As Orientações Técnicas para os Serviços de Acolhimento e a Tipificação dos Serviços Socioassistenciais listam uma série de atividades a serem desenvolvidas pelos coordenadores, educadores e auxiliares, além da equipe técnica. Essas últimas deverão ser desenvolvidas respeitando as normas quanto à atividades privativas definidas pelos
respectivos conselhos de profissão. Sobre isto, Gulassa (2010) ressalta que, cada município, ao planejar o atendimento, considere a sua realidade e demanda, uma vez que “cada profissional tem uma função específica e todos juntos têm a responsabilidade de construir o projeto comum da instituição” (pp. 75). Elage, Góes, Fiks e Gentile (2011) também pontuam que os Serviços de Acolhimento envolvem um trabalho exigente, cheio de imprevistos e sem possibilidade de se estabelecer uma padronização de conduta, já que cada um faz parte de um contexto específico da realidade do país, com suas variações regionais e culturais. Além disso, na própria instituição, cada agrupamento de crianças e adolescentes possui uma dinâmica muito peculiar, pois cada um tem sua diferente e única história.
Os documentos oficiais estão para orientar, mas é imprescindível que cada instituição se organize internamente, de acordo com as especificidades de atendimento, demandas, possibilidades e contexto local. Desta feita, questionamos aos psicólogos se, além dos documentos oficiais, a instituição oferecia alguma diretriz específica para o seu trabalho (tabela 12).
Tabela 12
Diretriz específica para o trabalho do psicólogo
Casos (N)
Possui 3
Não possui 7
Apenas três instituições possuem essas diretrizes, fato que pode ser creditado à recente entrada desse profissional nesses serviços, como no exemplo:
Não existia serviço de Psicologia (...) Têm as atribuições do psicólogo, que a organização construiu (...) A gente está fazendo um estudo em todas para ver o que permanece, o que não permanece, o que falta e o que a gente acrescenta nessas diretrizes. (Psicólogo 1)
É como se fosse algo muito novo (...) A instituição tem um documento que especifica as atribuições do psicólogo, mas no momento não está aqui, porque o RH do projeto está em outro local não está aqui na casa. (Psicólogo 3)
Tem algumas pessoas que eram do SAI, mas na gestão anterior foram transferidas para o CREAS, como a assistente social, então ela dá algumas dicas de leituras que nós organizamos em uma pasta. Temos informações de sites, eventos, a Coleção Abrigos em Movimento e as Orientações Técnicas para os Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes que colocam muitas coisas importantes sobre a nossa atuação, nosso papel profissional da equipe técnica, dos educadores. (Psicólogo 7)
Os próprios psicólogos sentem falta de obter expectativas mais concretas acerca do seu trabalho. Para Gulassa (2010), o psicólogo é responsável por acompanhar o desenvolvimento dos aspectos psicológicos individuais dos atendidos, de acordo com seu estudo de caso, além de observar e estudar os processos coletivos e institucionais, bem como conhecer e acompanhar a relação familiar. Ou seja, é um profissional que perpassa todos os âmbitos do atendimento institucional, sem perder de vista que, assim como os demais profissionais, também é um educador, pois se relaciona e influencia as crianças e os adolescentes, fazendo parte do projeto educativo. Assim, é importante que ele faça parte da construção do seu papel na instituição e que esse processo seja contínuo.
A natureza do trabalho no SAI exige constante interação entre os profissionais para o planejamento e realização das ações, de modo que a função de cada um deve ser explicitada, escrita e clara para todos, porém sempre com o entendimento de que está sempre em construção (Gulassa, 2010). Não é uma fábrica com linha de montagem em massa, trata-se de pessoas com suas especificidades. As diretrizes, explicitadas de modo formal ou informal, dizem sobre a instituição, sobre seus objetivos e como os psicólogos podem contribuir para tal.
Quando cheguei, o coordenador conversou no sentido que a gente ficasse livre para fazer o trabalho, mas tudo que a gente for fazer tem que passar por eles. Claro, porque eles que são responsáveis pela instituição. (Psicólogo 2)
Tem a normativa e a gente procura seguir, que é bem grande. Agora foi feito o manual com base no que a gente acredita, baseado na palavra de Deus, com a colocação dos versículos que comprovam aquilo que a gente fala, igual ao que a normativa fala, mas com outras palavras: do cuidado, do carinho, da atenção,
de tudo isso que quando uma criança precisa quando vem para cá e a bíblia fala a mesma coisa, da necessidade de respeitarmos as crianças. (Psicólogo 5) (...) quando eu cheguei eles tinham uma série de atribuições, de sempre a gente respeitar, de ser ativa no processo e ao mesmo tempo a gente se colocar no lugar do outro. Seja esse outro a cuidadora, seja esse outro a assistente social. Então a gente recebeu uma cadeia de atribuições que atuam perfeitamente dentro das atribuições dos psicólogos que é mediação de conflitos, atende grupos, atende a entrevistas de seleção de cuidadoras, responde ao judiciário com relatórios psicossociais, trabalho de emancipação desses jovens, busca de articulação na rede. (Psicólogo 6)
A gente vê as necessidades, mas o tema central é o desacolhimento, colocar a criança em alguma família. (Psicólogo 9)
Toda prática profissional necessita de objetivos, estar indo em direção a algo. Em se tratando de um trabalho como o Acolhimento Institucional, é imprescindível que os profissionais tenham ciência da finalidade de sua atuação junto a essas instituições, com objetivos claros e critérios de avaliação. Na próxima sessão, abordaremos as atividades desempenhadas pelos psicólogos, seus objetivos e como se desenvolvem.