A literatura científica contém algumas divergências quanto ao momento a que é atribuído o nascimento da Psicologia do Desporto. Cruz (1996; 1997), Mora, García, Toro e Zarco (2000), Morris e Summers (1995) e Raposo (1996) situam a génese da Psicologia do Desporto num estudo clássico desenvolvido por Triplett, em 1897, cuja temática investigada foi a facilitação social do rendimento em provas de ciclismo.
Por outro lado, Biddle (1997) e Salmela (1992), observam que outros autores realizaram importantes trabalhos enquadráveis na área da Psicologia do Desporto a montante do estudo de Triplett, avançando com exemplos como os efeitos da hipnose na resistência muscular, a psicologia da calistenia, entre outros. Feige (1977) adita a estes estudos, outro, que considera de referência, desenvolvido na Alemanha por Schultze em 1897. Por seu lado, Gould e Pick (1995) alertam que Grifith, psicólogo de formação académica, em 1918
desenvolveu uma série de observações informais aos factores psicológicos implicados no basquetebol e no futebol, iniciando uma relevante corrente de investigação.
Brito (2009) e Fonseca (2001), situam, igualmente, o surgimento da Psicologia do Desporto no final do século XIX e princípios do século XX (1890-1930). Brito (2009) assinala que os primeiros estudos desenvolveram-se na Rússia, na Alemanha, nos Estados Unidos e no Japão.
Não menosprezando as posições apresentadas, Serpa (1995) considera que o grande impulsionador da Psicologia do Desporto foi Pierre de Coubertin, por ter patrocinado em 1913 o ”Congresso Internacional de Psicologia do Desporto” onde foi autor de uma prelecção intitulada: “Ensaios de Psicologia Desportiva”.
Independentemente da relativa controvérsia que pode envolver a determinação de qual foi exactamente o estudo pioneiro sobre os factores psicológicos em contextos desportivos, parece não subsistir quaisquer dúvidas que a Psicologia do Desporto é centenária.
Féliu (1991) sugere a realização de uma divisão histórica em quatro fases, sendo que essa periodização norteia-se por três critérios: a) docência académica formada e a investigação realizada; b) literatura publicada; c) formação de associações de Psicologia do Desporto e consequente organização de actividades. Assim, Féliu (1991) apresenta os seguintes quatro períodos:
1º As “raízes” da Psicologia do Desporto na Psicologia Experimental (1879 – 1919); 2º Antecedentes imediatos da Psicologia do Desporto (1920 – 1945);
3º Investigações realizadas sobre aprendizagem motora e desenvolvimento da Psicologia do Desporto Aplicada (1946 - 1964);
4º Reconhecimento oficial da Psicologia do Desporto como um novo âmbito de aplicação da Psicologia Geral (1965 – até à presente época).
Por sua vez, em função da evolução das tendências de investigação a nível internacional da Psicologia do Desporto, Brito (1996a) sugere nove momentos:
1º Os percursores (1820 – 1920) 2º As fases preparatórias (1920 – 1945)
3º A primeira etapa de desenvolvimento (1946 – 1965); 4º O princípio da autonomia (1966-1977); 5º A nova era (1978 – 1981); 6º Definição originalidade (1982 – 1985); 7º A especialização (1986 – 1987); 8º A “excelência” (1988 – 1990); 9º A confirmação (1991 – 1995)
Já Feige (1977) assinala a existência de duas grandes etapas diferenciadoras do desenvolvimento e afirmação da Psicologia do Desporto. O primeiro período em que os teóricos da Psicologia Geral não perspectivavam o desporto como objecto que justificasse o
desenvolvimento de estudos científicos. Nesta época, os investigadores pioneiros da Psicologia do Desporto estavam ligados às faculdades de Educação Física e Desporto. Os trabalhos científicos dedicavam-se sobretudo ao estudo da personalidade, da motivação e dos factores psicomotores.
Segundo Serpa (1993) o final deste primeiro período é caracterizado por um aprofundamento e uma maior sistematização da investigação, pela publicação de trabalhos e pela leccionação da Psicologia do Desporto. Brito (2009) e Serpa (1993) consideram que a intervenção no “terreno” ganhou espaço, sobretudo nos países, outrora designados pela Europa de Leste e Rússia. Morris e Summers (1995) referem, mesmo, que não se sabe actualmente se grande parte do sucesso desportivo alcançado por aqueles países não terá sido, sobretudo, devido ao desenvolvimento e utilização de técnicas relacionadas com a Psicologia do Desporto e menos aos seus massivos programas de selecção e detecção de talentos.
Nesta linha de entendimento, Vanek e Cratty (1970) asseveram que nos países de Leste a maior incidência era dada à preparação psicológica do desportista com o propósito de alcançar a mestria e performances de excelência. Estes autores, consideram, ainda, que a preparação dos atletas era realizada em função das necessidades específicas de cada desportista, das exigências psicológicas de cada desporto e competição. Mais, na óptica de Mora et al. (2000), a Psicologia do Desporto era o grande segredo da preparação desportiva dos atletas dos antigos países comunistas.
O interesse dos estudos sobre as características da personalidade dos atletas e respectivo impacto nos seus comportamentos que até então dominavam as investigações neste domínio, começou a declinar a partir da década de 70, muito em função do facto dos psicólogos terem progressivamente passado a adoptar uma abordagem ou paradigma interactivo, de acordo com o qual não só eram contemplados os mecanismos mais internos dos indivíduos, mas também, o efeito neles exercido pelos contextos em que se encontravam envolvidos (Williams & Straub, 1998).
No entender de Serpa (1993) a evolução da Psicologia do Desporto perpassa por três fases:
1ª Observação, descrição e explicação dos factores psicológicos subjacentes ao comportamento motor;
2ª Predição e controlo do rendimento desportivo 3º Optimização do rendimento desportivo
Embora a evolução da Psicologia do Desporto tenha estado sempre bastante dependente da comunidade norte-americana, progressivamente tem-se assistido ao aumento do interesse por esta temática noutros países (Fonseca, 2001). Por exemplo, Salmela (1992) salientou que de aproximadamente 1300 indivíduos interessados e activos na Psicologia do Desporto em 39 países distintos, que calculava existirem em 1981, se passou para mais do
dobro em 1990, altura em que estimava existirem já mais de 2700, distribuídos por 61 países. Actualmente, como seria de esperar, os números são substancialmente mais elevados.
Em jeito de síntese parcelar, não existe uma tipologia universalmente aceite no que se reporta à sistematização da evolução da Psicologia do Desporto, nem tão-pouco no que se reporta ao estudo precursor desta área. Porém, torna-se evidente que a Psicologia do Desporto tem um percurso histórico “robusto”, constituído por várias etapas e com áreas de estudo diversificadas.
Neste particular, Araújo (2002) advoga que a elevada proliferação de diferentes áreas de trabalho no âmbito da Psicologia do Desporto é um convite para diversificar as temáticas específicas em estudo, sem que alguma delas deixe de ser pertinente. Tal situação é, em parte, responsável pela apresentação de diferentes sistematizações do percurso da Psicologia do Desporto. Contudo, é perfeitamente possível integrar as diferentes etapas aduzidas pelos vários autores referenciados, tornando-se possível identificar denominadores comuns no percurso evolutivo da Psicologia do Desporto (e.g., descrever, compreender e explicar os factores psicológicos subjacentes ao comportamento motor com o propósito final de potenciar o rendimento desportivo dos praticantes/equipas,…). Para além do referido por Araújo (2002), julgamos que estas divergências em termos da apresentação do percurso histórico da Psicologia do Desporto, decorre, igualmente, de estarmos perante uma análise mais fina ou mais generalista da evolução deste domínio científico (mais do que propriamente uma dissonância em termos da sequência de conteúdos abordados).
Parece-nos ser seguro afirmar que independentemente da relativa controvérsia que pode envolver a determinação de qual foi exactamente o primeiro estudo sobre os factores psicológicos em contextos desportivos, não subsistem grandes dúvidas relativamente à evolução que se verificou neste domínio ao longo dos anos. O que faz com que Fonseca (2001) considere que a Psicologia do Desporto é uma Ciência recente, mas com “raízes” antigas.
Progressivamente, foi acontecendo uma evolução mais diferenciada nos centros de interesse da Psicologia do Desporto. Hoje, assiste-se cada vez mais a uma pulverização dos centros de interesse e investigação nesta área. As temáticas em estudo foram aumentando e diversificando-se tal como já pudemos constatar. No entendimento de Brito (2009) e Weinberg e Gould (2011a) esta característica parece tender a manter-se nos próximos tempos.