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6.3 Prediction models for investment costs

O Brasil, na primeira metade do século XIX, caracterizou-se pela defesa de uma unidade nacional como uma das bandeiras fortemente levantadas por intelectuais do período, colaborando para o desenvolvimento de uma monarquia centralizada que objetivava, entre outros, se não eliminar, enfraquecer as diferenças regionais, dentre elas as ocasionadas com a Revolução Farroupilha, na esperança de uma pretensa unidade.

Trabalhando diversos personagens, principalmente os que integravam a elite do movimento farrapo, nomes como Bento Gonçalves da Silva, Domingos José de Almeida, Antônio de Souza Netto, David Canabarro, Antônio Vicente da Fontoura, apesar das

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“Como fonte documental a correspondência epistolar fornece informações privilegiadas tanto para uma análise das características estruturais da rede como para conhecer os conteúdos qualitativos das relações entre atores sociais: os intercâmbios que se mobilizam através delas, as funções e atributos de cada vínculo, como do conjunto da rede, assim como outros elementos relacionados aos valores e ideias com que atuam e se relacionam os atores sociais” [Tradução sob responsabilidade da autora].

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Documento Militar – AHE.

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Arquivo da Cúria de Cachoeira do Sul/RS.

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AHN-AHRGS.

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Disponível no AHRGS.

diferenças políticas e ideológicas que os envolveram, foram vistos pela historiografia como importantes representantes desse movimento.

Considerando que esses homens fizeram parte de um pequeno e seleto grupo, e que a Revolução Farroupilha contou com a participação também de outros tantos indivíduos, como os negros e mulatos que integraram de forma expressiva as fileiras do exército farroupilha, torna-se importante e necessário a introdução de novos temas e personagens a estas reflexões.

Embora tenham sido peças fundamentais para o desenvolvimento do conflito que se estabeleceu, tendo como “inimigo” o Império, não foi apenas a esse grupo que se limitou a participação dos mulatos. O que houve foi uma generalização pela história, que, somada a um frequente esquecimento, enfatizou Porongos98 e Lanceiros como únicos símbolos da participação de negros e mulatos no movimento, fazendo, mesmo que indiretamente, com que a concepção de uma elite composta exclusivamente de homens brancos seja reiterada pela história.

No decorrer deste trabalho, ao entrar em contato com fontes documentais do período, observamos o quão falho é essa consideração e como é fruto das construções sociais presentes no período imperial, uma vez que, conforme uma pessoa fosse ascendendo socialmente, sua cor poderia ser transformada, a ponto de que um indivíduo então mulato passasse a ter sua cor omitida, ou o tom de sua pele “modificado”.

Dessa forma, José Marianno de Mattos torna-se objeto para um interessante exercício sobre uma leitura da sociedade que o envolve, uma vez que ele era mulato e conseguiu ocupar importantes cargos administrativos nesse período, evidenciando que mesmo as leituras já realizadas em torno da elite farroupilha, embora bastante preciosas, precisam e devem ser analisadas com cuidado e atenção.

Lembrado poucas vezes pela historiografia, Mattos aparece como uma figura importante do seu tempo, mas cujas informações são rasas e insuficientes. Entretanto, a questão que se coloca é como um homem então considerado mulato chegou a ser, mesmo por um curto período, Presidente da República Rio-Grandense.

Ponderando o fato de Mattos ser um homem letrado, e de que as promoções seguiam critérios como merecimento, “[...] visto que a lei só manda premiar serviços relevantes, e não por antiguidade ou preteriçoens [...]99, evidencia-se que algumas oportunidades foram por

98 Episódio que ocorreu em 14 de novembro de 1844, também conhecido como “Surpresa de Porongos”, em que

centenas de soldados negros e mulatos foram atacados e mortos por tropas imperiais.

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Palácio do Rio de Janeiro em 12 de outubro de 1838 = Sebastião do Rego Barros. Caderno de Correspondências, Assunto: promoções militares, Série: Revoluções internas, Sub série: Guerra dos Farrapos, Arquivo Histórico do Exército na cidade do Rio de Janeiro/RJ.

Mattos utilizadas, proporcionando que, quando saísse do Rio de Janeiro, já estivesse em uma situação favorável socialmente.

Destacando a fala de Adriana Barreto de Souza (1999, p. 43), quando esta coloca que “numa sociedade alicerçada sobre valores aristocráticos, os líderes militares tinham lugar cativo na composição grupo da elite política”, entende-se que Mattos conseguiu dialogar com esses espaços sociais, onde começou a ter um contato maior com o então Rio Grande de São Pedro a partir de 1830100, quando nesta região se estabeleceu, vindo então já promovido a Major101.

Vinculado ao Quartel da Villa de Rio Pardo102 nos anos antecessores à Revolução Farroupilha, onde comandou o 1º Corpo de Artilharia a cavalo, José Marianno de Mattos, ao se inserir neste espaço privilegiado, manteve relações diretas com a localidade, já conhecida pelo mesmo, entrando diretamente em contato com as questões político-econômicas e com a situação de descontentamento que se consolidava na região perante o Império.

Insatisfeito com as precárias instalações em que se encontrava esse Quartel, notamos em correspondências que se iniciam em 1832 até 1834 as frequentes solicitações feitas pelo então Major ao Presidente da Província para reparos e uma maior atenção com essa situação.

Enfatizando em suas cartas, ainda no ano de 1832, o fato do Quartel “se achar de tal modo arruinado”, Mattos reivindica:

Passo as mãos de V. Exa. o incluso orçamento das despesas que julgo indispensáveis para fazer-se com o Quartel da Villa do Rio Pardo completamente arruinado á visto do qual V. Exa. mandará o que julgar justo. Deos guarde V. Exa.

Porto Alegre em 20 de setembro de 1832

Illmo. Exmo. Sr. Presidente Manoel Antonio Galvão José Marianno de Mattos – Major.103

Tais solicitações se estendem ao longo dos anos, podendo ser evidenciadas em carta de 1834, quando Mattos ainda continua a buscar melhoras para o Corpo que está sob seu comando:

Illmo. Exmo. Sr.

Ignorando eu o lugar em que se acha o Sr. Marechal Comandante das Armas e sendo a meu ver urgente as providencias que para salvar minha responsabilidade passo a

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Importante ressaltar que José Marianno de Mattos esteve em um período anterior a 1830 na Província de São Pedro, nos anos de 1827 a 1829, designado pelo Exército.

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Rascunho de Fé-de Ofício de José Marianno de Mattos, Arquivo Histórico do Exército na cidade do Rio de Janeiro/RJ.

102

Vale lembrar que Mattos fez história nesse quartel, ao estar sob seu comando durante o período de 1831 a 1835, sendo o primeiro comandante do que hoje é conhecido como “Regimento Mallet”.

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solicitar, por isso rogo a V. Exa. permittir que directamente dirija a V. Exa. a presente representação.

O quartel que foi destinado ao Corpo que comando está ameaçando ruína e os praças que o habitão além de expostos a todo o rigor do inverno, em eminente risco de vida.

Embora não sendo atendido da forma que gostaria e não tendo os resultados que esperava das forças imperiais, Mattos conseguiu, aos poucos, ganhar respaldo entre a população local. Sendo uma figura conhecida por estar no Comando do Quartel ali existente, se elegeu na Assembleia Provincial por Rio Pardo, fator este que se apresentou como um dos motivadores para o seu afastamento do Comando do Corpo de Artilharia104.

Acuso recebido o oficio de V. S. datado de hoje, em que me transmitte copia de S. Exa. o Sr. Presidente da Provincia em que se me ordena, que visto ter de concluído os trabalhos da Assembleia Provincial, do qual sou Deputado, me retire o quanto antes ao meu Corpo. Com quanto segundo a marcha, que tenho sempre seguido, não hesitei em um só momento cumprir esta, ou qualquer ordem legal emanada de Authoridade competente. Julgo contudo do meu dever ponderar a V. S. que achando-me pronunciado em uma celebre devassa , a que se procedeo em Rio Pardo, e tendo sido por consequencia disso duas vezes preso nesta cidade, e por outras tantas veses relaxado da prisão em virtude de ordem de Habeas-Corpus, como é publico, me parece e creio que é de Lei que estou inteiramente desligado do Serviço do Corpo enquanto durarem os effeitos da pronuncia; e isso impossibilitado de Comanda-lo, e de ter nelle a menor ingerência.

Foi a partir desse momento que Mattos começou um afastamento, que duraria por alguns anos, das forças imperiais, trilhando sua trajetória junto ao que ficou conhecido como os farrapos. O movimento, por sua vez, visando ao seu fortalecimento e ansioso por membros que tivessem conhecimento e capacidade de colocar em prática seus planos, viu em Mattos um importante aliado.

Sendo diversas vezes acusado pelas forças imperias, por motivar e assim colaborar na divulgação dos projetos e ideias farroupilhas, Mattos foi preso e repreendido por sua conduta. Mas tal punição, não se apresentou como um impedimento para que o mesmo deixasse de participar dos conflitos. Conseguindo em outras ocasiões se livrar das acusações, Mattos, aos poucos, foi conquistando novos espaços e amigos farrapos, que se tornariam fundamentais na sua trajetória no movimento.

Assim, envolvido por diferentes interesses, principalmente políticos, o antigo militar das forças imperiais encontrava na região sulina a oportunidade de se estabelecer como uma liderança política, de fazer parte das principais decisões do período e de alcançar uma posição social que, junto ao Exército, não teria naquele momento a possibilidade de ocupar.