4 North American commission
4.8 Comparison with previous assessment and advice
4.9.10 Pre‐fisheries abundance
O trabalho de campo, junto aos trabalhadores (as), seguiu de forma descontraída e informal, permitindo o contato com profissionais de diferentes áreas, sem grandes entraves. Tivemos “livre acesso” para manter contato por e-mail, telefone ou pessoalmente com motoristas, auxiliares, gerentes e técnicos. Isso, no entanto, não significou a ida da pesquisadora, sem comunicação prévia, pois era preciso contar com a disponibilidade dos funcionários.
O trabalho de campo, porém, apresentou algumas dificuldades, que pudemos contornar.
2.4.1 Dificuldades do Trabalho de Campo na ETC-1
Na ETC-1, as duas primeiras visitas foram de caráter exploratório: uma visita à sede, outra ao CDA. Não houve entrevistas, mas conversas sobre como o trabalho era feito, as funções de cada um, a divisão do trabalho, bem como a apresentação do nosso estudo para os funcionários. Foi nesse contexto que a pesquisadora tomou conhecimento da dinâmica do trabalho efetuado no CDA e na sede. Isso significava que as entrevistas com os motoristas seriam viáveis somente no horário noturno, no CDA. Com os gerentes de cada área somente na sede, exceto o de tráfego, responsável pela programação diária dos motoristas no CDA.
Percebemos que a variável tempo, na empresa, é tão importante quanto o sigilo das suas informações. Se em épocas anteriores a competitividade entre transportadores era baseada no custo do transporte, tendo no valor do frete a sua expressão máxima, hoje as transportadoras lidam integralmente com a administração do tempo, seja para atender um cliente, seja para gerenciar o trabalho administrativo e/ou operacional.
39 A tentativa de controle do tempo parece diretamente associada com o desempenho (resultados) da empresa. Desde a implantação de novas tecnologias, como os softwares de gerenciamento (da frota, de prazos, de custos, treinamento, entre outros), a empresa tem se dedicado a cumprir rigorosamente seus prazos, seus horários e metas. Em vista disso, o agendamento de entrevistas com os gerentes e o representante da diretoria era fundamental, mas muito restrito por causa dos compromissos que poderiam ser afetados na ausência de um dos seus colaboradores no atendimento de um cliente. Mesmo com os motoristas, por várias vezes, as entrevistas foram interrompidas para que os mesmos pudessem cumprir seu trabalho.
Em relação à confidencialidade de informações, nem todos os dados necessários para a pesquisa foram repassados pela empresa. Além dos problemas comuns como possível inexistência de registro de dados do período pesquisado e/ou ausência de funcionários mais antigos que pudessem relatar a sua trajetória de vida e trabalho dentro da empresa, nos deparamos também com a demora no envio de dados importantes para compor a pesquisa.
A demora foi justificada pela empresa sob a alegação de ter que “filtrar” algumas informações. Qualquer dado solicitado a um funcionário por e-mail, por exemplo, passava pelo crivo da empresa.
Para driblar a ausência de dados, recorremos às declarações prestadas por representantes da empresa à imprensa e às matérias veiculadas via websites especializados em transportes, logística e economia.
Para que a empresa garantisse o sigilo de suas informações foi necessário assinar um Termo de Responsabilidade e Confidencialidade dos Dados, cujo objetivo principal era garantir que os dados aqui apresentados não estivessem relacionados diretamente ao nome da empresa.
Entende-se que o controle e sigilo das informações dentro de uma transportadora seja algo realmente importante e sério, principalmente por causa dos casos de roubo de cargas, em que sempre há indícios de informações partindo da própria empresa para
40 as quadrilhas especializadas neste tipo crime. Isso faz com que a direção e funcionários sejam zelosos com todo o tipo de informação que ali circula, e para quem são veiculadas. Nos dias atuais esses procedimentos fazem parte do gerenciamento de risco de toda empresa. E diante do que foi visto e das informações a que se teve acesso, nada mais preocupante do que isso ser visto como uma possível ameaça para os negócios da empresa.
É preciso compreender essa posição da empresa. Por outro lado, os próprios motoristas sentem-se ameaçados, sob o olhar suspeito da empresa que recaí também sobre eles. Enfim, essas são algumas questões importantes e que permeiam o cotidiano não somente da ETC-1, mas da maioria das transportadoras de carga. Na ETC-1, no entanto, essa questão só ficou mais evidente.
2.4.2 Dificuldades do Trabalho de Campo na ETC-2
Na primeira visita à ETC-2, o responsável pela área de treinamento recepcionou e nos apresentou aos motoristas presentes e aos quatro funcionários que atuavam na área de tráfego. Uma volta pelo pátio da empresa e só víamos funcionários da manutenção, da oficina. Após atravessar o pátio de terra batida, a área destinada ao repouso dos motoristas em trânsito constituía-se em uma habitação de alvenaria: espaço para a cozinha e armários vazios; sala com mesa, sofá e uma televisão; um quarto pequeno com três camas, cuja porta permanecia sempre encostada; o banheiro ficava do lado de fora, ao lado de uma lavanderia com tanque de alvenaria e varal no pátio de terra batida.
Esse espaço estava localizado entre a rua e a oficina mecânica da empresa. Foi lá que ocorreram as conversas com os motoristas que surgiam, entre uma viagem e outra. Nas duas semanas em que a pesquisadora compareceu à empresa, observou-se pouca movimentação de motoristas naquele espaço. Cogitou-se a possibilidade de estarem em outro local, dentro da empresa, mas por meio deles, a pesquisadora tomou conhecimento de uma norma da empresa que restringia a circulação dos motoristas por áreas onde eles não atuavam. Assim, verificamos que a permanência do motorista na empresa ocorria apenas durante o tempo necessário para abastecer, carregar e descarregar o veículo. Nesse período, na área destinada a eles, podem dormir, preparar uma refeição, lavar suas roupas, descansar, mas não circular pela empresa sem autorização.
41 A maior dificuldade encontrada foi entrevistar motoristas na matriz da ETC-2 que atendessem aos pré-requisitos da pesquisa. Os que atendiam aos pré-requisitos tinham residência na região Centro-Oeste do país ou moravam na cidade de origem da empresa. Contratar motoristas fora do eixo sul-sudeste fazia parte da política de RH do grupo, por causa das dificuldades em selecionar profissionais sem antecedentes criminais provenientes dessa região. Os motoristas mais antigos também eram alocados em linhas/rotas internacionais por causa da sua vasta experiência com transporte.
Além do tempo de percurso das viagens que faziam, outros fatores como: burocracia nos postos aduaneiros para liberar carga e motorista; a folga do motorista coincidir com a estadia dele em cidade próxima à da sua residência, contribuíram igualmente para que a amostra da ETC-2 fosse pequena. Além disso, nesse período, a pesquisadora já não dispunha de recursos financeiros suficientes para deslocamento e alojamento na cidade de origem da empresa e residência dos motoristas.
Nas três semanas em que estivemos na empresa foi possível manter contato e entrevistar motoristas que não se enquadravam nos critérios estipulados, bem como os responsáveis pelas áreas de tráfego, logística e recursos humanos. O que coletamos de informações, junto a esses trabalhadores (as), revelou outros aspectos do trabalho no interior da ETC-2.
No decorrer do trabalho de campo, tanto na ETC-1, quanto na ETC-2, foi observado que duas questões – tempo e disponibilidade – tornariam a coleta de dados menos dinâmica do que se supunha. Por isso, foi necessário fazer uma “reorientação” no estudo de caso. Logo, motoristas agregados (TAC-agregado) e de rotas/linhas diferentes foram incorporados à pesquisa. A pesquisadora compreendeu que as informações que esses profissionais tinham para oferecer eram tão preciosas quanto às dos motoristas assalariados.
Na sala de descanso, durante as entrevistas, principalmente aquelas realizadas com dois motoristas de categorias diferentes, ambos discorriam sobre a sua jornada de trabalho, remuneração, custos, condições de trabalho, autonomia, alegrias e frustrações em relação ao trabalho e suas escolhas. Percebeu-se, então, que nesse confronto de realidades, nem os próprios motoristas tinham ideia das dificuldades ou das semelhanças que o trabalho
42 lhes impunha. O que era vantagem para um (ter o próprio caminhão), não era sinônimo de menos trabalho ou maior autonomia para outro. As entrevistas em dupla permitiram uma reflexão sobre o trabalho de ambos e talvez tenha promovido, pelo menos para os envolvidos, a visibilidade do trabalho do outro.
No projeto que deu início a esse estudo estava planejado o estudo de caso em duas empresas. Por meio dele, mostrar-se-iam as estratégias usadas na gestão dos transportes e na administração do tempo de trabalho e do tempo de direção dos motoristas. Como pode ser visto, nem sempre o que planejamos é possível realizar. As dificuldades do trabalho de campo eram previsíveis, mas a sua dimensão não. Foi preciso contorná-las e tirar proveito das ricas informações que o campo apresentava.
Nesse estudo, os dados das duas empresas são apresentados separadamente e posteriormente analisados, procurando suas divergências e convergências.