O contexto da nova fase da agricultura brasileira expressa a hegemonia do capital através da expansão do seu modelo de dominação denominado de agronegócio. À medida que esse modelo de desenvolvimento do capitalismo se expande para o campo, ampliam-se as consequências da questão agrária sobre a agricultura e as perspectivas de sobrevivência no campo.
Compreende-se que a expansão do agronegócio na atualidade é uma continuação das estratégias de expansão do capital, ampliando a pobreza e a desigualdade peculiares a esse modelo. “Quando se territorializa o capital, no caso específico, os capitais do agronegócio, se territorializa a relação de exploração do capital sobre o trabalho, porque essa é condição precípua do desenvolvimento da acumulação capitalista.” (CAMPOS, 2011, p.185).
A exploração do trabalho e as diversas formas de apropriação e expropriação da terra vão dando contorno histórico à questão agrária e suas diversas expressões na atualidade. Para Marx (2008) o monopólio da propriedade da terra é pressuposto histórico e base do modo capitalista de produção, dessa forma, transforma e subordina a agricultura, adequando-a aos moldes da propriedade privada.
As questões relativas à posse e propriedade da terra marcam a trajetória da sociedade brasileira e, somadas às perspectivas de desenvolvimento para o campo em períodos históricos diferentes, formam um quadro complexo que vem delineando a questão agrária na atualidade.
O agronegócio e toda sua construção ideológica são fruto de uma trajetória econômica e social que centraliza as perspectivas de desenvolvimento do campo brasileiro em torno da produção para a exportação. A “modernidade do agronegócio” aprofunda as estratégias do modelo agroexportador, presente na sociedade desde a colonização portuguesa.
A atualidade é polarizada entre as perspectivas de desenvolvimento do agronegócio, defendida pelo Estado e pelos latifundiários e a perspectiva da agricultura familiar defendida pelos movimentos sociais do campo.
A síntese histórica desses processos é a permanência de uma sociedade que, sob a hegemonia do modo capitalista de produção, concentra terras, se apropria das riquezas naturais e aprofunda a exploração do trabalhador.
A voracidade com que o capital se expande na Região Amazônica atende às determinações estruturais do capital. As consequências da ocupação do espaço amazônico e das diferentes perspectivas de “desenvolvimento” se expressam na concentração das terras, na expansão da monocultura com seus diversos impactos ambientais, nos processos migratórios e na expansão da pobreza da sua população.
Parte do Maranhão fica localizada na Amazônia oriental sendo, portanto, inserida no contexto de desenvolvimento dos grandes projetos que impactam a realidade da região e reconfiguram relações sociais, econômicas e políticas.
A Região Tocantina é situada no Sudoeste do Maranhão, sua ocupação se deu a partir da expansão das fronteiras agrícolas e da pecuária no estado. Essa expansão impulsiona o avanço da apropriação privada de grandes extensões de terras, e num processo inverso, expulsa centenas de sujeitos da posse e propriedade da terra.
A empresa Suzano insere-se nesse contexto de expansão dos grandes projetos, tendo como eixo articulador do seu discurso a preservação ambiental pelo uso do reflorestamento com a plantação de eucaliptos. No entanto, a realidade vem demonstrando que sua principal consequência é a concentração de terras e apropriação dos recursos naturais.
De acordo com Brandão (2010) esses processos de acumulação, característicos do capitalismo são “...determinantes de padrões fundiários de acesso a direitos perversos e excludentes, destituidores de amplas massas humanas dos círculos de poder, propriedade e riqueza. (p. 51).
Buscou-se dimensionar a concentração fundiária efetivada pela Suzano na Região Tocantina, tendo como parâmetro a meta de aquisição de 173 mil hectares de terras para plantação das florestas homogêneas de eucalipto.
Por intermédio da pesquisa documental realizada através das solicitações de licenciamento ambiental, identificou-se que já foram adquiridos mais de 148 mil
hectares de terras, comprados principalmente de pequenos e médios proprietários, o que demonstra o processo de reconcentração fundiária que vem sendo realizado pela empresa. Essa informação não leva em consideração as ações de arrendamento de terras e de fomento, pois não se conseguiu informações sobre elas.
Essas propriedades foram identificadas em 24 municípios da área de abrangência da empresa e sabe-se que onde o agronegócio se instala, também avançam as conflitualidades derivadas do seu modelo de desenvolvimento que amplia as contradições sociais.
O estudo realizado buscou compreender como esse processo de concentração fundiária, centrado no plantio de florestas homogêneas de eucalipto impacta o cotidiano do assentamento Califórnia e a Vila Sudelândia.
Frutos da luta pela terra conduzida pelo MST na região, esses assentamentos representam um modelo de produção da agricultura familiar, porém, têm o seu território cercado por amplas plantações de eucalipto desde o ano de 1997.
Esse cerco do agronegócio impacta diretamente as condições de vida das famílias assentadas. A primeira consideração necessária sobre essa realidade refere-se ao cotidiano das famílias em seu lócus de moradia e produção, localizadas na fronteiras da plantação de eucalipto, tendo que conviver com o uso intenso de defensivos agrícolas e com a poeira intensa, no caso da Vila Sudelândia.
Nesse sentido é que se considera que a simples permanência no assentamento, já se configura uma estratégia de resistência nesse confronto com o agronegócio, tendo em vista que as duas vilas já passaram por muitos problemas em função dessa proximidade com as terras da empresa.
As famílias sofrem influência direta em seus processos produtivos da implantação do empreendimento da Suzano, as lideranças apontam que há uma perda da produtividade e apontam como causa principal o uso dos defensivos agrícolas nas plantações de eucalipto.
A Suzano utiliza mão de obra de assentados e agregados através da contratação de empresas terceirizadas sendo as funções assumidas pelos
trabalhadores as que exigem menor qualificação e remuneração.
A ampla propagação, por parte da empresa, de que desenvolve projetos sociais nas áreas impactadas pelos seus empreendimentos, não vem encontrando eco nos assentamentos estudados. Na pesquisa de campo identificou-se apenas a doação de uma biblioteca para o assentamento Califórnia, construída em parceria com a prefeitura municipal de Açailândia.
A organização atual dos assentamentos estudados vem sofrendo um descenso nos últimos anos, o que tem prejudicado a identidade coletiva com as lutas sociais mais amplas, mas não encontramos maiores indícios de cooptação frente às ações da empresa.
Esse fato é fruto do decurso histórico e das relações políticas estabelecidas, assim, o assentamento Califórnia que sempre esteve vinculado ao MST, assiste ao avanço do agronegócio a partir de um pensar crítico, no entanto, não vem desenvolvendo lutas concretas de enfrentamento.
Os sujeitos da Vila Sudelândia passaram vários anos sofrendo as consequências dessa convivência com os projetos de reflorestamento. A inauguração da empresa e início da extração da madeira agravou os impactos e eles iniciaram um confronto mais direto com a empresa através das mobilizações.
Em que pese toda essa situação complexa derivada do cerco do agronegócio a esses sujeitos políticos, há que se enfatizar que a história é um permanente processo de transformação e, como tal, é recheada de possibilidades e por que não dizer, de desafios e esperanças que dependem dos seres humanos para seguir rumo à construção de perspectivas emancipatórias.
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