• No results found

Predictive method developed by the Japanese Tunnelling Society

2.4 State-of-the-art testing and estimation of abrasive wear for soft ground and soil TBM

2.4.6 Predictive method developed by the Japanese Tunnelling Society

Sobre a experiência de internação, os usuários têm inúmeros relatos. Abordam como se dá o cuidado nessa forma de tratamento da crise e a forma como se estabelecem as relações sociais durante o período de internação. Demonstram se tratar de evento traumático, com redução de seus aspectos humanos, com a ocorrência de diversas humilhações. A contenção mecânica é um fator determinante nessa percepção do serviço.

Eu já estive internado por várias vezes e pra mim foi muito traumático porque todas as vezes em que eu estive internado foi amarrado. Eu não tive nenhuma vez pra eu me internar, que eu estivesse na minha consciência, de apenas internar para tomar remédio. Foi sempre, assim, aquele sistema agressivo, que eu era obrigado a ficar amarrado. Então, quando eu acordava daquele surto, eu via que eu estava que nem um porco. Eu não me sentia um ser humano, eu me sentia um porco, porque eu estava amarrado ali naquele momento. Então, quer dizer, eu acho que tinha que ter uma forma de colocar a pessoa num ambiente em que ele não ficasse amarrado. A pior forma de você encontrar, principalmente quando os parentes vinham me visitar, a esposa às vezes veio me visitar e saiu daqui amargurada porque ela me encontrava amarrado e ela achava que não tinha mais um esposo, tinha um porco amarrado no quintal de alguém. (GF4)

Em outra fala, são destacadas atitudes de violência cometidas por servidores do hospital e a internação é comparada ao cumprimento de pena por crime. Também é apontada uma forma de denúncia adotada pela usuária para os casos de agressão.

Pra mim, aí é o inferno! Porque, [...] além deles amarrarem a gente, tem pessoas que não são preparadas pra tratar a gente bem aí. Tratando a gente muito mal. Enfermeiro é enfermeiro... e todos que me trataram mal, depois que eu já estava reagindo bem, quando o médico dizia que eu já estava perto de receber alta, que eu começava a ver o que eles faziam com os meus colegas que estavam lá dentro. Porque não é porque a gente é doente... porque a gente não fez nenhum crime grave, não tão grave assim, né? Aí, eles amarravam a gente, uns espancavam, eu via eles chutando pessoas. Por isso eu pedi, quando eu estava internada aí, para as visitas que vinham, eu pedia pra elas pra mandarem a TV pra cá pra eu falar. (GF4)

134 Segundo os relatos, as atitudes violentas são tomadas a partir da situação de vulnerabilidade em que a pessoa se encontra durante a internação. A fala a seguir é um elemento que facilita a compreensão do espaço manicomial como local em que não há trocas e onde não há diálogos, mas monólogos dos profissionais.

Eu queria falar em relação ao atendimento de pessoas que fazem acompanhamento das pessoas aí dentro. A gente chega e parece que no lugar que a gente chega a gente passa a não ser considerado como ser humano. Você sabe que está em um lugar em que você nunca poderia ficar estando normal. Aí, você quer achar um jeito de mostrar pra eles que você está bem de saúde e eles não aceitam. Eles acham que, pra você estar falando aquilo, você está piorando a sua saúde. E eles a todo minuto querem te dopar pra mostrar pra você que você não é normal. (GF4)

Outra discussão relevante diz respeito à presença dos familiares durante o período de internação. Uma usuária considera importante a participação da família no acompanhamento da pessoa com transtorno mental. Ela diz:

foi na época que eu era “de menor”. Minha mãe queria ficar aqui, meus irmãos queriam ficar como acompanhantes e não era aceito. Eu acho que isso não é certo, principalmente “de menor”. Eu acho que até o adulto, se ele não estiver certo e puder ficar com um acompanhante da família, é melhor (GF4).

Embora o HSVP se destine ao atendimento de pessoas adultas com transtorno mental, em casos específicos e que configurem necessidade urgente de intervenção, são admitidos na internação adolescentes de mais de 15 anos de idade. Nessas situações, conforme orientação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)6, a família é acionada para que uma pessoa possa acompanhar permanentemente a internação. Também é feita comunicação à Vara da Infância e da Juventude quanto à presença do adolescente na instituição. Pessoas com deficiência e idosos também podem ter acompanhantes permanentes. Todos os outros pacientes podem receber visitas diárias entre 15:30h e 16:30h.

Quanto à forma como os usuários são tratados enquanto estão na internação, uma participante do grupo aponta causas possíveis para a indiferença de alguns profissionais.

Esse pessoal que trabalha com o humano, como humano e do lado humano, eles conversam, eles param, eles te escutam. Mas tem gente que não para, passa e faz de conta que é cachorro. Então é muito difícil. Agora eu não sei se é porque eles estão muito atarefados, não sei. Às vezes eles fazem questão mesmo de mostrar que “você é você, ele é ele”. É uma barreira muito grande

6 O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), em seu artigo 12, reza: “Os estabelecimentos de atendimento à saúde deverão proporcionar condições para a permanência em tempo integral de um dos pais ou responsável, nos casos de internação de criança ou adolescente”.

135 e eles fazem questão de colocar uma madeira bem grande, pra falar: fica do lado de lá, que você não pertence ao lado de cá. (GF4)

A usuária tenta justificar as atitudes de desinteresse dos servidores para com os pacientes ao mesmo tempo em que aponta que aqueles que trabalham considerando a humanização conseguem ter mais cuidado e atenção. Assim, é possível recuperar o conteúdo do grupo focal realizado com os servidores do HSVP, em que esse assunto é tratado como sendo resultante das angústias sofridas pelos cuidadores das pessoas com transtorno mental.

Questionados sobre como tornar a internação uma experiência menos traumática, um usuário apresenta características “ideais” compatíveis com a perspectiva dos Caps do tipo III, com caráter comunitário e humanizado:

Eu acho que a internação teria que ser o seguinte: você teria que estar internado, mas que você se sentisse como se você estivesse na sua casa. Pessoas que estivessem em grupo conversando com você, procurando saber o que você gostaria de fazer se você estivesse na sua casa, procurando fazer aquilo que você gostaria de fazer: se gosta de ouvir uma música, vamos ouvir uma música, se gosta de dançar, vamos dançar, se gosta de bater um papo com alguém, o que você gostaria de estar conversando com a gente neste momento? (GF4)

Outra participante já lembra a importância da presença dos familiares durante a internação: “[...] eu acho assim, que dentro da internação e da emergência, a partir do momento que eu estou lá, e eu já estou melhorando, às vezes eu quero ver minha mãe, eu quero ver meu irmão, meu tio, e aí eles não liberam para aquela pessoa entrar” (GF4).

Um ponto de crítica dos usuários é quanto ao não estabelecimento de níveis de comprometimento dos pacientes, o que os leva a serem tratados da mesma forma, mesmo tendo necessidades diferentes. Segundo os participantes, isso é um dos motivos pelos quais não há muitas atividades ocupacionais nas enfermarias – apenas parte dos pacientes tem condições de participar do que é proposto pelas terapeutas ocupacionais.