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Quando os veículos de comunicação trouxeram, a partir de 26 de março de 1960, a notícia do arrombamento do açude, junto com ela, nas páginas dos periódicos, nos documentos oficiais e nas paisagens das memórias, um novo registro passou a ser criado. Ali surgiria também outra temporalidade, marcada por um rio que já não se deixaria dominar e outro espaço, que descreveria uma região cujo cenário fora profundamente modificado.

Fruto das águas embarreiradas do parcialmente domado Rio Jaguaribe, a barragem de Orós entrava para a história antes mesmo de ser inaugurada e de proporcionar os frutos prometidos. O açude marcaria as páginas dos livros de história ―à concreto e água‖, já pelas causas. Ou melhor, pelo que ocasionara. Nesse capítulo trataremos do que veio logo após os primeiros momentos da enchente passando pela inauguração do açude em janeiro de 1961 e o processo de afirmação da barragem nos anos subsequentes.

Os acontecimentos posteriores à data do arrombamento do açude são de variados tipos, intenções, matizes, cores e, portanto, são inúmeros. Além da percepção do tempo, mudaram também as formas de sentir o rio e o açude. Para entender tais características, vamos dialogar com os vestígios que resistiram até o tempo dessa pesquisa tais como jornais da época, diversos discursos parlamentares, registros oficiais feitos pelo DNOCS, o trabalho do professor Pedro Sisnando e as memórias dos entrevistados dessa pesquisa, transformadas em narrativas, a partir da nossa contribuição.

Configurou-se assim, um grande desafio: selecionar as fontes que seriam utilizadas em cada capítulo e promover o diálogo entre elas. No jogo dialético existente entre a comprovação e a contradição, emergiu a história possível, construída a partir das escolhas e do caminho metodológico tomado. Durante a pesquisa, selecionamos oito escritos de Adísia Sá publicados no Jornal Gazeta de Notícias, entre os dias 26 de março e 06 de abril de 1960, na coluna Canto de Página.63Dessa forma, tomamos as temáticas apresentadas nos escritos como uma matriz discursiva das informações tratadas e destacadas pela imprensa no período.

63 Jornalista, radialista e professora, Maria Adísia Barros de Sá, nasceu em Cariré-Ce em 1929 e iniciou sua trajetória no jornalismo impresso no jornal Gazeta de Notícias no ano de 1955. À época, numa profissão dominada predominantemente por homens, Adísia atou como redatora e revisora na oficina do referido jornal, localizado à Rua Clarindo de Queiroz, no centro de Fortaleza. Depois de editorar seu próprio jornal e de escrever o jornal do centro acadêmico da faculdade de filosofia, embrenhou-se na redação da Gazeta de Notícias, onde passou a escrever uma coluna diária no periódico chamada Canto de Página. Durante dois anos, Adísia escreveu sob o pseudônimo de Moema. Até que, um dia, o jornal abriu seleção de uma vaga para a redação. Não houve procura. Não se inscreveram candidatos. Redatores e companheiros da oficina indicaram o nome de Adísia para o diretor da casa, o jornalista Dorian Sampaio, que a efetivou.

Os escritos abordaram a tragédia do arrombamento do açude, a busca pelos culpados, os responsáveis pelo arrombamento, passando pelas campanhas humanitárias de arrecadação de donativos e o processo de aproveitamento político das mesmas, enfatizando a exploração e a demagogia que envolvia o tema, o papel do exército nesse contexto e, por fim, as diversas faces do projeto de reconstrução do açude e da região. Assim, conforme veremos a seguir, há na imprensa – e também nos relatórios oficiais e nos discursos dos parlamentares, um certo caminho narrativo que nos ajuda a estudar e compreender os fatos ocorridos a partir do dia seguinte ao arrombamento do Orós. Aqui, cada uma dessas temáticas figurará em tópicos desse capítulo.

Por fim, devemos dizer que os testemunhos do dia seguinte ao evento ocorrido no açude, seja eles escritos ou falados, guardam uma estrutura sentimental regida pelo medo. Os personagens enxergados a partir de então, para além do temor da morte, veem no Orós, a prova de que tinham muito a temer o imponderável e o incontrolável mundo natural.

O medo, gerado pela incerteza, conduz o capítulo. Nos tópicos a seguir, entremeado por esse sentimento, passaremos a conhecer o rio Jaguaribe já modificado pela técnica, ou seja, ―pinçado‖ por um Orós colapsado, antes mesmo de ser finalizado.

De fato, não se mergulha duas vezes no mesmo rio, parafraseando Heráclito de Éfeso.

4.1. O dia seguinte.

Há duas coisas que são verdadeiras ao mesmo tempo para todos os homens: o perigo do qual surge o nosso medo e a necessidade de nos proteger desse perigo. A vida humana é construída entre o medo e a segurança.

Jean Delumeau, Entrevista, 2004.

O texto a seguir foi publicado na Gazeta de Notícias, no dia 26 de março de 1960, sábado em que ocorreu o rompimento do açude Orós. Nele, Adísia Sá escreve sobre o que seria o sentimento da população cearense sobre o ocorrido.

A tragédia de Orós

Que forças estranhas levaram o cearense, por mais de sessenta anos, a alimentar o sonho do Orós? O que levou mais de duas gerações a este ideal, se agora, como monstro alimentado no seio da própria natureza e com sangue dos homens, o Orós

representa miséria, tragédia, calamidade, desgraça e destruição?

Nunca um ponto convergiu, incondicionalmente, o povo como o grande reservatório da zonas jaguaribana, sendo uma constante na alma coletiva do cearense - lutando, trabalhando, brigando, gritando pela construção de seu açude!

Jamais um pensamento aglutinou os esforços de uma comunidade, como o Orós, tido como a grande esperança do Ceará, a sua salvação, o sua grandeza, o seu futuro.

E, para que tudo isto, se agora - como uma besta apocalíptica - escancara suas

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