3.2 Preparing and Combining Data Sets
3.2.3 Preparation of Imports Data Set
Segundo Isaksen e Roper (2008), as pessoas consomem com a finalidade de preencher ou disfarçar aspectos relacionados às suas características pessoais. Por se tratar de uma pesquisa realizada com crianças pobres, procuramos identificar junto aos responsáveis se as mesmas consumiam produtos caros para disfarçar sua condição econômica. Nessa categoria as crianças foram questionadas pela compra de produtos que as deixavam feliz, esse último também um aspecto de auto realização.
Ao longo das entrevistas, as crianças relatavam a compra de itens que as deixaram feliz, as mesmas não explicavam o valor monetário dos produtos.
Sim, eu comprei uma casinha cheia de comidinha e uma bonequinha, foi ano passado que eu comprei no dia das crianças, eu ganhei de presente do meu pai. Eu levei pra escola e as meninas ficaram perguntando quem me deu e ficaram falando que queriam ter uma iguala a minha, eu fiz sucesso (risos) (C04).
Já, foi uma boneca que eu queria muito eu pedi para a mamãe, ela comprou [...] mas ela (mãe) me explicou os preços e se eu vejo que é uma coisa cara eu não peço porque sei que ela não vai ter dinheiro para comprar (C07).
Sim, meu tablet porque eu sempre queria um aí quando chegou o dia que meu pai comprou eu fiquei bem feliz (C11).
... teve um carrinho que minha avó comprou para mim, eu gosto muito de brincar
com ele, quando ela me deu eu fiquei muito feliz (C13).
...a bicicleta, eu vi uma amiga minha e pedi a minha mãe aí ela disse que ia comprar
quando tivesse o dinheiro aí quando ela teve ela foi na loja e comprou [...] fiquei
muito feliz (C14).
Mesmo não sendo questionado quanto ao preço dos itens de consumo algumas crianças explicam que realizaram compras de itens caros, como tablet e celular (Crianças 08, 16, 20) dentre outros.
...caro foi minha boneca das Chiquititas, eu sempre vejo a novela e eu vi passando a boneca e fiquei com vontade e pedi a minha mãe aí ela comprou no meu
aniversário (C17).
Caro mesmo foi uma boneca que ganhe de minha mãe, ela é linda (risos) (C18). ...teve um celular [...] eu levei para a escola e meus viram e disseram que queriam
Outras crianças expressavam o desejo em consumir produtos caros em relação à renda familiar, como as crianças 01 e 06, com destaque a fala da Criança 15, “pedi um tablet, mas
era caro, eu vi na loja do centro e tive vontade de comprar aí ela (Responsável 15) disse que
não tinha condições não, aí eu peguei e me conformei [...] achei triste [choro]... depois passou (C15). “... as vezes eu não peço porque sei que é caro [...] já tive vontade de comprar a casa da ‘poli’” (C23).
Mais uma vez a Criança 16 expressa na entrevista uma realidade que não está de acordo com a que vive quando conta que realizou compras de itens caros “foi o tablet e a bicicleta que
eu ganhei no meu aniversário eu fiquei muito feliz” (C16), em nem um momento da entrevista a criança demostrou viver privações de consumo e alega que tudo o que ela deseja comprar, ela já tem. A mãe da criança (Responsável 16) também negou a compra desses produtos. Com isso, a pesquisadora pediu autorização a criança para que pudesse ver os brinquedos, a criança disse que já não os tinha mais, a bicicleta foi vendida e o tablet estava emprestado a uma amiga.
As crianças não foram questionadas em relação ao entendimento de preço por não se tratar do objetivo desse estudo, os responsáveis que apontaram diversos produtos considerados caros por eles. Os responsáveis 01, 10 e 21 citaram o celular como um item caro que seus filhos haviam pedido e que não realizaram a compra. Muitas vezes em decorrência da renda familiar as crianças não têm seus desejos atendidos, a fala dos responsáveis 03, 05 e 13 mostra essa realidade.
...não, compro não, eu comprava, agora não compro mais, porque os brinquedos que
ela pede são todos caros, esses dias ela me pediu uma boneca (baby life) que custava 300,00 reais, ela é assim quando pedi brinquedo é tudo caro, aí eu acabo não
comprando (R03).
...ela (Criança 05) pediu uma vez uma cozinha da barbie só que eu disse que não podia comprar, era caro na hora ela ficou triste, mas depois foi passando (R05). ...ele (Criança 13) pediu uma bicicleta, ele esquece as outras coisas, mas a bicicleta ele sempre fica pedindo e tem outra coisa que ele quer muito também que é um tablet,
essas duas coisas que ele sempre pede muito, aí ele diz que o tablet não é caro, mas
eu explico a ele que não é caro pra quem tem dinheiro pra eu que não tenho é caro
sim, mas depois ele se aquieta (R13).
Os demais entrevistados responsáveis pelas crianças (responsáveis 06, 15, 17, 20) citaram itens como: boneco, carrinhos, bonecas da Barbie, bicicleta e vídeo game, as
respondentes ainda relatam os esforços desempenhados para que pudessem atender aos apelos das crianças.
...o vídeo game, eu comprei a vista, fiquei apertada, mas juntei o dinheiro para
comprar, a gente faz qualquer coisa pelos filhos [...] (R02).
...teve uma boneca que eu comprei pra ela, não foi essa que eu te falei que ela está pedindo não, foi outra, mas essa que eu comprei também foi bem cara, mas eu comprei e tive que dividir no cartão, passei vários meses pagando, quando eu comprei eu não estava nem podendo comprar, me apertei, dividi e comprei (R03). ...o dinheiro é pouco, aí pra comprar o celular eu tive que parcelar em doze vezes porque eu comprei pra dar de presente de aniversário a ela (Criança 4), [...] aí no mês que eu comprei eu estava muito apertada (R04).
Pra comprar o tablet dela eu tive que parcelar né, porque para comprar à vista eu não tinha como, aí eu comprei parcelado e ainda tô pagando (R08).
...ele (Criança 19) pediu um boneco uma vez que foi 54,00 reais eu comprei
parcelado no cartão, mas comprei, deu pra comprar, mas outras coisas como celular,
aí eu digo que não tem como comprar (R19).
Diante das falas citadas podemos ver os esforços que os responsáveis desempenham para atender aos pedidos das crianças, comprometendo a renda da família com meses de parcelamento para a compra de brinquedos, bicicletas, vídeo game, celulares dentre outros produtos citados. Em contexto de pobreza as pessoas tendem a realizar compras com o intuito de esconder sua condição social, segundo Jaiswal e Gupta (2015). Ou seja, realizam um consumo compensatório, usando o comportamento de compra como um meio alternativo de cumprimento de suas necessidades, desejos ou falta. Em contexto de pobreza, esse desejo de consumo ocorre geralmente por itens caros para esconder sua condição, e ainda para amenizar suas tensões de estados psicológicos negativos, explicam os autores.