demonstração serviu para fundamentar a análise do argumento apresentado pelo referido filósofo e, assim, decidirmos com maior propriedade sobre a sua veracidade.
Outra distinção bastante significativa e elucidativa quanto a essa questão encontramos em Brochard. Os limites que separam o ceticismo acadêmico do pirronismo ou do ceticismo antigo, como também é chamado, estão assim descritos:
Além disso, os pirrônicos se limitam a dizer que a verdade não foi encontrada: eles não dizem que é inacessível; não desesperam em vê-la um dia descoberta; eles a buscam; são zetéticos. Arcesilau acredita que a verdade não somente não foi
descoberta, mas que não pode ser, e a razão que ele dá é que não há representação
verdadeira [elas] são tais que não se possa encontrar uma falsa absolutamente semelhante (BROCHARD, 1959, p. 97, tradução e grifo nossos)63.
O fato de a Academia, conforme Brochard (1959), negar a possibilidade de se encontrar a verdade foi fator preponderante na construção da crítica agostiniana ao ceticismo. Isso pode ser percebido ao longo de todo o segundo livro do Contra Academicos, no qual Santo Agostinho problematiza a razão pela qual alguém se enveredaria na busca de algo sem que nunca tivesse a pretensão de encontrar esse algo. Nisso consiste a filosofia do cético acadêmico, ir em busca da verdade, mesmo sem pretender encontrá-la. Esse problema será pormenorizado no terceiro capítulo desta pesquisa.
Esclarecida a distinção entre o ceticismo desenvolvido na Academia e aquele que teve início com Pirro, passemos então à Academia Antiga, com a finalidade de compreender melhor a origem dessa fase do ceticismo que deu início à tradição acadêmica.