O olho humano possui a capacidade de formar uma imagem nítida na retina, através da convergência dos raios luminosos que passam pela pupila. Se os raios de luz, devido a irregularidades nas superfícies óticas não convergirem para um mesmo ponto, estamos na presença de aberrações do sistema ótico do olho (aberração ocular).70 A aberração juntamente
com dispersão e difração ocular limitam a capacidade de o olho formar uma imagem nítida e diminuem a qualidade e performance visual.70,71
Dentro da aberração monocromática (medida para um único comprimento de onda) existe a aberração esférica, o coma, o astigmatismo obliquo, a curvatura do campo e a distorção. Matematicamente pode ser descrita através dos Polinómios de Zernike.70 A decomposição dos
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Polinómios de Zernike permite uma descrição aprofundada das propriedades óticas da córnea e dos componentes da aberração. Geralmente são representados numa pirâmide e, cada polinómio que a constitui descreve o modo de deformação da frente de onda e o seu coeficiente. Na pirâmide da Figura 1.10. os polinómios estão organizados por ordem crescente e por frequência azitumal, sendo que cada ordem pode ter um ou mais termos. Cada termo é representado pela ordem do polinómio (𝑛) e pela frequência azitumal (𝑚), ou seja, por 𝑍𝑛𝑚, expresso em mícrons (µm) ou unidades de comprimento de onda. O valor total da aberração da frente de onda é calculado através da raiz quadrada média (Root Mean Square -RMS), ou seja, pelo quadrado da soma dos quadrados de cada coeficiente de Zernike.70,71
Figura 1.10. Pirâmide dos polinómios de Zernike (1ª à 6ª ordem), com o nome, ordem e frequência correspondente. Adaptado de Specialistica, L. (2010)72.
As aberrações podem ainda ser divididas em aberrações de alta ordem (HOA) e em aberrações de baixa ordem (LOA). As aberrações de baixa ordem incluem as de ordem 0 até à 2º ordem. Neste intervalo está incluído o 1º polinómio (o pistão) de ordem zero, que não possui qualquer relevância clínica, em seguida na 1ª ordem estão os prismas (efeitos prismáticos horizontal e vertical) e, por último, na 2ª ordem estão os erros refrativos convencionais que podem ser oticamente corrigidos (desfocado e o astigmatismo). O desfocado e o astigmatismo são o tipo de aberração mais comum no olho. O grupo das aberrações de alta ordem (HOA) é constituído
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pelos polinómios a partir da 3ª ordem, ou seja, pelos polinómios trefoil horizontal e obliquo, o coma horizontal e o coma vertical e, da 4ª ordem fazem parte o tetrafoil horizontal e oblíquo, astigmatismo secundário vertical e horizontal e a aberração esférica. As aberrações de alta ordem (HOA) possuem uma pequena contribuição para a aberração total do olho.70,71,73
De acordo com Liu G. et al. (2017)74, a ortoqueratologia está associada a problemas visuais
como o encandeamento e halos, em alguns casos comprometem a qualidade visual e, como consequência, tornam o tratamento um insucesso. Estes fenómenos são descritos como sendo mais intensos no inicio do tratamento, decrescem com o consequente uso noturno das lentes no entanto, são permanentes durante o uso das LC de ortoqueratologia.75
A ortoqueratologia diminui a qualidade ótica retiniana através do aumento da aberração esférica positiva. Este aumento é mais percetível em condições de baixa iluminação e através do aumento do diâmetro pupilar.74 Faria-Ribeiro et al. (2016)76 indicam que o aumento da aberração
esférica positiva num paciente sem atraso acomodativo, provoca uma redução da qualidade da imagem retiniana. Este incremento faz com que o paciente não necessite de fazer um maior esforço acomodativo em tarefas de alto contraste.
De acordo com Sun et al. (2017)77, após os seis meses de tratamento ocorreu um aumento
da aberração esférica positiva e também da aberração comática. O incremento da aberração esférica positiva está associado à forma oblata da córnea após o tratamento, e a aberração comática com o descentramento da LC. Neste estudo o trefoil (Z9) não mostrou nenhuma diferença significativa, no entanto, Stillitano et al. (2008)78 após um ano de tratamento reportou
um aumento estatisticamente significativo do mesmo, do quadrafoil (Z14) e do astigmatismo secundário. Depois de uma noite deu-se a estabilização do polinómio trefoil (Z9) e do polinómio astigmatismo secundário (Z13) no entanto, o polinómio quadrafoil (Z14) estabilizou apenas nas trinta noites após o uso das LC.
A análise das aberrações de alta ordem resultantes do tratamento, é de extrema importância pois comprova as alterações que ocorrem na córnea e, por consequente na qualidade ótica do olho. Para que haja uma maior qualidade ótica, este tipo de aberração beneficia de um maior tamanho de pupila. A midríase provoca um incremento na magnitude da aberração esférica
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positiva e o desfocado provocado pela difração diminui, permitindo a formação de uma imagem nitida.79
1.5.1. Distorção Luminosa e Distúrbios Visuais Noturnos
Em condições de baixa iluminação, a performance visual do ser humano é afetada por distúrbios visuais. Num ambiente escotópico, através da dilatação da pupila a degradação da imagem torna-se mais significativa.80 Observar uma fonte pontual luminosa, como as luzes dos
carros durante a condução noturna ou os candeeiros que iluminam a estrada, são as principais queixas de distorção luminosa reportadas em ambientes de baixa iluminação. Os fenómenos fóticos são demonstrações da distorção de luz e na literatura são descritos como o glare, starburst, halos, visão desfocada, diplopia monocular, poliopia e desfocado.73 Os pacientes usuários de LC
de ortoqueratologia referem algumas limitações visuais a este nível.
Segundo Santolaria Sanz et al. (2015)75, o tratamento ortoqueratológico aumenta a
distorção luminosa, no entanto após uma semana os valores da distorção luminosa voltam para os valores da baseline, sugerindo a existência de uma adaptação neural capaz de superar a degradação da qualidade ótica. Em 2016, Santolaria Sanz et al.81 demonstraram que após um
mês de tratamento, a distorção luminosa volta a obter valores semelhantes aos iniciais. Passado um ano a distorção luminosa mantém-se constante.
1.5.2. Fenómenos fóticos: Glare, Starburst e Halos Luminosos
Na Figura 1.11. A) está representado o glare e, este está associado a uma fonte de luz brilhante e intensa originada por raios de luz dispersos. Este fenómeno fótico pode ser subdivivido em “Discomfort Glare” e em “Disability Glare”. O “Discomfort Glare” não origina alterações na performance visual sendo percebido como um desconforto, no entanto o “Disability Glare” provoca alterações na visão.73
O fenómeno starburst presente na Figura 1.11. B) trata-se de uma dispersão radial da luz, sendo na maioria das vezes reportado como uma estrela à volta da fonte luminosa. Usuários de óculos e/ou LC são afetados por este fenómeno fótico. A dispersão pode ser explicada no facto de a luz se difratar nas linhas de sutura do cristalino após entrar no olho.73
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Os halos luminosos evidenciados na Figura 1.11. C) são descritos como uma sombra circular à volta da fonte luminosa. Caracterizado por ser o fenómeno fótico mais reportado, logo a seguir ao glare. A sua formação está associada a aberrações corneais73, principalmente após
cirurgia refrativa, ortoqueratologia ou erros esféricos descompensados.
Figura 1.11. Imagem ilustrativas dos fenómenos fóticos: A) Glare, B) Starburst, C) Halos Luminosos. Adaptado de McAliden et al. (2010)82.