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O “Arraial do Ribeirão do Carmo” ou “Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Ribeirão do Carmo” ou ainda “Vila do Carmo” é hoje “Mariana”, conhecida como cidade primaz de Minas Gerais. Como podemos notar o município já passou por vários estágios denominativos ao longo do tempo desde o início de sua colonização nas redondezas do ribeirão do Carmo entre o final do século XVII e início do século XVIII. Todas essas denominações trazem consigo fontes históricas reveladoras da formação geográfica, social e cultural da cidade e nos permitem compreender parte da sociedade local no presente, inclusive no que tange ao nosso objeto de pesquisa – os nomes das escolas públicas da cidade de Mariana.

Pires (2008) nos relata a origem da cidade, época em que os bandeirantes desbravavam o Brasil em busca de ouro:

Na região do Ribeirão do Carmo o paulista Bento Rodrigues, ao atravessar o morro de Vila Rica, encontrou uma área excepcionalmente opulenta no morro denominado Mata Cavalos. Entre o final do século XVII e os primeiros anos do século XVIII teve início o processo de colonização nas redondezas do ribeirão. Em poucos anos o arraial do Carmo já contava com uma população suficientemente numerosa que permitia pleitear o reconhecimento institucional de seu crescimento perante a Igreja. Isso ocorreu com a elevação da simples capela ao patamar de paróquia ou freguesia, denominação usada tanto para a administração civil como para a eclesiástica. A freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Ribeirão do Carmo foi instituída entre 1700 e 1703 (PIRES, 2008, p. 24).

Em 1711, o arraial do Carmo foi elevado à categoria de vila já possuindo uma população numerosa, atraída, sobretudo, pela atividade mineradora da região. Nesse mesmo ano se deu a criação da Câmara Municipal, um dos fatos marcantes que transformou a Vila do Carmo em centro administrativo, pois os povoados formados ao redor da vila eram subordinados à Câmara Municipal. Em Mariana, era através dela que se aplicavam as formas de justiça e se regulavam as atividades comerciais, educacionais e os diversos aspectos cotidianos da cidade, sendo, pois, um dos meios de se manter a “ordem” do lugar.

Outro fato administrativo marcante para o período em questão e que merece destaque foi a divisão da região mineradora, em 1714, em três comarcas: Vila Rica, Real Vila de Sabará e Rio das Mortes, locais de suma importância e alvo de todas as atenções do governo português. Ainda segundo Pires (2008), a comarca de Vila Rica, sede da capitania das Minas, era a menos extensa das capitanias, porém a mais importante nesse momento de formação da sociedade mineira e brasileira como um todo.

Em 1745, após a criação do bispado do qual se tornou sede, a Vila de Ribeirão do Carmo foi elevada à categoria de cidade – nomeada Mariana – em homenagem à rainha D. Maria Ana de Áustria, esposa do rei D. João V. Nessa mesma época:

a comarca de Vila Rica dividiu-se em dois termos, um com sede em Vila Rica e outro em Vila de Ribeirão do Carmo. Os termos se dividiam em freguesias que também se subdividiam em arraiais, distritos ou continentes. As primeiras freguesias de provisões episcopais se desenvolveram em torno das atividades mineradoras ou agrícolas e, aos poucos, a população foi se dedicando também a outras atividades necessárias para o desenvolvimento da região. O termo de Vila do Carmo/Mariana era mais extenso que o termo de Vila Rica, possuía um número maior de freguesias, além de ser mais populoso (PIRES, 2008, p. 26-27).

A cidade de Mariana rapidamente ganhou destaque entre as demais, não por acaso: foi a única a ter um regimento régio preocupado em ordenar seu planejamento urbano. Para a historiadora especialista na formação do espaço urbano de Mariana, Cláudia Damasceno Fonseca (1998, p. 38), “isso se deveu provavelmente pelo fato do local ser o centro religioso de Minas, além de seu valor estratégico, devendo ostentar uma imagem que refletisse uma ordem social que desejava impor, e uma imagem digna da rainha, regular, ordenada”. A autora explica que a cidade recebeu a intervenção de

um projeto do engenheiro militar José Fernandes Alpoim e que “sua paisagem urbana seria formada por uma sucessão de praças diferenciadas (recurso utilizado nas realizações maneiristas e barrocas) e pelos edifícios, sobretudo os religiosos, revelando aspectos característicos da mentalidade barroca” (FONSECA, 1998, p. 40).

A expressão cultural barroca vinda da Europa era um movimento tipicamente urbano e encontrou território profícuo de manifestação em Mariana no século XVIII. Isso porque a cidade, assim como outras da região, tem como peculiaridade o fato de ter sido urbana antes de se tornar rural, ambiente propício de circulação de de diversas culturas, de circulação de ideias e experiências variadas.

A inversão do padrão usual de composição espacial – geralmente do rural para o urbano – está relacionada a uma série de fatores como o tipo de sociedade, as atividades econômicas exercidas e a densidade demográfica, por exemplo. Esta é destaque na história de Minas Gerais. Atraídas pela mineração, pessoas de regiões e culturas diferentes vieram para o estado e os conglomerados populacionais cresceram em passo acelerado e se tornaram tipicamente urbanos para, posteriormente, se tornarem rurais. Cunha (2009, p. 60) assegura que “pode-se afirmar que em Minas é o espaço urbano em si que vai produzir – mais do que simplesmente anteceder – o espaço rural, e não o contrário, como via de regra se pensa o caminho da formação das cidades e dos espaços urbanos na história”. Deste modo, para abastecer a população foi se formando na região, paralelamente à mineração, uma diversificada estrutura produtiva agropastoril e manufatureira de subsistência formadora do comércio regional.

Para enfrentar a crise vinda com o declínio da atividade mineradora, essas atividades diversificadas aumentaram consideravelmente e ajudaram a sustentar a economia local, não sendo exagero afirmar que, apesar da crise na mineração, a região se manteve e se reorganizou produtivamente com novos ramos econômicos, exercendo, com o fim da escravidão e com os ex-escravos, papel importante nesse cenário que se configurava no final do século XVIII e início do século XIX, pois Mariana não foi uma cidade que recebeu correntes migratórias estrangeiras significativas, absorvendo grande parte dessa mão de obra que aqui se estabeleceu.

Portanto, é coerente que a peculiar formação de lugar que surge com características tipicamente urbanas, que se configura como importante polo econômico, administrativo, religioso e cultural, seja também pioneiro em outros aspectos sociais,

como a educação, partindo do pressuposto de que “escolarização e urbanização são fenômenos paralelos”, conforme Hilsdorf (2012, p.43)7.