O elenco inicial do Cachorrada Impro Clube reuniu, em 2011, quatro es- tudantes do curso profissionalizante de formação de atores da Companhia de Teatro Contemporâneo, agrupados para disputar torneios de Teatro-Esporte, sob a direção de Flávio Lobo Cordeiro, que atuava como treinador do grupo: José Guilherme Vasconcelos, Luiz Felipe Martins, Othelo Nascimento Júnior e Pedro Freitas. A despeito do excelente desempenho da equipe em competições desde sua apresentação de estreia, a composição do Cachorrada variou bastante ao longo dos anos subsequentes. Da formação original do grupo, no momento em que se realizou a coleta de dados para o presente estudo, remanescia apenas Luiz Felipe Martins, ao qual se juntaram, em 2013, o ator e administrador Leandro Austin e, subsequentemente, em 2015, o engenheiro de software, ator e humorista de
stand up comedy Leonardo Reis, conhecido como Gigante Leo, em decorrência de
ser uma pessoa com nanismo. Durante três anos, depois dessa saliente mudança em seu elenco, o Cachorrada manteve-se afastado das competições, até que, no segundo semestre de 2018, angariando o reforço dos experientes Daniel Men- donça e Rodrigo Amém, além do estreante Arthur Pimenta, o grupo retornou ao Teatro-Esporte e conquistou importantes resultados em torneios nacionais e internacionais.
Dos três grupos brasileiros que compuseram a amostra desta pesquisa, o Ca- chorrada talvez seja aquele que batalha com mais afinco pela profissionalização do gênero no Rio de Janeiro. Dois de seus membros atuam como professores de teatro de improviso: Martins ministra aulas para crianças e adolescentes em im- portantes escolas cariocas, enquanto Austin compõe o corpo docente da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante, onde provê cursos de improvisação para futuros oficiais de Náutica e de Máquinas da Marinha Brasileira. Luiz Felipe Martins e o Gigante Leo têm na arte sua principal fonte de renda, e Leandro Aus- tin ministra habitualmente treinamentos corporativos e consultorias empresariais
O COrpOnO TeaTrOde ImprOvIsO
com o apoio de métodos provenientes do Sistema Impro. O Cachorrada Impro Clube também se diferencia na cena do teatro de improviso carioca em razão de sua disposição em cingir o humor como linguagem primordial e pela desobe- diência a regras historicamente impostas aos adeptos do sistema desenvolvido por Keith Johnstone, mas que, quando acatadas de maneira impensada concorrem, no entendimento do grupo, para arruinar a profícua interação do improvisador com seu público. O humor abraçado pelo Cachorrada costuma contemplar criticamen- te a visão dualista centro-periferia, exaltar a tragicomicidade presente no cotidiano dos marginalizados e reportar o mondo cane que assola as regiões mais pobres de um país marcado pela exclusão e pelos desequilíbrios injustos (cf. MURA, 2010).
Reiteradamente envolvidos com turnês pela América do Sul, seja com o Ca- chorrada Impro Clube, seja com selecionados de improvisadores brasileiros, os dois expoentes do grupo que foram selecionados como sujeitos da presente per- quirição, Leandro Austin e Luiz Felipe Martins, também integram outro grupo de impro, os Carioca Joketrotters, em que dividem a cena com Gabriel Sardinha e Tomaz Pereira. Ao lado de Flávio Lobo Cordeiro e de Daniel Mendonça, Luiz Felipe Martins participa regularmente de um show de impro muito bem sucedido em bares e casas noturnas do Rio de Janeiro, intitulado “Desce Outra”, em que os improvisadores constroem histórias a pedido do público enquanto sorvem gene- rosas doses de aguardente, embriagando-se à medida que prossegue o espetáculo8.
O Cachorrada também investe na formação de novos grupos de Teatro-Esporte, tais como Os Sungas Brancas e o Café com Leite, ambos com resultados signifi- cativos em apresentações competitivas.
Com respeito à corporalidade, o grupo Cachorrada apresenta peculiaridades que se mostram particularmente relevantes para o presente estudo. Como se de- bateu anteriormente, inúmeros brasileiros manifestam grande afinidade com a folia carnavalesca, mas desempenhar a função de mestre-sala em escolas de samba do grupo especial no carnaval carioca, como é o caso de Leandro Austin, requer uma maestria corporal excepcional. A essa fenomenal competência de Austin foi acrescida a prática da Capoeira, igualmente discutida na revisão de literatura da presente investigação. Luiz Felipe Martins, a seu turno, percorreu outro caminho peculiar com relação à corporalidade, por ter se aproximado da profissionalização como jogador de futebol, chegando muito perto de realizar um sonho nutrido por milhões de meninos brasileiros (KIELING, 2016). Mesmo que, em decor- rência de uma grave lesão, Martins não tenha se profissionalizado no esporte, a
8 Espetáculos de teatro de improviso em que os artistas improvisam enquanto
ingerem bebida alcoólica, acompanhados da plateia, são tradicionais em diversos países, constituindo uma faceta importante da cultura impro.
edificação de sua corporalidade se processou de forma incomum para um im- provisador, como demonstra o trabalho de Freitas (2007). Partindo da aborda- gem das técnicas corporais de Mauss (2003), o autor analisa a estruturação da corporalidade por atletas futebolísticos no Brasil, associando a formatação desse corpo à virilidade, ao prazer físico, à animalidade, ao lúdico, ao prestígio social e profissional, à agressividade, ao sofrimento, à competência física e, por fim, à construção e à regulação da identidade masculina. A esse histórico corporal do improvisador, pode-se acrescentar a prática da arte marcial Krav Magá, que Mar- tins adotou como atividade física principal ao abandonar o futebol, e o despertar de novos rumos para a performatividade pelo contato com a disciplina da palha- çaria, por ocasião de sua formação em artes cênicas.
Foto 26 – Leonardo Reis, o Gigante Leo (à esquerda) contracena com Luiz Felipe Martins
(deitado), durante o espetáculo “Noite Cachorra”, apresentado pelo grupo Cachorrada Impro Clube no Festival Universitário de Teatro de Improviso, no dia 8 de novembro de 2017
Crédito da fotografia: Zeca Carvalho
Aos dois corpos arquetipicamente brasileiros de Leandro Austin e Luiz Felipe Martins, cinzelados desde suas infâncias, respectivamente, no alegórico “país do carnaval” (cf. HOLLANDA, 2013) e no propalado “país do futebol” (cf. FRAN- CO Jr, 2013), o Cachorrada Impro Clube alberga ainda um terceiro integrante, que, em razão do nanismo, dispõe de uma corporalidade sui generis, como ilustra a Foto 26. Malgrado sua condição, a presença do Gigante Leo estadeia um mag- netismo prodigioso que avulta o humor ácido e perspicaz do comediante. Não
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por acaso, ao analisar a corporalidade de artistas com deficiências físicas, Platel (2018) reputa que tais indivíduos parecem ter alguma espécie de vantagem com relação às demais pessoas, como se a deficiência tivesse sido capaz de despertá- -los para o fato de que não se pode perder tempo quando se deseja realizar algo especial na vida. Adicionalmente, Zaunbrecher (2016) recomenda que sejam em- preendidos mais esforços de investigação acerca de indivíduos com deficiências que sejam praticantes de teatro de improviso.
Os dois improvisadores do Cachorrada Impro Clube designados como sujeitos da presente pesquisa – Leandro Austin e Luiz Felipe Martins – tiveram seus nomes assim codificados: [Austin_Cachorrada_BRA] e [Martins_Cachorrada_BRA]. Com eles, chega-se ao quantitativo de 14 improvisadores brasileiros elencados como sujeitos de pesquisa a partir dos três coletivos que constituem a amostra da etapa brasileira do estudo empírico que aqui se afigura. Desperta atenção o fato de que, dentre esses 14 sujeitos, apenas um seja negro, outro seja oriental e somente duas sejam mulheres, o que pode configurar um indício significativo de que a produção da corporalidade dos improvisadores no Brasil talvez seja atravessada pela norma dominante de gênero e raça (p. ex.: LECCI & PASSOS, 2018; ROSA, 2018). A despeito da mestiçagem étnica e sociocultural, o corpo-encruzilhada do improvisador brasileiro parece ser predominantemente branco e masculino.